O desafio de ser mãe na pandemia da Covid
A primeira gravidez sempre impõe aos pais o desafio de aprender a cuidar, na prática, de uma criança. Mas o final da gestação da coordenadora pedagógica Mariana dos Santos Nascimento, 34 anos, acabou com toda a programação que ela havia feito para o momento. Na 34ª semana, ela testou positivo para a Covid-19, precisou dar […]
07/05/2021 16h07, Atualizado há 63 meses
A primeira gravidez sempre impõe aos pais o desafio de aprender a cuidar, na prática, de uma criança. Mas o final da gestação da coordenadora pedagógica Mariana dos Santos Nascimento, 34 anos, acabou com toda a programação que ela havia feito para o momento.
Na 34ª semana, ela testou positivo para a Covid-19, precisou dar à luz ao pequeno Enzo às pressas e ainda ficou distante do filho nos dias seguintes, enquanto o desejo era o de tê-lo em seus braços. O novo coronavírus tem feito todas as relações mais difíceis.
A gestação de Mariana já fugia da normalidade que esses processos tinham antes da pandemia. Há mais de um ano, o Brasil está dentro de casa, se escondendo de um inimigo que não pode ser visto a olho nu. Mas tudo corria dentro da normalidade, até que no oitavo mês ela começou a apresentar febre. Era o dia 13 de março. Ela foi ao médico, fez o teste para a doença, mas nos dias seguintes não teve mais sintomas, que reapareceram dias depois, junto com o resultado positivo.
“Voltei no hospital no dia 18 de março e o médico disse que poderia ser emocional, por conta da gestação. Na manhã seguinte, acordei com um pouco de secreção, retornei para ser examinada e aí eles me internaram. Eu estava me sentindo um pouco melhor, por conta do oxigênio, mas ainda sentia muita dor nas costas”, relembra.
No domingo, dia 21 de março, os médicos verificaram que o útero estava frágil e começava a dor do parto. Os médicos também observaram nesse período, que ela estava com aumento do Dímero-D, que pode causar trombose, devido à hipercoagulação do sangue. Por este motivo, disseram que o parto cesariana representava risco para a mãe e o bebê.
“Nesse período em que fiquei internada, estava tomando anticoagulante. Mas no dia em que eu comecei a sentir as dores, quando deram 20 horas, o Enzo nasceu de parto normal. Eu fiquei muito feliz por ter conseguido, já que a cesária era um risco para nós dois. O meu marido não pode acompanhar o parto, porque eu estava com a Covid. Então, nosso filho nasceu, eu só puder dar um beijinho no rosto dele e o levaram para a incubadora. No caminho, o meu marido conseguiu ver ele passando”, conta Mariana, que foi atendida no Hospital Santa Maria, de Suzano.
Enzo tinha 2.050 kg e 45 centímetros. Nos primeiros exames, logo após o nascimento, os médicos descobriram que o Dímero-D de Enzo estava bem acima do normal, mas ele não poderia tomar anticoagulante. Foi colocado no oxigênio. O primeiro teste para a Covid-19 deu positivo. Por isso, ele foi alimentado com uma fórmula e mamadeira, já que não poderia ter contato com as demais pessoas.
Diariamente, Mariana e o marido Welton Santos de Araújo, 27 anos, viam o filho por meio de chamada de vídeo, que os profissionais de saúde faziam para eles acompanharem os cuidados com o bebê. Apenas quando Enzo tinha cinco dias de vida, a coagulação estava se normalizando e a mãe não tinha mais a Covid-19, ela pôde visitá-lo.
“Tive alta médica, mas meu filho continuou no hospital. A médica já tinha liberado que eu tirasse o leite para alimentá-lo. E em um dos dias, ela deixou eu o amamentar. O que era para ser algo normal logo após o parto, demorou e foi ainda mais especial”, disse.
Apesar de Welton não ter tido sintomas da doença, mãe e pai ficaram em casa de máscara e dormindo em quartos separados até que completassem 14 dias que Welton tivesse tido contato com a mulher sem máscara. No período, Enzo foi testado outras duas vezes. Um resultado negativo e o outro de que ele não tinha mais o vírus. A coagulação do sangue também melhorou e, enfim, Welton e Mariana puderam ser pai e mãe com o filho em casa.
No novo normal, uma rotina apenas entre pais e filho
Enquanto levava o filho nos braços para casa naquele 5 de abril, 15 dias após o parto, Mariana dos Santos Nascimento, que de formação já entendia do universo das crianças, sentia a insegurança de como seriam os seus dias.
De novo, a pandemia retirou dela a possibilidade de ter a mãe, uma amiga, ou qualquer pessoa com experiência prática de como são esses primeiros dias, o banho, as noites, para poder lhe ajudar. Eram ela, o marido e o filho para aprenderem juntos. Somado a tudo isso, a fragilidade do filho, que esteve internado nas duas semanas de vida.
Para agravar a tensão, havia a possibilidade do filho ter complicações na visão e audição. Foram necessários alguns exames e acompanhamento médico para essas possíveis sequelas da Covid e da hipercoagulação serem descartadas.
“Primeiro foi o receio de estar grávida em uma pandemia. Depois de ver as crianças nascendo certinho. Mas fiquei internada, mas imaginei que sairia e depois voltaria na data para ter o meu filho. Ele veio antes. Ficou sendo amamentado com a fórmula e não no peito. São tantos os desafios que não poderia imaginar. Ainda estamos só nós três em casa, há um mês”, pontua a mãe.
Neste domingo, Dia das Mães, Mariana disse que tem muito a agradecer. Para uma mãe, quanto mais desafiador o processo de ter/criar um filho, mais ela acessa o amor maior do mundo.
Enzo também trouxe ao mundo uma mãe, que descobre o poder do instinto de cuidar, sobretudo nesses dias de adversidade.
O Diário revela, na história de Mariana, o desejo de que este Dia das Mães também seja especial, ainda que sem abraços.