Jacu, pássaro arisco, come na mão de sitiante mogiano
A princípio, o bando foi chegando, aos poucos. Ressabiados, alguns desceram para dividir o milho com as galinhas, que se alimentavam um pouco mais distantes da casa. João observou aquilo e lembrou-se das palavras de um amigo que partira, anos antes: “Se você for se aproximando, pouco a pouco, e continuar lhes dando milho, eles […]
12/06/2021 10h13, Atualizado há 62 meses
A princípio, o bando foi chegando, aos poucos. Ressabiados, alguns desceram para dividir o milho com as galinhas, que se alimentavam um pouco mais distantes da casa.
João observou aquilo e lembrou-se das palavras de um amigo que partira, anos antes: “Se você for se aproximando, pouco a pouco, e continuar lhes dando milho, eles vão se acostumar com você”.
Era tudo o que João queria. Daquele dia em diante, passou a esperar os finais da tarde, quando o bando de jacus deixava o mato próximo e voava em direção de sua casa, em busca de alimentos. Com todo o cuidado possível, ele foi distribuindo comida e buscando se aproximar, cada vez mais, daquele grupo de aves escuras, ariscas como poucas.
Passou a conversar com elas, enquanto lhes destinava alguns caroços de milho, buscando ganhar a confiança delas e trazê-las para mais perto dele.
O tempo foi passando e, qual não foi sua surpresa, ao ver que uma delas, a mais desenvolta de todas, passou a deixar o bando e caminhar em sua direção. “Vem, neguinha, vem”, dizia ele, quase num sussurro, enquanto atirava os grãos de milho, cada vez mais perto.
E ela veio, veio, até que entre os dois – João e ave – criou-se um clima de cumplicidade mútua, a ponto de ele lhe estender a mão cheia de milho e ela se aproximar para capturar o alimento diretamente com o bico.
O jacu vinha, matreiro, aparentemente temeroso, bicava um caroço de milho e dava um salto para trás, como se prevenindo de alguma inesperada maldade, que nunca aconteceu. A amizade e a confiança entre os dois se fortaleceram a ponto de, nos últimos tempos, a ave deixar o grupo para comer, tranquilamente, o milho na mão de seu tratador.
Os demais jacus do bando, não. Esses ainda continuam à distância, mas João não tem dúvidas: logo que conquistar a confiança dos demais, suas tardes ganharão um sentindo muito especial, no momento em que todo aquele grupo estiver se alimentando ao lado dele, no terreiro de sua casa.
Namoro
João de Oliveira Prado, prestes a completar 70 anos no próximo dia 9 de julho, é natural de Salesópolis, e morou por mais de uma década em Biritiba Mirim, onde enveredou com sucesso pela política, chegando a vereador e vice-prefeito da cidade, antes de ir morar no bairro de Aroeiras, em Mogi das Cruzes, próximo da Barragem do Rio Jundiaí, a uns sete quilômetros adiante do trevo da Mogi-Bertioga, que dá acesso à Rodovia Francisco Ribeiro Nogueira, principal caminho para o distrito de Taiaçupeba.
E foi em sua casa, cercada pela mata densa das abas da Serra do Mar, e com a represa a seus pés, que ele viu chegar a pandemia de Covid-19, obrigando-o a se manter em quarentena, ao lado da esposa.
A rotina daquele lugar quase deserto levou o aposentado a buscar alguma coisa para ocupar o tempo de pleno ócio. Foi então que resolveu montar alguns pontos de alimentação para os pássaros, abundantes naquela região de natureza exuberante. Com laranjas e bananas retiradas de seu pequeno pomar e quirera de milho moído, ele criou comedouros específicos para cada espécie. E passou a conviver mais diretamente com sabiás, tico-ticos, coleirinhas, bigodinhos, assanhaços e alguns outros pássaros, que ele sequer conseguiu identificar, apesar da beleza.
E foi justamente na esteira desses passarinhos que apareceram os primeiros jacus, aves de maior porte, confundidas até mesmo com as galinhas que a família mantém, soltas pelo quintal. E foi aí também que começou o namoro que só terá um final feliz, quando João conseguir atrair todo o bando para junto dele.
Enquanto isso não acontece, ele continua esperando a chegada dos jacus, que nem todos os dias aparecem, por volta das cinco da tarde, a hora do lanche do final do dia.
Enquanto a pandemia persiste, João mantém a sua rotina de cuidar dos passarinhos e esperar pela vinda de seus visitantes.
Ariscos
A história de João e os jacus surpreendeu até mesmo o médico veterinário Jeferson Leite, coordenador do Núcleo de Prevenção e Controle de Arboviroses (insetos), conhecedor profundo da fauna de Alto Tietê. Ele atesta a existência de muitas dessas aves, da espécie jacu açu, na região. Os bandos aumentaram consideravelmente desde que a caça foi proibida, a legislação arrochada e a fiscalização intensificada. Jeferson se impressionou com o fato de aves tão ariscas terem sido atraídas para junto do morador, a ponto de se alimentarem em suas mãos. Um fato raro, mas não inédito: na internet circulam vídeos com pelo menos mais um caso de aproximação entre um morador e a ave daquele tipo.
O jacu açu (Penelope obscura) é uma ave do gênero craciformes (anteriormente chamadas de galliformes), oriunda de um grupo com 15 espécies diferentes, encontrado na América Central e do Sul, onde habitam as florestas. No Brasil, o Penelope recebeu o nome de jacu (do tupi ya’ku) ou “cujá”; nos EUA é chamado de “guam” e na língua espanhola de “pava”.
São aves de grande porte, que chegam a pesar mais de um quilo e podem atingir 85 centímetros de comprimento, de sua cauda longa e arredondada até a cabeça pequena, encimando um pescoço alongado. As asas também são grandes.
A pele em torno dos olhos vermelhos está exposta e tem uma cor azulada.
O jacu tem papo vermelho e saliente na região da garganta. Sua plumagem é uniforme e escura, na maioria dos casos preta-chumbo com aspecto escamado. Tal efeito é resultado das penas do dorso e peito, que são debruadas de branco. A maioria tem os pés avermelhados.
O jacu se alimenta de flores de ipês e tarumãs em cipós, durante a florada. Caminhando pelo chão, costuma comer frutos, sementes e pequenos invertebrados. Mas não dispensa um bom milho, fazendo jus ao seu nome, que significa “o que come grãos”.
Seus principais predadores eram os humanos que os caçavam para comer. Em Mogi, além de locais mais distantes, como a moradia de João do Prado, eles podem ser vistos até mesmo no centro da cidade, em raras aparições, como o grupo que frequentou, por algum tempo, os fundos das Igrejas do Carmo, como lembra o veterinário Jeferson, chamado a testemunhar a espantosa ocorrência.
“Eles vão aonde há comida de sobra, principalmente nas regiões próximas das matas”, diz Jeferson. Não por acaso, que o jardim da casa de dona Terezinha do Rosário, no bairro do Rodeio, costuma receber constantemente os sempre bem-vindos visitantes.
As proximidades da Serra do Mar, junto à Mogi-Bertioga, são mais um habitat dos jacus. É de lá que muitos voam para chegar até a casa de João do Prado em busca de lautas refeições.