Ainda dá tempo de salvar o rio Tietê, poluído em Mogi
Da nascente do rio Tietê, em Salesópolis, até a chegada a Mogi das Cruzes – 45 quilômetros de distância – a qualidade da água é considerada boa de acordo com análises da Fundação SOS Mata Atlântica. Porém, ao entrar na cidade, o manancial já tem seu nível de oxigênio reduzido para uma média de 4 […]
04/06/2021 16h52, Atualizado há 62 meses
Da nascente do rio Tietê, em Salesópolis, até a chegada a Mogi das Cruzes – 45 quilômetros de distância – a qualidade da água é considerada boa de acordo com análises da Fundação SOS Mata Atlântica. Porém, ao entrar na cidade, o manancial já tem seu nível de oxigênio reduzido para uma média de 4 miligramas por litro, considerado o limite para a preservação da vida aquática.
Apesar de ainda receber elevada carga orgânica sem o devido tratamento ao longo de seus 43 quilômetros em solo mogiano e sair da cidade com maior índice de poluentes, especialistas avaliam que é possível salvar o Tietê, começando pela ampliação do tratamento de esgoto e da conscientização da população, poder público e empresas.
“De Salesópolis até Biritiba Mirim, a qualidade da água é boa. Quando entra em Mogi, o rio começa a ter queda acentuada e da região de Suzano para Itaquá, ele chega a zero de oxigênio. Isso oscila e, às vezes, em Suzano, a situação já é bem degradante. Percebe-se comprometimento expressivo da qualidade da água, com zero de oxigênio, perda de biodiversidade, mau cheiro, a água muda de cor, aumento da quantidade de lixo e, infelizmente, um descasotanto das autoridades quanto dos cidadãos e empresas, que continuam lançando efuentes, sem muito rigor, no Tietê, a partir da passagem por Mogi. Este cenário segue até a cidade de Santana do Parnaíba”, destaca o biólogo e ducador ambiental da SOS Mata Atlântica, Cesar Pegoraro.
Segundo o profissional, a recuperação do manancial é possível, mas para isso, os projetos devem ser colocados em prática o quanto antes, já que o processo exige tempo, investimentos e conscientização ambiental.
“Temos histórico de casos de rios que passaram por degradação e pelo processo de recuperação, como o Tâmisa, Reno e Tejo, e hoje têm uma qualidade interessante. Isso depende muito do engajamento da sociedade civil, continuidade dos projetos de despoluição, compromisso das empresas e fiscalização por parte dos órgãos competentes ao lançamento de esgotos industriais e domésticos. De acordo com este engajamento coletivo, a recuperação pode ser mais rápida”, explica o biólogo, apontando que esta pode ser a saída para o rio, que percorre quase 1,1 mil quilômetros desde Salesópolis até desaguar no rio Paraná, em Itapura, no interior de São Paulo.
Sobrevivência
O biólogo Cesar Pegoraro explica que a recuperação do rio Tietê exige investimentos em coleta e tratamento de esgoto, universalização do saneamento básico, adequação das leis e fiscalização do setor produtivo e engajamento da comunidade. “Não existe maior patrimônio coletivo do que a água que mantém a todos vivos e é uma só. Se não estivermos engajados na sua preservação, não temos como sobreviver”, alerta.
Desafio: tratar mais esgoto
Há 20 anos, apenas 0,5% do esgoto doméstico gerado em Mogi das Cruzes recebia tratamento; hoje, este índice chega a 67%, mas 33% ainda são descartados in natura no rio Tietê, comprometendo a qualidade da água do manancial que corta a cidade
De 10 a 15 anos. Este é o tempo que o rio Tietê pode levar para ser recuperado, devolvido à população de Mogi das Cruzes e reinserido à paisagem urbana da cidade, segundo avaliação do sociólogo e consultor de gestão pública e sustentabilidade, Daniel Teixeira de Lima. “O estrago ao meio ambiente ocorre rapidamente, mas a recuperação é lenta”, alerta ele, que também integrou o Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema).
Segundo Lima, é possível salvar o rio Tietê, com investimentos, primeiramente nos trechos mais críticos. “Mogi tem a faca e o queijo na mão porque, com o licenciamneto ambiental municipalizado, consegue gerir melhor, e é importante que continue a participar na gestão da Área de Preservação Ambiental (APA) da Várzea, para minimizar qualquer tipo de infração que tenha ação efetiva sobre este tipo de poluição”, destaca.
