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Morre Fátima Shaker, importante nome da comunidade árabe de Mogi

Na noite deste sábado (6), a síria Fátima Shaker veio a óbito na UTI do Hospital Ipiranga, em Mogi das Cruzes, aos 83 anos. Ela precisou ser internada após um sangramento no estômago e uma parada cardíaca, que pegaram os familiares de surpresa. O velório aconteceu na Mesquita da cidade e o sepultamento no cemitério […]

Por O Diário
07/11/2021 10h55, Atualizado há 58 meses

Na noite deste sábado (6), a síria Fátima Shaker veio a óbito na UTI do Hospital Ipiranga, em Mogi das Cruzes, aos 83 anos. Ela precisou ser internada após um sangramento no estômago e uma parada cardíaca, que pegaram os familiares de surpresa. O velório aconteceu na Mesquita da cidade e o sepultamento no cemitério Parque das Oliveiras, na Vila Oliveira.

“Perder a minha mãe é uma tristeza imensa. Mas, por mais que a pandemia seja um acontecimento trágico, nós tivemos a oportunidade de estarmos mais próximos nesses quase dois anos. Eu pude trabalhar de casa, passei a aprender as coisas com ela, a cozinhar pratos da culinária árabe. Ficamos bastante unidos e pudemos aproveitar bem esse período”, diz Haisem Abaki, filho de Fátima.

Ele lembra que a mãe foi muito importante em Mogi e até mesmo em outras cidades de São Paulo, onde pôde dar aulas de árabe a várias gerações de filhos de árabes e também para aqueles que não tinham descendência. Fátima ajudou refugiados que foram trazidos pela ONU para Mogi e os acompanhava até mesmo em consultas médicas, enquanto eles ainda não sabiam falar português, atuando como uma assistente social.

Nascida na Síria, na cidade de Tartus, Fátima veio para Mogi em 1962, aos 25 anos. Ela já era noiva de Mohamed Abdul Baki, com quem se casou ao chegar no Brasil. Ele morreu em 2007. O outro filho do casal, Hizar, morreu há 35 anos. Além de Haisem, ela deixa os netos Vivian e Vitor Baki.

Entrevista

Com o título “A professora de árabe e francês”, o jornal O Diário de Mogi publicou, no dia 17 de abril de 2014, uma entrevista concedida por Fátima Shaker, pessoa muito respeitada junto à comunidade árabe  de Mogi das Cruzes, à repórter Carla Olivo, durante a série “Entrevistas de Domingo”. Nela, a professora nascida na Síria, “mas de coração mogiano, contou um pouco de sua vida e do trabalho que realiza na cidade. Acompanhe a entrevista:

“Nascida na Síria, mas mogiana de coração”. Assim se autodefine a professora Fatima Mohamad Shaker Agha, que chegou a Mogi das Cruzes em 19 de novem-bro de 1962, em plena comemoração do Dia da Bandeira – feriado nacional na época. “Acho que é por isso que gosto tanto do Brasil e do Hino Nacional”, revela a filha do casal Mohamad Shaker Agha e Kadija Abdul Baki, que deixou a terra natal aos 25 anos, quando cursava a Faculdade de Matemática, com destino a Mogi, onde o marido, Mohamed Abdul Baki, já estava desde 1955 e comandava a loja de roupas Casa Tartus, na Rua Coronel Moreira da Glória, no Centro. Logo, ela começou a ensinar a língua árabe para filhos de imigrantes, seguiu carreira como professora particular por 45 anos e, mais recentemente, deu aulas para refugiados palestinos e iraquianos. Fatima, que iniciou a trajetória no Magistério no curso primário em escolas públicas da Síria e fala quatro idiomas – árabe, francês (já que na sua infância o país era dominado pela França), português e espanhol, viu várias regiões de Mogi se desenvolver. A família morou na Rua Coronel Santos Cardoso, em frente à Praça Sacadura Cabral, em Braz Cubas – onde o patriarca teve armazém de secos e molhados -, em César de Souza e no Centro. Viúva desde 2007, Fátima reside com o filho Haisem, a nora Nilza – que considera como filha – e os netos Vivian e Vitor, que diz ser seus ‘tesouros’, no Nova Mogilar. Na entrevista a O Diário, ela fala da colônia árabe, que de início vendia produtos de porta em porta até montar as primeiras lojas de roupas e anos mais tarde de móveis em Mogi e compartilha suas histórias com os leitores:

