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Grupo busca ajuda para obras urgentes nas igrejas do Carmo de Mogi

Num significativo retorno das Igrejas das Ordens Primeira e Terceira Carmo, em Mogi das Cruzes, convidado para o lançamento do livro As Solfas de Mogi das Cruzes – edição musical e apontamentos históricos, o historiador Jaelson Bitran Trindade, do Instituto Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), convocou o público ali presente e a cidade a […]

Por O Diário
21/10/2022 14h29, Atualizado há 44 meses

Num significativo retorno das Igrejas das Ordens Primeira e Terceira Carmo, em Mogi das Cruzes, convidado para o lançamento do livro As Solfas de Mogi das Cruzes – edição musical e apontamentos históricos, o historiador Jaelson Bitran Trindade, do Instituto Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), convocou o público ali presente e a cidade a reunir esforços para restaurar o conjunto tombado como patrimônio histórico nacional em 1980 e que hoje sofre com as dores da passagem do tempo – fissuras, infiltrações, rachaduras, cupins e outros problemas típicos de construções centenárias. O apelo dele começa a surtir efeito com a retomada de uma mobilização para a captação de recursos financeiros (veja retranca) e uma vistoria realizada por representantes do Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artísticos e Turístico do Estado de São Paulo).

Trindade, o historiador como Jurandyr Ferraz de Campos [1936-2019] e outros pesquisadores certificaram documentos datados entre 1720 e 1730, objeto do obra recém-publicada, que não foram descartados no correr dos anos e são considerados, há 40 anos, os mais antigos registros da música colonial no Brasil. 

A história sobre as solfas (papéis de música) serve como forte argumento para o zelo e proteção das igrejas do Carmo, que ganham notoriedade por terem chegado ao hoje, de pé, e com obras e pinturas sacras relevantes – o Carmo é anterior às igrejas de Minas de Gerais.

Entre 2008 e 2009 foram refeitos 2 mil metros quadros do telhado, o que eliminou as goteiras que comprometiam a estrutura. Desde então, serviços de manutenção são para “apagar incêndios”, como se diz. O prédio segue sem serviços específicos, como uma descupinização para conter a praga que não dá descanso à madeira, e restauros para combater o apagamento de pinturas e das fissuras que podem ser observadas por olhos atentos.
A conservação se dá na medida do possível. “O que nós fazemos é ir apagando fogo, mas, uma revitalização apropriada, nós não temos condições financeiras de fazer”, afirma Marcos Antônio Siqueira de Moraes, museólogo que responde por esse patrimônio.

Pouco antes da pandemia, lembra, por falta de ponto final na documentação, o Carmo e Mogi das Cruzes perderam os recursos liberados pelo ProAC, lei de incentivo do Governo do Estado.

Apesar de investidas e atuação de servidores da Secretaria de Cultura, na gestão passada, mesmo com a obtenção de parte dos recursos, o processo não foi finalizado a tempo. Uma nova frente de trabalho se organiza para buscar, novamente, verba por meio de fomento cultural.
Marcos de Moraes defende maior entrosamento entre as partes – Carmo, poder público, sociedade civil. “Temos o Comphap, que possui pessoas realmente guerreiras, mas não tem poder de fiscalização nem para barrar a deterioração do patrimônio”, insere.

Com o Museu das Igrejas do Carmo (MIC) aberto a visitas agendadas, casamentos e apresentações, com as do Coral do Carmo, o acesso a esse rico patrimônio é restrito. Com um quadro de funcionários enxuto e recursos finitos para a zeladoria, não há como atender ao que Trindade comentou na visita ao Carmo, 38 anos depois de ele ter iniciado o processo que culminou com a confirmação de que está em Mogi das Cruzes, os mais antigos registros físicos da música tocada e composto no Brasil colonial. 

Trânsito pesado

O museólogo lamenta o distanciamento do poder público e lembra da necessidade de se reduzir, com urgência, como ocorre em outras cidades, o trânsito pesado no entorno do Carmo. 

Esse pedido será refeito à administração municipal. Dificuldades como a reorganização dos trajetos de veículos que passam em frente – pela rua São João – ou, ao lado, pela rua Otto Unger, foram usados como argumento contra o pedido feito pelas igrejas. 

Aposta: o futuro

O Carmo dá passos curtos para legar, ao menos a estudantes, o rico acervo de imagens antigas ainda mantido no MIC – anteriormente, o conjunto também somava peças da Diocese de Mogi das Cruzes. 

Nas visitas feitas por grupos de algumas escolas, que possuem professores antenados com a pedagogia da experimentação e ensino da história, in loco, e não só pelos livros ou tela dos celulares, Marco vê o interesse das crianças e jovens. “Talvez, eles, possam cuidar melhor, no futuro”, projeta ele. 

