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No limite da ocupação, Mogi registra filas de espera por leitos de UTI

Já não é mais um segredo. Faltam leitos para atender pessoas com sintomas de Covid-19 em todo o país. A nível estadual, a demanda de transferências registradas na Central de Regulação e Oferta de Serviços de Saúde (Cross) cresceu 117% em comparação a 2020. Hoje, são 1,5 mil pedidos por dia, contra 690 em junho […]

Por O Diário
18/03/2021 19h37, Atualizado há 65 meses

Já não é mais um segredo. Faltam leitos para atender pessoas com sintomas de Covid-19 em todo o país. A nível estadual, a demanda de transferências registradas na Central de Regulação e Oferta de Serviços de Saúde (Cross) cresceu 117% em comparação a 2020. Hoje, são 1,5 mil pedidos por dia, contra 690 em junho último. Em Mogi, onde a taxa de ocupação de leitos é de 100% há 7 dias, a situação é igualmente alarmante. A cidade está no limite.

Sejam públicos ou particulares, os hospitais do município operam superlotados. O mesmo vale para as Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs). No bairro Oropó, por exemplo, há três vagas de “Unidade de Terapia Semi-Intensiva”. Todas estão ocupadas, o que quer dizer que se caso mais alguém precise, a chance de morte é alta.

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Essa informação foi repassada anonimamente a O Diário, por um profissional da saúde que atua no local. Com a “evolução dos pacientes muito mais rápida”, a unidade tem ficado sempre “cheia”, com pacientes já encaminhados via Cross para leitos que ficaram disponíveis em São José dos Campos, Guarulhos e São Paulo.

“Não temos médicos especialistas, mas temos estrutura para manter os pacientes vivos. São três leitos, mas está chegando a situação de precisarmos de quatro. Ainda não chegamos a ter pacientes esperando, mas quase, pois uma pessoa teve melhora. Se precisasse ser intubada, não ia dar. Pelo menos não com ventilação mecânica, teria que ser manual”, mostra o relato.

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Ou seja, com 100% dos leitos ocupados, a UPA do Oropó não tem capacidade para manter uma quarta pessoa viva. Com uso do ambu (equipamento usado para reanimação), seria possível fazer alguém respirando por meia hora apenas, diz o profissional que conversou coma a reportagem.

Divergência

Embora seja notória a falta de vagas em todas as unidades, parece haver dificuldade de assumir a situação. Os únicos que falaram a respeito foram o secretário municipal de Saúde, Henrique Naufel, que confirmou a taxa de ocupação de 117% em Mogi na semana passada, e prefeito da cidade, Caio Cunha (PODE), que confirmou em live nesta nesta quarta (17) a existência de pessoas “na enfermaria, esperando por uma vaga de UTI”. Mesmo assim, a posição oficial ainda é oposta.

Em contato com assessoria da Secretaria Municipal de Saúde, O Diário recebeu, na última terça-feira (16), a informação de que “apesar da superlotação”, tanto o Hospital Municipal de Braz Cubas, onde funciona o Centro de Referência do Novo Coronavírus, como as “demais instituições” estão “conseguindo atender”.

Mensagem parecida foi enviada pela Fundação do ABC, que administra as UPAs do Rodeio e de Jundiapeba. “No caso dos atendimentos específicos de Covid-19, a unidade referência na cidade é o Hospital Municipal de Mogi das Cruzes. Esclarecemos que as UPAs não são unidades de internação prolongada e não possuem leitos de Covid-19, sendo esse atendimento específico do Centro de Referência do Coronavírus”.

 

Atendimento

A reportagem de O Diário conversou com o mogiano Marcello Delascio Cusatis, mais conhecido como Teo, que é biomédico, ex-secretário municipal de saúde e atual diretor do Hospital Santa Maria, de Suzano, para entender o que acontece com quem vai a uma unidade de atendimento e não encontra leitos disponíveis.

Uma das primeiras medidas, segundo Teo, é que serão criadas vagas até extrapolar a capacidade. Em alguns locais, ele aponta para possíveis perdas de “distanciamento recomendado pela vigilância sanitária”.

“Se o hospital tem mais respiradores que leitos de UTI, o que pode acontecer, acaba entubando no Pronto Socorro. É absolutamente comum ver pacientes em tratamento intensivo fora de unidade de UTI”, afirma ele. É o que pode ter acontecido no Hospital Municipal de Braz Cubas, que estava, na semana passada, com 117% de ocupação, segundo o secretário de Saúde de Mogi, Henrique Naufel.

Ainda que tentem atender a todos, o gestor explica que as unidades de saúde pública se apoiam no Cross para pedir transferências de pacientes, enquanto as de saúde privada pedem o mesmo para os convênios. O problema é que toda a rede “está saturada”, gerando uma “fila do caos”.

Critérios

A Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) possui um “protocolo de alocação de recursos em esgotamento durante a pandemia por Covid-19”. Na prática, são critérios usados para decidir, em situações como uma fila de espera, quem recebe o próximo leito.

O objetivo é “auxiliar os profissionais de saúde diante de decisões complexas associadas a alocação de leitos de UTI e ventiladores durante a pandemia”. Sem elencar os critérios, Teo Cusatis cita alguns deles.

Nos casos de UTI, é levada em consideração, por exemplo, a gravidade do quadro clínico e a probabilidade do paciente viver nos próximos 12 meses. Já nos casos de enfermaria, prevalece a avaliação médica. “Se houver dois pacientes com criticidade iguais, o mais idoso terá preferência, ou a quem tem mais tempo de espera”.

Casos

Na UPA do Oropó, em Mogi, onde o tempo de espera pode passar de seis dias, uma filha teve permissão de se despedir do pai, que não sabia se recuperaria após a intubação. Embora particular, no Hospital Santa Maria, em Suzano, os casos também são dramáticos.

Teo Cusatis diz que uma gestante que testou positivo para Covid-19 ficou pelo menos 36 horas sem um leito de UTI. “Com 36 semanas de gestação e o pulmão com lesão grave, ela precisa de UTI, mas estamos com 120% de ocupação”.

Outra situação é a de um casal de idosos, que esperavam há mais de um dia no Pronto Socorro para serem atendidos. “No convênio tem plano apartamento, mas há poucos leitos, então não dá para internar assim. Eles toparam ficar na enfermaria. Estavam a tanto tempo sem lugar para tomar banho, sem poder ir embora para casa. Imagina a sensação da família: chorar porque conseguiu vaga, mas também porque vão enfrentar mais uma batalha”, conta o gestor. São exemplos de “momentos extremos, onde o básico vira algo enorme”.

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