As pegadas de Dom Pedro em Mogi das Cruzes
Ainda príncipe regente e em meio à efervescência política do país-colônia, quando líderes e autoridades liderados pela princesa Maria Leopoldina e José Bonifácio defendiam a separação do Brasil de Portugal, em 1822, dom Pedro passou por Mogi das Cruzes, Guararema, Suzano, Poá e Itaquaquecetuba. Na cidade, ele pernoitou no dia 23 de agosto, antes de […]
10/09/2022 07h10, Atualizado há 47 meses
Ainda príncipe regente e em meio à efervescência política do país-colônia, quando líderes e autoridades liderados pela princesa Maria Leopoldina e José Bonifácio defendiam a separação do Brasil de Portugal, em 1822, dom Pedro passou por Mogi das Cruzes, Guararema, Suzano, Poá e Itaquaquecetuba. Na cidade, ele pernoitou no dia 23 de agosto, antes de seguir viagem para São Paulo.
Detalhes sobre a presença ilustre, precedida de comunicados aos cidadãos e ordens como a limpeza das ruas para a retirada do mato, fezes de animais e sujeira acumulada em valetas ao lado das casas que recebiam o esgoto, intrigam pesquisadores e nutrem folclore, como a lenda sobre o futuro rei ter deixado uma bandeira durante a passagem por aqui (veja mais abaixo).
Além da visita registrada na ata da Câmara, de concreto, a história confirma as pegadas do futuro rei por caminhos antigos de uma vila pobre e sem muito poderio político e econômico, usados por tropeiros entre o Rio-SP e mapeados pela Rota Imperial de Mogi das Cruzes, concluída nesta semana, com a instalação de sinalização em um trecho de 27 quilômetros, entre o bairro do Botujuru, Sabaúna, a região central e Jundiapeba. A criação do roteiro foi antecipada por O Diário, no ano passado.
Agora, algumas adequações foram feitas no traçado para orientar a passagem de turistas, ciclistas e interessados em cumprir o roteiro transformado pela urbanização da cidade, como explica o professor de História, Glauco Ricciele, diretor do Departamento Histórico, da Secretaria de Cultura.
Naquele 23 de agosto, dom Pedro visitou a igreja de Santana e as igrejas do Carmo, foi à Casa da Câmara, no endereço onde está hoje a escola Coronel Almeida, às casas do capitão-mór da então vila, Francisco Melo, e Salvador Leite, em Sabaúna.
A Rota Imperial tem placas no sentido Suzano. As inscrições passam por caminhos centenários que foram atualizados por avenidas e ruas como Francisco Rodrigues Filho, Álvaro Pavan, Ricardo Vilela (onde está a igrejinha de Santa Cruz), Dr Corrêa (Largo Bom Jesus) e José Bonifácio. A partir desse trecho, há uma mudança. Antigamente, os viajantes seguiam pelo Beco da Lapa e a rua Ipiranga, o que implicaria em entrar contramão. Por isso, a sinalização indica a avenida Voluntário Fernando Pinheiro Franco (Dos Bancos). “Foram necessárias adaptações, inclusive, no trecho inicial, para tornar possível a interligação”, comentou o professor.
A rota chegou a ser discutida em conjunto pelas secretarias de Cultura do Alto Tietê para comemorar o bicentenário da Independência do Brasil. Houve um atraso por parte das demais cidades. Ricciele afirma que, no futuro, as prefeituras irão concluir o traçado que poderá ser a espinha dorsal de um projeto mais amplo de preservação histórica e de incentivo ao turismo nos municípios por onde passou dom Pedro.
Mogi dá sequência à sinalização de rotas antigas (do Sal) e novas (da Luz) e mira, com isso, sistematizar oportunidades para difundir cultura e memórias, inclusive as orais, passadas de família em família. Na Rota Imperial, o caminhante poderá visualizar outros marcos arquitetônicos e centenários, como as Igrejas do Carmo, tombadas como patrimônio histórico nacional, o Museu Guiomar Pinheiro Franco, o Teatro e o Museu Mogiano (no Casarão do Carmo). Ali dentro, aliás, há mais registros dessa época.
O bonde e a gripe
A história tem desconstruído a visão paulista, que enaltece o estado, no episódio da separação do Brasil de Portugal, como realça Glauco Ricciele, do Departamento de História, de Mogi das Cruzes.
O professor lembra que até mesmo a data da comemoração da Independência é controversa porque a coroação de dom Pedro ocorre apenas no dia 12 de outubro. Ele lembra o papel, cada vez mais reconhecido e divulgado da princesa Maria Leopoldina e de José Bonifácio na assinatura do decreto da cisão entre o país e Portugal.
Essas e outras histórias estão sendo recontadas em edições mensais do Roteiro do Patrimônio, que tem atraído participantes mensalmente.
Além da visita de dom Pedro à cidade, o que movimentou a vila mogiana de diferentes maneiras há 200 anos com a limpeza de ruas, a manutenção dos animais dentro dos quintais e a realização do banquete oferecido ao príncipe, o Roteiro do Patrimônio tem retirado dos livros e do Arquivo Histórico outros fatos locais como o anúncio da chegada de bonde que percorreria a região central, o que nunca ocorreu.
Projetado com interesse pelo então prefeito Gabriel Pereira e o coronel Souza Franco, então, presidente da Câmara, o bonde chegou a ser encomendado e anunciado no jornal A Vida – o problema é que a chegada do novo meio de transporte coincidiu com o início da gripe espanhola, em 1919.
Outro roteiro que despertou interesse foi o que levou os visitantes até o Hospital Dr. Arnaldo Pezzuti Cavalcanti, em Jundiapeba, o antigo leprosário Santo Ângelo que sempre desperta interesse por ter incluído Mogi das Cruzes na política sanitária paulista para conter o avanço da hanseníase (antigamente chamada como lepra).
Bandeira de 200 anos
No Museu Mogiano, um relicário histórico pode ser visitado pelos interessados em conhecer mais sobre a passagem de dom Pedro pela cidade. Apesar de não ter sido deixada pelo príncipe na cidade, como muitos acreditaram e ainda divulgam, a flâmula resiste ao tempo, apesar de estar em estado bastante deteriorado.
Glauco Ricciele é um dos que defende que a peça não deve ser restaurada porque perderia mais de 80% da originalidade. Para ele, no entanto, essa deve ser uma decisão da comunidade mogiana, mas enfatiza, “penso que uma intervenção terá de mudar quase a totalidade da bandeira, que está muito desgastada”. O alto custo da recuperação é outro fator a ser levado em conta para uma pasta com orçamento mirrado.
A bandeira imperial foi lançada após a passagem de dom Pedro por Mogi, o que derruba o mito de que ela teria sido esquecida pelo séquito do futuro imperador. Já uma outra bandeira, a de Mogi das Cruzes, está em condições superiores.
Ambas estão expostas no Museu Mogiano, no Casarão do Carmo. Elas estão dentro de redomas de vidro, em uma sala com luz fria, que não incide diretamente nos dois objetos – uma medida que pretende protegê-las da passagem do tempo.
Essas e outras históricas resgatadas nesse bicentenário da Independência do Brasil podem ser conhecidas em visitas ao Museu e também nas edições do Roteiro do Patrimônio, que devem ser agendadas antecipadamente.
As próximas datas destes encontros que já atenderam centenas de pessoas serão nos dias 25 de setembro; 8 e 23 de outubro; 5 e 13 de novembro, e 3 e 18 de dezembro.