De peças de Frei Agostinho e altares raros a um belo jardim

No meio do quarteirão ocupado por uma das primeiras construções arquitetônicas de Mogi das Cruzes, um jardim bem cuidado, em flor, pode levar o visitante a esquecer do endereço aonde ele se localiza: no Carmo, no centro praticamente engolido pelo crescimento urbano e populacional da cidade à beira dos 500 mil habitantes. Um aviso: esse éden é composto por alguns dos ciprestes mais velhos e preservadas na região central, com direito a disputa dos galhos para ninhos de pássaros e até do gavião, topo de cadeia alimentar conhecido por viver nas alturas, e curiosidades. Há tomates adocicados que frutificam em uma árvore, outras frutas silvestres e abelhas jataí, sem ferrão, produzindo mel em caixinhas bem posicionadas em meio ao colorido e bom cheiro de rosas. Alguns banquinhos e vasos coloridos dependurados entre troncos fortes de palmeiras completam a cena como atrativo a mais na visita ao interior ao conjunto das igrejas do Carmo – as duas antigas, da primeira metade dos séculos XVII e XVIII, além da novata e mais usada (com entrada pela rua Otto Unger) e o convento onde vivem os carmelitas. A Província Carmelitana Santo Elias mantém um seminário para a formação de freis.
O jardim desconhecido não está isolado. Mesmo constando de fotografias e cartões postais de décadas passadas, as igrejas das Ordens Primeira e Terceira são pouco conhecidas pelos mogianos – apesar da beleza, riqueza cênica e valor histórico, arquitetônico, artístico, religioso e cultural.

Primeiro porque elas costumam estar mais fechadas do que abertas. A igreja mais nova é o epicentro das atividades paroquianas.
O distanciamento entre a sociedade mogiana do Carmo começa por aí.

Tão somente o Carmo e o Casarão do Chá, no Cocuera, são patrimônios histórico nacional na cidade. Por isso, Marcos de Moraes se mostra aliviado e orgulhoso das visitas feitas por escolas, em face do fechamento do Museu das Igrejas do Carmo (MIC), que funcionou com portas abertas por poucos anos.

 Mesmo as excursões de estudantes são restritas a professores que conhecem o projeto de arte e educação desenvolvido desde 2005. “Às vezes, recebemos alunos de São Paulo”, conta ele, admitindo que falta um maior diálogo com o poder público, e órgãos como as diretorias e secretarias de Ensino – inclusive da região que poderiam melhor utilizar o espaço.

O que há para ver

Os carmelitas chegaram a Mogi na primeira metade do século XVII. Após a construção da igreja, a ornamentação se deu no século seguinte. Já a Igreja da Ordem Terceira, gestada pela Confraria Leiga de Nossa Senhora do Carmo em 1762. Ambos foram registrados no livro do tombo Sphan – hoje Iphan, em 1967.

Ali resistem quatro tipologias de altares dos períodos da colonização, com os estilos colonial português (altar da Capela de Santo Alberto), joanino, barroco rococó e neoclássico; além de imagens do século XVII, e peças de frei Agostinho de Jesus, artista santeiro reconhecido no estado de São Paulo.

Em 2017, este jornal mostrou a necessidade de se preservar melhor esse bem da cidade e do país durante visita feita pelo professor Percival Terapeli, da Unesp. Assim ele deu um veredicto, 5 anos atrás: “Está lastimável. Desde 1977 visito o Carmo com frequência e desde então, nada foi feito para preservar essas pinturas. A madeira está na casca, o cupim acelera a degradação. Sorte a nossa que o cupim devora a madeira, não a pintura (sorri, com alívio). O telhado está um pouco melhor, mas o forro, está em condições muito ruins”. 

Condephaat faz vistoria

Chamou atenção no concerto que interpretou as músicas antigas – cuja história é contada no livro As Solfas de Mogi das Cruzes – a presença de morcegos em um baile de voos rasantes na noite de setembro que marcou o reencontro do público e as Igrejas do Carmo, com apoio do Sesc Mogi Cruzes.

Isso, além das palavras de quem defendeu a raridade desse patrimônio histórico nacional.

Na semana passada, uma visita de representantes do Condephaat e do Comphap, além de integrantes da Secretaria Municipal de Cultural, tratou de temas nevrálgicos desta reportagem, que vinha sendo preparada anteriormente à vistoria. Os técnicos do órgão estadual, conta Marcos Antônio de Siqueira Moraes, do Carmo, orientaram sobre medidas que deverão ser tomadas para a preservação, como a formalização de pedido à Prefeitura para a redução do tráfego de caminhões pesados na vizinhança, e a busca de incentivos  fiscais para a descupinização e salvaguarda de pinturas. Desde o concerto, outros reflexos estão sendo colhidos, como a articulação feita pela empresa Malungada Produções, para a busca de recursos que garantam obras emergenciais por meio de leis de incentivo. Nesse processo, a Prefeitura, representada por Ubirajara Nunes, do Conselho do Turismo e da Secretaria de Cultura, e Deo Miranda, da Malungada, devem ter novidades sobre o realinhamento dessas forças, em breve, segundo Marcos de Siqueira.

Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (SMCT) destacou que não há possibilidade legal de aporte de verba municipal. Porém, destacou que “o corpo técnico está à disposição para auxiliar na construção de projetos que visem as intervenções necessárias nos bens tombados.

A Prefeitura lembrou as tratativas frustradas para a obtenção de edital do BNDES, para patrimônios tombados pelo IPHAN, com subsídio de R$ 1 a R$ 3 milhões para os projetos aprovados. “Na ocasião, não houve tempo hábil para as instituições prepararem seus projetos para inserirem no edital do BNDES”, disse, acrescentando que se mantém à disposição para o auxílio técnico na busca de outras fontes de fomento. 

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