Candidato pede votos a ocupantes de cemitérios em Mogi
Em épocas de campanhas eleitorais, as listas com nomes de pessoas e seus respectivos endereços passam a ter valor elevado no mercado paralelo que costuma comercializar tais produtos. Comuns em entidades associativas que congregam grande número de participantes, ou em órgãos públicos, como IBGE, INSS e Prefeituras, entre outros, os listões que deveriam ser alvos […]
11/09/2022 07h06, Atualizado há 47 meses
Em épocas de campanhas eleitorais, as listas com nomes de pessoas e seus respectivos endereços passam a ter valor elevado no mercado paralelo que costuma comercializar tais produtos. Comuns em entidades associativas que congregam grande número de participantes, ou em órgãos públicos, como IBGE, INSS e Prefeituras, entre outros, os listões que deveriam ser alvos do mais absoluto sigilo por respeito à privacidade de cada pessoa que não autoriza a divulgação, tais materiais acabam sendo utilizados em favor de um ou outro privilegiado candidato.
Mas não são apenas os políticos que se valem do “sigilo” dessas relações para obter alguma vantagem com isso. É comum, por exemplo, pessoas serem informadas sobre sua aposentadoria pelo telemarketing de alguma empresa interessada em oferecer empréstimos consignados, antes mesmo de receberem o aviso oficial do INSS.
A busca pelas listas que facilitam os contatos com centenas de pessoas numa só tacada é intensificada por políticos que desejam se corresponder com eleitores em busca de possíveis votos.
E foi assim que, nas eleições municipais de 1976, em Mogi das Cruzes, um veterano vereador decidiu ir atrás de funcionários da Prefeitura Municipal em busca de algum cadastro onde constassem nomes e endereços de virtuais eleitores.
Afinal, uma relação desse tipo seria um verdadeiro achado para que o candidato à reeleição pudesse encaminhar os santinhos e todo tipo de propagando disponível em sua campanha.
O vereador, no entanto, não tinha limites. E na busca pelos prováveis eleitores, passou a fazer pressão sobre alguns diretores de departamentos para que lhe fossem cedidos os nomes e endereços disponíveis em um ou outro setor da Prefeitura.
Mário Celso Gomes da Silva, chefe do antigo Barracão, o grande almoxarifado da Prefeitura de Mogi, foi uma das “vítimas” do incômodo vereador, que passou a visitá-lo quase todos os dias em busca de alguma relação que ajudasse em sua campanha à reeleição.
Mário Celso protelou ao máximo, mas diante da insistência do político, acabou por lhe entregar uma extensa lista de cerca de 5 mil nomes, para os quais o vereador passou a enviar suas correspondências. Gastou uma grana altíssima e os primeiros resultados não foram nem um pouco animadores.
Em lugar de manifestações de apoio, passou a receber respostas de familiares dos destinatários, indignados com o político que insistia em pedir votos para parentes que haviam falecido tempos atrás.
Só então o vereador descobriu que a lista que lhe fora fornecida era a dos ocupantes dos jazigos dos cemitérios da cidade.
O vereador nunca mais voltou a incomodar Mário Celso Aliás, também nunca mais falou com ele sobre qualquer outro assunto.