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Médica Aline Matos mostrou a O Diário a importância dos profissionais de saúde mental

“As pessoas estão chegando nos seus limites”, cravou Aline Correia Souza de Matos, médica psiquiatra e coordenadora da Saúde Mental na Secretaria Municipal de Saúde, em uma de suas últimas entrevistas a O Diário, em meados de agosto último. De lá para cá, ela se destacou pelo atendimento psicológico às famílias que perderam entes queridos para o […]

Por O Diário
21/01/2021 19h57, Atualizado há 66 meses

“As pessoas estão chegando nos seus limites”, cravou Aline Correia Souza de Matos, médica psiquiatra e coordenadora da Saúde Mental na Secretaria Municipal de Saúde, em uma de suas últimas entrevistas a O Diário, em meados de agosto último. De lá para cá, ela se destacou pelo atendimento psicológico às famílias que perderam entes queridos para o novo coronavírus. A profissional faleceu na manhã  desta quinta-feira, dia 21, vítima de complicações do novo coronavírus, antes de ter a chance de ser imunizada.

A saudade já é sentida por profissioais de saúde de Mogi, que nutriram respeito pelo trabalho da médica. O Diário republica na integra e de forma virtual, a última entrevista de Aline para o Circuito, publicada originalmente em 23 de agosto de 2020. Confira a seguir:

 

ENTREVISTA COM ALINE CORREIA SOUZA DE MATOS

Os dados oficiais mostram que os casos da Covid-19 começam a se estabilizar, no Brasil mas isso não quer dizer que estão minimizadas as consequências da pandemia. Na verdade é o contrário: quanto mais tempo convivemos com as incertezas do novo coronavírus, mais nos aproximamos de doenças como a depressão e a ansiedade, e por isso precisamos de assistência em saúde mental. Quem explica isso a O Diário é a médica psiquiatra e coordenadora da Saúde Mental na Secretaria Municipal de Saúde, Aline Correia Souza de Matos, que diz que “as pessoas estão chegando nos seus limites”.

Durante o isolamento social a procura pela assistência de um profissional da saúde mental aumentou? Se sim, por quê?

Sim. Houve de fato um aumento substancial na procura da assistência em saúde mental. Dentre os motivos estão o aumento de processos depressivos e ansiedade devido ao isolamento social e também devido ao medo de adquirir uma doença que pode ser fatal, além do risco de perder entes queridos e luto real provocado pela pandemia de Covid-19.

Consegue precisar esse aumento em números?

Ainda não tenho dados estatísticos pra mostrar, mas consigo dizer que no início do isolamento social a procura caiu pelo medo das pessoas de circular nas ruas, o que represou os problemas de saúde mental. Existia uma expectativa que a pandemia durasse em torno de dois meses, mas como o prazo ficou indefinido e está se prolongando as pessoas estão mais adoecidas e agora as agendas estão lotadas. Estamos trabalhando para que todos sejam atendidos.

O quadro de profissionais do município é suficiente para dar conta deste índice?

Temos hoje quatro equipamentos de saúde mental, sendo Centro de Atenção Psicossocial (Caps) I voltado para a infância e adolescência, Caps II voltado para os adultos e casos mais graves egressos de internação psiquiátrica, Caps AD voltado para os casos de dependência química e o Centro de Convivência e Cooperativa (Cecco), que está com suas atividades prejudicadas, fazendo atendimentos via telefone por não poder atender as pessoas presencialmente em grupos. Além disso temos os profissionais psicólogos que atendem em sete unidades básicas de saúde, todos buscando suprir as necessidades que surgiram durante a pandemia.

Quem tem buscado auxílio? Qual é a idade e perfil dessas pessoas, no sentido de condições financeiras, sociais, apoio da família e outras características?

Temos procura de todas as faixas etárias, com aumento maior de adolescentes, adultos em fase produtiva que perderam empregos, idosos que estão mais fragilizados com o isolamento social e distanciamento da família por serem pertencentes ao grupo de risco do novo coronavírus.

Quais são os problemas mais recorrentes entre essas pessoas? E também como se dão os tratamentos e quais os índices de recuperação?

Os problemas mais frequentes são a depressão e transtorno de ansiedade. O tratamento varia de acordo com a gravidade do caso, podendo consistir em psicoterapia, tratamento medicamentoso psiquiátrico e até eventualmente internação psiquiátrica. Os índices de recuperação tendem a ser bons, porém são tratamento longos e por hora, nos agravos provocados pela pandemia, esses procedimentos estão apenas no início.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos. Ou seja, já é um grande problema médico mesmo sem a pandemia… O novo coronavírus provocou aumento no desejo de morte?

Sim. Com o aumento de casos de depressão, os casos de desejo de morte também aumentaram.

Por que os pacientes depressivos chegam a este estágio, de pensar em dar fim a própria vida?

A angústia, a sensação de ser um peso para as pessoas que se ama, a falta de vínculo com a vida e a sensação de impotência são algumas das respostas para a tentativa de suicídio. Mas o que precisa ficar claro é que esses pensamentos são patológicos e fazem parte de uma doença tratável. O tratamento não é rápido e não é simples, mas existe, é possível, e essas pessoas precisam de ajuda profissional.

Outras situações que têm surgido no cenário pandêmico são a falta de renda, a compulsão por compras online, o aumento da violência doméstica, a dor do luto… Tudo isso pode desencadear problemas de saúde mental?

Sim. A falta de renda e violências de qualquer natureza podem ser causas de depressão, ansiedade, estresse pós-traumático e outras patologias da mente. A compulsão por compras já é uma doença que precisa de intervenção, e o luto é um estado normal, mas que quando torna a vida disfuncional também precisa da atuação de um especialista.

De acordo com dados oficiais do Ministério da Saúde, o Brasil vem registrando redução de óbitos e estabilização de casos da Covid-19. Com isso a busca pelo atendimento psicológico e psiquiátrico vem diminuindo também?

Por hora só vem aumentando. Estamos vendo as consequências da pandemia na mente das pessoas, e em alguns casos as doenças mentais estão eclodindo agora, já que as pessoas estão chegando nos seus limites.

A senhora está à frente do Programa de Saúde Mental da cidade, que envolve o Centro de Convivência e Cooperativa (Cecco), espaço pensado para o relacionamento entre pacientes psiquiátricos e a população. Como avalia a estrutura de Mogi das Cruzes para as demandas desta área?

O Cecco é um excelente equipamento onde as pessoas tem a chance de se sociabilizar, fazendo oficinas terapêuticas e de geração de renda. Foi muito difícil no momento de pandemia ter que interromper suas atividades por precaução sanitária. Com isso, vários pacientes deixaram de se beneficiar. Os técnicos, psicólogos e terapeutas ocupacionais, nesse momento, estão fazendo atendimento aos pacientes de modo virtual, online, e também via telefone. Estamos aguardando a liberação para retomada gradual das atividades presenciais.

Como é o trabalho do Centro de Saúde Mental, que substituiu em fevereiro último o antigo Ambulatório Municipal de Saúde Mental? Houve demandas relacionadas à Covid-19 por lá?

O Centro de Saúde Mental faz o atendimento dos pacientes adultos do município em conjunto com o Caps II e tem recebido os casos novos relacionados à pandemia de Covid-19, assim como tem prestado assistência continua a quem já vinha em tratamento. Muitos dos pacientes regulares registraram piora durante esse período, necessitando de ajustes no tratamento.

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