Congelamento da tarifa agrada, mas passageiros querem mais horários e linhas
A queda de passageiros desde os primeiros meses de 2020, ano inicial da pandemia, provocou a redução da frota de ônibus circulando entre as 78 linhas existentes atualmente em Mogi das Cruzes – em 2019, eram 84. Está na demora entre um ônibus e outro, sobretudo no final de semana, quando alguns usuários afirmam já […]
29/01/2023 17h30, Atualizado há 42 meses
A queda de passageiros desde os primeiros meses de 2020, ano inicial da pandemia, provocou a redução da frota de ônibus circulando entre as 78 linhas existentes atualmente em Mogi das Cruzes – em 2019, eram 84. Está na demora entre um ônibus e outro, sobretudo no final de semana, quando alguns usuários afirmam já ter ficado mais de uma hora e meia no ponto, a principal reclamação do sistema público de transporte. A notícia sobre o congelamento da tarifa ainda não está muito difundida entre os usuários.
Moradora na Estrada das Varinhas, Rosemeire Barbosa Goes, que ali reside há seis anos, afirma que ela e os vizinhos contam com o ônibus a cada uma hora. “No final de semana não tem, demora muito”, informa, destacando que limpeza e o atendimento dos motoristas são um fator positivo desse meio usado por pessoas de todas as classes sociais, segundo afirma a secretária Cristiane Ayres, de Mobilidade Urbana.
Se Rosemeire pudesse, faria o que mais pessoas imprimem na rotina para atravessar a cidade: recorreria ao transporte por aplicativo. “Como é um bairro afastado, as corridas não compensam e os motoristas não vão”, lamenta. Ela aprovou o congelamento da tarifa em R$ 5. No entanto, cobra: “precisa ter mais ônibus, mais horários”. Quando conversou com a reportagem, Rosemeire ainda não sabia sobre a decisão da Prefeitura de não reajustar a tarifa.
A mesma opinião tem Sérgio de Abreu, morador no residencial Jardim Maricá, no bairro do Rodeio, sobre a qualidade do serviço. “Pela manhã, as partidas atendem os trabalhadores, mas, depois das 9 horas, esquece. Já fiquei uma hora esperando o ônibus em dia de semana. E, no final de semana, uma hora e meia parado, só esperando”, indigna-se.
Abreu defende que o dinheiro que será pago às empresas terá de ser fiscalizado. “Elas ganham muito dinheiro e o transporte não é bom. Aqui no bairro, temos duas opções, que chegam sempre no mesmo horário. É desorganizado”, diz.
Já Valdira Freitas reclama do preço da tarifa. “Ida e volta são R$ 10, é muito caro”, indica, opinando que o pagamento por cartão de crédito pouca diferença fará: “O preço teria de ser menor e ter mais horários e opções”.
O sistema municipal operado pelas empresas Princesa do Norte e Mogi Mob (CS Brasil) atende uma média mensal de 2,5 milhões de passageiros/mês.
Há notável queda de demanda entre os dias úteis, quando são transportados 104.677 pessoas. e nos finais de semana.
Aos sábados, segundo balanço divulgado pela Prefeitura, esse número cai para 48.722 passageiros e aos domingos para quase um quarto – 21.563.
A Prefeitura informa que tem realizado estudos para reorganizar as partidas, de acordo com o fluxo e necessidades dos transportados. Está sendo implantado o Sistema Pronto e uma pesquisa sobre o embarque e desembarque das pessoas busca entender, na prática, as necessidades da população, segundo Cristiane Ayres, que responde pela Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana. Ano passado, foram reorganizadas 24 linhas, o que acrescentou 300 partidas.
De vem o recurso
A secretária afirmou que os recursos para pagar os R$ 13 milhões ao ano às empresas concessionárias virá de economias e renegociação de contratos feitos pela Prefeitura no ano passado. O orçamento deste ano para a Mobilidade teve um acréscimo de 25% e está estimado em R$ 37 milhões (em 2022, o recurso inicial da pasta era de R$ 27 milhões). Caso seja provado o subsídio, o recurso anual (R$ 13 milhões) será acrescentando ao orçamento para a Mobilidade.
Ex-conselheiros cobram transparência
O Conselho Municipal de Mobilidade Urbana está sem funcionar, para valer, há mais de dois anos. Um processo para a definição dos novos integrantes está em curso. A falta do órgão é lamentada por ex-conselheiros, como o arquiteto Paulo Pinhal, que se candidata mais uma vez para ter voz no grupo, um recurso social importante para o acompanhamento de decisões como os reajustes das tarifas e projetos viários.
Pinhal afirma que, mesmo participando desse grupo, desconfia da plena veracidade da prestação de contas apresentada. “Eu sempre disse isso, o Conselho não tem acesso a todas as informações”, lamenta.
Para ele, o subsídio poderá ser uma política de atração de usuários, mas ele defende que alternativas ao transporte gratuito devam ser apresentadas para valorizar o setor. Ele também questiona o fato de o subsídio ser pago por todos os cidadãos e o transporte não ser desfrutado por todos. “Eu mesmo já pedi para o ônibus parar e o motorista não parou. Há falhas que estou conhecendo agora e também destaco o heroísmo nos motoristas, que cobram, dirigem, ajudam os idosos a subirem nos ônibus”.
Sandro Munfort, que representa o Sindicato dos Taxistas no Conselho Municipal, defende que a cidade tem de buscar fontes para bancar a subvenção, de modo a não prejudicar outros setores como saúde e a educação. “De onde virá esse dinheiro?”, questiona, lembrando que a cidade, até agora, não regulamentou o transporte por aplicativo, o que poderia ser uma fonte para bancar o transporte público com os impostos cobrados das operadoras deste sistema.
Pinhal e Monfort criticam a ausência do Conselho Municipal na elaboração do Plano de Modicidade Tarifária.
“Eu acompanhei um parente que esteve internado na Santa Casa e não havia soro e nem gaze. Isso eu vi. O subsídio será bom, mas é preciso saber de onde virá o dinheiro para que o transporte não seja priorizado enquanto outros setores, como a saúde, a educação e até a segurança estão precisando de investimentos”, opina Monfort, reclamando que o processo ocorre sem o conhecimento da cidade. “A população precisa estar a par destas decisões”. O mesmo reforça Pinhal: “É preciso que esse tema seja debatido porque afetará as finanças da Prefeitura”, conclui.
Tarifa zero avança
Enquanto Mogi das Cruzes estuda subvencionar pela primeira vez o transporte municipal pagando uma parte da tarifa às empresas concessionárias, 51 cidades brasileiras estudam a tarifa zero, inclusive São Paulo, enquanto outras 11 já adotam o sistema e acompanham o crescimento no uso dos ônibus.
O subsídio à tarifa ficou mais conhecido após ter sido implantado capitais como São Paulo e Curitiba.
Os dados estão no site da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva também estuda a medida como um impulsionador econômico e social.
A capital São Paulo além de subsidiar uma parte do transporte com recursos da Prefeitura e do Estado, adota medidas que economizam o preço como o Bilhete Único, que permite um só pagamento para o uso de diferentes meios de transporte.
Em cidades que já adotaram o sistema, os números do aumento de passageiros são significativos.
A expansão do uso do transporte de massa é um pressuposto para mudar a vida e a mobilidade no interior das cidades, com destaque para a redução da poluição e dos congestionamentos. Em outros países, o subsídio ao transporte público é bem superior ao concedido nas cidades brasileiras.