A senhora nasceu na Síria. Por que a vinda para o Brasil?
Nasci em Tartus, na Síria, onde vivi até os 25 anos. Lecionava para turmas de primário em escolas da rede pública e estava cursando a faculdade de Matemática quando vim para Mogi das Cruzes. Cheguei na data do meu aniversário, 19 de novembro de 1962, Dia da Bandeira, que na época era feriado nacional. Meu marido já estava aqui desde 1955. Por indicação do primo do pai dele, ele veio conhecer a Cidade, acabou ficando e abriu a Casa Tartus, que vendia roupas, chapéus e malas de viagem, na Rua Coronel Moreira da Glória, 313. Primeiramente, moramos em uma casa da Rua Coronel Santos Cardoso, que era considerada uma região longe do Centro. Lembro que havia feira na Rua Santana e que moramos apenas um mês lá e fomos para a Praça Sacadura Cabral, em frente à estação de trem.

O que havia nesta região?
Ali ficamos 12 anos, no sobrado onde hoje funciona um consultório dentário, ao lado da antiga pizzaria Maracanã. Nossa diversão era ir aos cinemas. Havia o Odeon, que ficava bem perto de casa, em frente ao jardim (Praça Oswaldo Cruz), onde as crianças costumavam brincar; o Parque, no local hoje ocupado pelo Supermercado Esperança; o Urupema e o Avenida. Na época, todas as ruas da Cidade eram de paralelepípedo e a primeira que ganhou asfalto foi a Avenida (Voluntário Fernando Pinheiro Franco). Ali também instalaram o primeiro semáforo de Mogi. Quem tinha carro e estudava ou trabalhava em São Paulo, deixava o veículo ao lado da estação e viajava de trem, já que não havia perigo e só anos mais tarde é que o ônibus Mogizão começou a fazer o trajeto até a Capital. Ainda não havia prédios na Cidade e um dos primeiros foi o da esquina da Dr. Deodato (Wertheimer) e José Bonifácio, onde depois funcionou a Livroeton. No Mogilar e na Vila Oliveira só havia mato. No Hotel e Restaurante Estância dos Reis costumávamos fazer piquenique aos finais de semana e levar os filhos para brincar.

Ficaram mais lembranças desta época?
Também me recordo quando foi aberto o primeiro supermercado da Cidade, o Mogiano, na Rua José Bonifácio, onde todo mundo gostou da ideia de poder escolher as mercadorias e pagar no caixa. Até então, levávamos a lista de compras nas vendas ou armazéns e a entregávamos ao dono ou funcionário que separava o que precisávamos. Ficávamos esperando, não podíamos pegar os produtos, mesmo porque, não havia nada empacotado, tudo tinha que ser pesado na hora. Até para comprar óleo de cozinha precisávamos levar o litro, já que ele era armazenado em barris. Não havia lojas de roupas de bebês e comprávamos o tecido para fazer as peças em casa, assim como as fraldas, faixas e cueiros, tudo costurado à mão. As mulheres usavam vestidos ou saias, feitos por costureiras, porque não tínhamos lojas vendendo roupas prontas. Já os homens iam aos alfaiates para encomendar calças sociais, camisas e paletós. As calças jeans só surgiram anos depois e as primeiras foram das marcas Faroeste e Lee. Os chapéus também eram comuns e meu marido os vendia na loja, que depois da Moreira da Glória funcionou na Rua Professor Flaviano de Melo, até que ele comprou um armazém de secos e molhados na Rua Schwartzmann, em Braz Cubas, onde arroz, feijão, farinha e outros produtos ficavam em sacas e eram pesados na hora de acordo com o pedido do cliente. Outra curiosidade é que na Rua Barão de Jaceguai, havia um comércio que entregava em casa a água em garrafões de vidro de 5 litros para quem, como eu, não se acostumava com o gosto de barro do filtro.

