Com Paulo Pereira de Carvalho, Mogi perde seu último grande herói
A notícia da morte de Paulo Pereira de Carvalho, o último herói ainda capaz de lembrar histórias vividas pelos mais de 500 expedicionários que Mogi e região enviaram para a Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, deixou o domingo cinzento, apesar do sol que brilhava intensamente, mesmo sem conseguir alterar a temperatura amena do outono […]
16/04/2023 17h03, Atualizado há 39 meses
A notícia da morte de Paulo Pereira de Carvalho, o último herói ainda capaz de lembrar histórias vividas pelos mais de 500 expedicionários que Mogi e região enviaram para a Itália, durante a Segunda Guerra Mundial, deixou o domingo cinzento, apesar do sol que brilhava intensamente, mesmo sem conseguir alterar a temperatura amena do outono mogiano.
Imediatamente, me veio à memória outro domingo, o dia 10 de fevereiro de 2019, quando ocorreu o último encontro com “Paulinho”, como costumava chamá-lo, ao lado de uma turma da pesada, que sempre frequentava a casa dele, especialmente nos finais de semana.
Convidados especiais para o arroz a carreteiro, que ele próprio preparou, lá estavam, nos fundos de sua confortável residência, na Vila Oliveira, entre outros, Miled Cury Andere, seu derradeiro companheiro de Força Expedicionária Brasileira (FEB), já chegando aos 100 anos e que faleceria algum tempo depois; o capitão Antonio Mendes, o eterno comandante do Tiro de Guerra, que apresentava ao grupo o novo instrutor da unidade mogiana; Josemir e Amair Ferraz de Campos; a filha Beth Nogueira e outros parentes próximos; além do conhecido “Josimar” e seu inseparável violão.
O almoço aconteceu da maneira como ele gostava: em meio a histórias que cada um buscava reviver a seu modo, deixando a última palavra para o anfitrião e o amigo Miled, que lembravam novos detalhes, especialmente dos episódios vividos nos campos gelados da Itália, onde os brasileiros engrossaram as fileiras dos países aliados que combatiam a sanha totalitária de Adolf Hitler e os demais integrantes do Eixo do Mal.
Mas a conversa rolava mais solta ainda quando se falavam de assuntos da Mogi em que todos viveram e amavam. Uma conversa descontraída, onde o anfitrião, com seu inconfundível boné azul, se destacava pela memória privilegiadíssima para seus bem vividos 98 anos.
Eventuais lapsos eram rapidamente corrigidos com um bom gole de um uísque 12 anos, que intercalavam copos espumantes da cerveja, indispensável para aplacar o calor daquele mês de fevereiro.
O Carnaval se aproximava e o “Paulinho” já tinha planos para uma matinê, junto à piscina, no amplo quintal. Todos dali já estavam convidados, ou melhor, intimados pelo anfitrião, um incorrigível festeiro, para quem o passar dos anos parecia servir para atiçar ainda mais sua disposição para estar à frente de eventos, como aqueles que ele capitaneava em seu Terraço Paulo, um restaurante que marcou época na cidade, onde se apresentaram grandes seresteiros dos anos 80 e 90, como Altemar Dutra e tantos outros.
Foi lá que “Paulinho” recepcionou o ex-presidente Jânio Quadros, com o prato que ele próprio fazia questão de preparar, o arroz A carreteiro, onde se destacava a carne seca desfiada em meio a um bem temperado arroz, que ganhava, em suas mãos, a umidade certa para não ficar solto e seco e nem empapado ao extremo. Jânio não só repetiu, como enfileirou algumas cervejas e pelo menos cinco caipirinhas, outra especialidade da casa. E ainda conseguiu deixar o local como se nada tivesse ocorrido, embalado pelo pudim de leite condensado que deveria ser comido de joelhos, não fosse a autoridade do comensal.
Antes do Terraço, “Paulinho” já havia sido dono da Choperia e Pizzaria Maracanã, outro frequentadíssimo restaurante do centro da cidade, que sobreviveu até que a degradação urbana passou a tomar conta dos arredores da praça Oswaldo Cruz, a ponto de serem rebatizados por um vereador como “Quadrilátero do Pecado”.
Mas voltemos ao domingo das lembranças. O principal prato da sobremesa daquele memorável almoço foi o violão de “Josimar”, que passou a acompanhar os presentes em músicas que marcaram época na vida da maioria dos presentes, todos já quebrando, há tempos, a barreira dos 60, 70 anos.
E como não poderia deixar de acontecer, a voz grave e potente de Miled Cury puxou aquela que levaria a todos para uma viagem no tempo, a “Canção do Expedicionário”, cujos versos foram entoados, com indiscutível orgulho, pelos dois heróis da FEB e pela maior parte dos visitantes que conhecia a letra de Guilherme de Almeida, que dizia: “Você sabe de onde eu venho?/ Venho do morro do engenho/ Das selvas dos cafezais/ Da boa terra do coco/ Da choupana onde um é pouco/ Dois é bom, três é demais” e vai por aí afora.
Um momento especial que o jornalista não poderia deixar de registrar, como tantos outros daquele dia para não ser esquecido.
Mesmo caminhando com certa dificuldade, sob o peso dos 98 anos, “Paulinho” estava lúcido e dono de uma memória prodigiosa, sem jamais perder a alegria e o fino trato que ele sempre dedicou aos amigos.
Naquele dia, como em tantos outros domingos em que recebia amigos e familiares para festivos almoços, ele parecia especialmente alegre. Afinal, ali estavam só amigos, entre os quais, Amair Campos, autora de um livro que transformou a participação do expedicionário Paulo Pereira de Carvalho na Segunda Guerra, num livro denominado “Campo Minado – Uma história amor e guerra”. O amor ficava por conta do que sempre dedicou à esposa Haidee Brasil, que ele conheceu logo após o retorno dos campos de batalha, num baile do União Futebol Clube, em homenagem aos pracinhas mogianos.
O livro, recém-lançado, à época, tinha o prefácio de Miled, que dizia, ao final: ‘Quanto à experiência e as ações de guerra, cada um de nós teve a sua própria vivência. Vivemos situações diferentes e poucas vezes nos encontramos, durante nossa permanência nos campos de batalha. Eu só posso acolher e aplaudir o meu ‘velho’ e sempre querido companheiro, que nos deliciou com suas explanações. Parabéns, Paulo!”
Além da presença dos amigos, havia outro motivo a ser festejado pelo expedicionário mogiano naquele fevereiro de 2019: dias antes, ele havia sido condecorado pelo Exército Brasileiro com a “Medalha da Vitória”, que para os participantes, como ele, dos dias difíceis – mas gloriosos – da FEB, na Segunda Grande Guerra, tinham um significado mais que especial.
Aquela foi uma tarde inesquecível, de encontros difíceis de serem esquecidos. Miled faleceria algum tempo mais tarde, em 15 de janeiro de 2021, três semanas após completar 100 anos (relembre reportagem aqui).
O amigo Paulo chegou aos 101 anos e já caminhava, célere, para os 102, apesar do agravamento dos problemas de locomoção, ocorrido especialmente durante a pandemia, cuja solidão imposta pela necessidade de isolamento social, o atingiu duramente.
O homem que venceu a morte nos campos de batalha acabou surpreendido por ela.
E, com isso, Mogi perde o seu último grande herói.
Aos amigos restaram as boas e inesquecíveis lembranças e histórias por ele deixadas.