Ainda de acordo com ele, o custo para deixar Mogi 300%, que corresponde a 100% de casas com rede de água, 100% com coleta de esgoto e 100% de esgoto tratado, seria de quase R$ 2 bilhões. “Se incluírmos o desassoreamento, o montante chegaria a R$ 3 bilhões”, lembra, referindo-se a uma estimativa de sua gestão como secretário municipal do Verde e Meio Ambiente, até 2020.
Lima, que atualmente é professor do Centro Paula Souza e consultor, aponta que o maior volume de carga poluente do Tietê ainda é proveniente do despejo de 33% de esgotos in natura no manancial. “Há 20 anos, jogava-se 99,9% do esgoto direto no rio. Hoje, trata-se 67%, mas ainda restam 33%. Já a poluição industrial é um problema minimizado ao extremo com o processo de licenciamento ambiental feito com seriedade. Em Mogi, há muitas multinacionais, que são obrigadas a ter certificações ambientais em todo o processo produtivo, como a ISO 14000, para vender ao exterior. Isso, aliado à onda de sustentabilidade, levou à redução drástica de indústrias poluindo o rio”, considera.
Uma das apostas para recuperar o Tietê e reinseri-lo à paisagem urbana é o projeto +Mogi Ecotietê, que além da recuperação de áreas verdes próximas ao manancial, prevê a construção de dois parques, ampliação do Centenário, construção de corredor ambiental ecológico sustentável, sistema de vias e intervenção urbanística em César de Souza, ciclovias, passarela sobre o Tietê, ampliação da capacidade da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) de César, implantação de redes de abastecimento de água e coleta de esgoto, além do saneamento ambiental dos córregos Lavapés e dos Corvos. O investimento previsto é de R$ 361 milhões.
O primeiro passou foi dado com contratação da empresa para elaboração do projeto executivo e de execução das obras de ampliação da capacidade de tratamento da ETE Leste, no Parque Centenário. O contrato de R$ 32,6 milhões prevê execução do projeto e obras em 36 meses. Ao final, a capacidade de tratamento de esgotos da ETE deverá aumentar dos atuais 142 litros por segundo para 460 litros por segundo.
Segundo a secretária municipal do Verde e Meio Ambiente, a arquiteta Michele de Sá Vieira, é preciso aproximar os recursos ambientais da população. “O projeto +Mogi Ecotietê é uma grande oportunidade para isso, porque com a consolidação dos parques conseguiremos desenvolver esta proximidade e o rio será reintegrado. Com esta sensação de pertencimento, a população passa a usufruir destes recursos e a cuidar, incorporando-os no cotidiano”, aposta, destacando que a educação ambiental é fundamental para sensibilizar as pessoas com relação aos recursos naturais, além das obras físicas, também importantes para recuperação do Tietê.
“O rio compõe a paisagem de Mogi, temos uma ampla várzea e, do ponto de vista da questão ambiental, ele é extremamente relevante, assim como a Serra do Itapeti, e deve ser preservado”, reforça a secretária Michele.
Trechos devem receber limpeza
O Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) informa que está em fase de desenvolvimento o edital de licitação do desassoreamento do trecho do rio Tietê na extensão de cinco quilômetros entre o Córrego Sabino, em Biritiba Mirim, até a ponte da avenida João XXIII, no distrito de César de Souza, em Mogi das Cruzes. Esta será a primeira vez que o trecho passa por este tipo de limpeza e estima- se a retirada de 77,2 mil m³ de sedimentos e vegetação.
A expectativa é a mesma para o desassoreamento de três quilômetros, divididos em duas partes: a primeira entre as fozes do rio Paraitinga e do córrego Capela, e a segunda entre a Estrada Santa Catarina e o canal de adução da Sabesp, ambos em Biritiba Mirim. O trecho foi desassoreado pela última vez em 2015 e está prevista a retirada de 46 mil m³ de sedimentos e vegetação da área.
Juntos, os investimentos nos trechos do manancial em Mogi e Biritiba Mirim somam R$ 19,4 milhões, com recursos garantidos pelo Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Fehidro).