A senhora o ajudava no comércio?
Ajudei um pouco porque desde que cheguei aqui já comecei a dar aulas dos idiomas árabe e francês aos filhos de imigrantes que moravam em Mogi. Quando eu era criança, a França dominava a Síria, então a disciplina era obrigatória nas escolas e eu a aprendi. Em Mogi, logo vi que as crianças de descendência árabe estavam falando errado, sem pronunciar as letras p e v, então, quis montar uma escola. Primeiramente, aluguei uma sala na escola que o professor Percy (Benedicto de Siqueira) abriu na Rua Braz Cubas. Juntei os filhos dos patrícios de Mogi, Suzano, Ferraz de Vasconcelos, Guaianazes e outras cidades da Região e comecei a ensinar a língua para crianças e adolescentes de 8 a 15 anos. Os Sultão, Saada, Youssef, Rachid, Baghos, entre outros, estudaram comigo, assim como os netos. Foram mais de 45 anos lecionando e hoje encontro muitos deles que estão casados, têm filhos, são médicos, advogados, dentistas, empresários…

Onde mais a senhora lecionou?
Depois da Rua Braz Cubas, montei a sala de aula em um dos quartos do sobrado onde morava, em frente à Praça Sacadura Cabral. Nos anos 80, foi aberta a Associação Muçulmana de São Miguel e fiquei 8 anos lecionando lá, mas continuava dando aulas para os mogianos na casa deles. Em seguida, a Associação começou também em Mogi, na Avenida (Voluntário Fernando Pinheiro Franco), no prédio onde funcionava a Ultragás e foi comprado pelos Saada, que hoje têm loja lá. Esta era a família com mais crianças estudando comigo e com o tempo a escola mudou para a Coronel Souza Franco, onde está o Center Saada. Ainda ficamos um tempo na Rua Ipiranga, mas como lá sempre havia enchente, voltei a dar aulas na casa dos alunos. Os parentes ajuntavam as crianças na residência de um deles e eu ia lecionar. Mais recentemente, quando parei, estava dando aulas na minha casa.

Por que a senhora deixou as aulas?
Ainda hoje, se algum dos meus ex-alunos precisarem de algo ou quiserem esclarecer dúvidas, posso ajudar, mas 
 depois que meu marido morreu, em 11 de setembro de 2007, perdi a força. Dois meses depois disso, a Cáritas Diocesana me procurou porque havia refugiados palestinos e iraquianos na Cidade e eles precisavam de uma professora que falasse árabe. De início, não aceitei, estava em luto fechado e não saía para nada. Mas meu filho insistiu, o pessoal vinha me buscar e trazia em casa, então ainda fiquei dois anos dando aulas de português para eles, no salão da Catedral e na UMC (Universidade de Mogi das Cruzes).

A senhora não quis voltar mais para a Síria?
Meus pais tiveram oito filhos homens e sou a única mulher. Conheci apenas cinco dos meus irmãos (Kussai, Ahmed, Mustafa – estes três hoje já falecidos -, Luai, que também é professor de línguas, e Adnan, que tem fábrica de doces e salgados árabes), porque morria muita criança na época. Como era professora da rede pública na Síria, pedi licença não remunerada de 2 anos e vim para cá. Depois disso, voltei, passei alguns meses lá, pedi licença novamente e vim para cá, mas acabei ficando e desisti da carreira na Síria. Desde o início, gostei muito do Brasil e, principalmente, de Mogi. Adoro tudo aqui, as pessoas que são muito hospitaleiras, a Cidade que vi crescer, o clima… Quando saio para algum lugar e, voltando pela Mogi-Dutra vejo a Cidade lá de cima, é a maior alegria. Gostaria de ter concluído o curso de Matemática, mas quando cheguei aqui não havia facul-dade na Cidade, era preciso ir para São Paulo ou São José dos Campos e logo engravidei, então ficou difícil. Depois, quando a Omec (Organização Mogiana de Educação e Cultura) estava começando a montar os cursos superiores, ainda na Rua Senador Dantas, me inscrevi no vestibular, mas na época não havia a opção para francês, apenas inglês, e não fiz a prova. Com quatro meses no Brasil, escrevia em português, mas não sabia a pronúncia.

Como a senhora aprendeu?
No início, um coronel que era nosso vizinho, me levou ao Grupo Escolar Coronel Almeida para que eu fizesse o curso de alfabetização Mobral, mas fui apenas até o terceiro dia, porque já sabia tudo aquilo que estava sendo ensinado, já que era professora na Síria, precisava apenas da pronúncia correta. Sempre falei em árabe e tenho forte influência do francês, que estudei 15 anos na escola. Foi com o Anwar Baghos, que na época tinha 8 anos, filho do dono da loja Damasco, hoje Ramage, que comecei a aprender a pronunciar as palavras em português. Eu o levava para casa e escrevia tudo o que ele falava. Assim fui conhecendo as frases do dia a dia e comecei a transcrevê-las em árabe, francês e português. Também aprendi o Hino Nacional Brasileiro, que adoro. Com o tempo, fiz a prova para conseguir a carteira de motorista e passei sem erros, porque a língua estrangeira ajuda muito. Além disso, o português é muito mais fácil do que o árabe, porque se aparece uma palavra no meio da frase, você já consegue entendê-la. 

Há mais saudades da Mogi das Cruzes de antigamente?
Tudo era muito mais tranquilo, não havia perigo e nem maldade. Nossos 
 filhos brincavam no jardim e podíamos deixar os brinquedos do outro lado da rua enquanto os atravessávamos até lá, onde também era possível ficar conversando, sentados nos bancos, mesmo à noite. As crianças iam e voltavam sozinhas da escola e não havia problema. Todo mundo andava a pé, a qualquer hora, mesmo porque quase ninguém tinha carro na Cidade, e não existia violência. Na feira, sempre havia garotos se oferecendo para carregar nossas bolsas e pacotes até em casa, mas realmente era para ganhar algumas moedas em troca, sem qualquer outra intenção. Tudo mudou muito. Quando cheguei aqui, as famílias estavam começando a ter geladeiras em casa, compradas na loja dos Padovani, na Dr. Deodato, e os televisores ainda eram em preto e branco. Mogi era muito diferente.

Por quê?
Havia os blocos na Dr. Deodato e no jardim durante o Carnaval; os desfiles no aniversário da Cidade, com as fanfarras e o grupo de escoteiros Ubirajara, do professor Rodolpho Mehlmann, do qual meu filho Haisem participava e fazia a guarda do fogo na Praça da Matriz (Coronel Almeida); os comércios antigos, como o Foto Gomes, em frente ao jardim, onde as famílias costumavam ir para tirar fotografais, e lojas como Buri, Pernambucanas e Riachuelo, que não era a que existe hoje, mas também ficava na Deodato… Quando cheguei ainda não havia tantas famílias árabes em Mogi, mas aquelas que já estavam aqui ainda mascateavam, vendendo produtos de casa em casa. Depois é que montaram as lojas, primeiramente de roupas, como fizeram os Saada e Sultão, e só bem depois de móveis, como o Ghazal. Hoje, quem comanda o comércio já é a terceira geração deles, mas as tradições ainda são mantidas, com as atividades na Mesquita, o Ramadã, que também faço todos os anos, e os pratos típicos da culinária árabe, que tive dificuldades para aprender a preparar logo que me casei, porque na Síria estudava e trabalhava o dia todo e como era a única filha mulher, minha mãe não me deixava fazer nada. No começo, minha comida saía salgada, sem sal ou até mesmo queimada, mas depois aprendi a cozinhar e preparava todos os tipos de pratos. 

Hoje, quais são as distrações da senhora?
Sempre gostei de fazer crochê, tricô, de ler tudo o que me cai nas mãos e de escrever. Como distração, assisto à televisão, principalmente às novelas das 21 horas. Em 2002 e 2003, fiz a Unai (Universidade Aberta à Integração), na UBC (Universidade Braz Cubas), onde aprendi o espanhol, o quarto idioma que falo.

PERFIL
Nome: Fatima Mohamad Shaker Agha
Nascimento: Tartus (Síria)
Estadocivil: viúva de Mohamed Abdul Baki
Filhos: Haisem e Hizar (falecido)
Netos: Viviane e Vitor
Formação: ensino superior incompleto
Trabalho: professora

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