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O que aprendemos com a vacina contra a Covid-19?

A morte do ator Tarcísio Meira, e a alta médica da atriz Glória Menezes. A internação de Zeca Pagodinho e Silvio Santos pelo mesmo motivo e em condição idêntica. A despedida de Nicette Bruno. Essas cinco celebridades já haviam recebido uma ou as duas doses de alguma das vacinas aplicadas no Brasil. Por que o […]

Por O Diário
22/08/2021 17h04, Atualizado há 60 meses

A morte do ator Tarcísio Meira, e a alta médica da atriz Glória Menezes. A internação de Zeca Pagodinho e Silvio Santos pelo mesmo motivo e em condição idêntica. A despedida de Nicette Bruno. Essas cinco celebridades já haviam recebido uma ou as duas doses de alguma das vacinas aplicadas no Brasil. Por que o Tarcísio não resistiu, recebendo o mesmo tratamento de Glória? 

LEIA TAMBÉM: Vacina salva vidas: como a família Hallage e Gondim venceram a Covid

As perdas de pessoas imunizadas agora, em menor número, continuará fazendo parte do mundo nos próximos meses e, quem sabe, anos.

A explicação é conhecida porque mesmo após receber a vacina contra a gripe e suas variantes, como a H1N1, essa doença mata uma menor parcela da população, graças à imunização coletiva. Ter em mente o que transcorre com a gripe explica o que provoca lamento e comoção diante da perda na luta contra a Covid-19, e também a onda de desinformação a mando de quem nega os fatos, nega a ciência.

A médica Tereza Nihei, que durante 20 anos esteve à frente do departamento de Vigilância Epidemiológica de Mogi das Cruzes, pondera que nenhuma vacina tem 100% de eficácia. O imunizante funciona da seguinte maneira: a partir da proteção individual, ela garante a redução da circulação de um vírus entre a coletividade e ajuda a controlar uma doença infecciosa.

Infelizmente, lamenta ela, “tivemos a perda de uma pessoa querida e conhecida pelo Brasil como o Tarcísio Meira que havia recebido as duas doses da vacina contra a Covid-19 e foi a óbito após se infectar com vírus. É difícil dizer exatamente o que aconteceu, eu diria que não podemos atribuir a um fato único e sim a vários fatores, considerando o que pode contribuir para a gravidade de doenças infectocontagiosas que são a idade e as comorbidades. Sabemos que as pessoas com mais idade apresentam uma resposta imunológica não tão competente como um adulto mais jovem, isso ocorre com outras vacinas como a da gripe”.

Outros fatores que continuarão na investigação sobre o comportamento da vacina e doença, são as comorbidades. “Em qualquer quadro infeccioso, doenças descompensadas como diabetes, doenças do coração, do pulmão, dos rins, pressão alta, enfim qualquer condição clínica crônica”, acrescenta Tereza.

A médica reforça que os sintomas de uma infecção, como a Covid ou a gripe, associados aos sinais de alguma doença crônica descompensada e a idade mais avançada, podem complicar o quadro clínico geral de uma pessoa infectada.
Tarcísio Meira possuía complicadores, como uma leve doença renal, como observa o médico Luiz Carlos Gondim Teixeira. “Já a mulher, Glória, apesar de infectada, tinha mais condições de reagir à Covid”.

Outras celebridades com as doses no braço, Zeca Pagodinho e Silvio Santos, foram hospitalizados. Infectados,  eles apresentaram quadros tratáveis da doença,  uma situação que, com o avanço dos índices de vacinação, passa a ser melhor entendida.

A maioria dos brasileiros mortos não teve essa chance e se transforma em exemplo sobre como a falta da vacina marcará a avaliação do governo do presidente Jair Bolsonaro, que nega a eficácia da imunização. Luciano Szafir, 52 anos, ficou entre a vida e a morte durante 32 dias. O comediante Paulo Gustavo clamou pela vacina desde o ano passado. Contaminado, morreu em maio, aos 45 anos. O custo é alto da falta do imunizante.

Vacina tem de chegar a todos

A internação de pessoas já vacinadas e os registros de mortes, entre os imunizados, levantam questões como a duração da imunidade. A médica Tereza Nihei, que trabalhou nas campanhas de vacinações dos últimos 20 anos, em Mogi, afirma que a terceira dose e uma nova campanha deverão ser adotadas. Confira entrevista: 

A imunidade de quem tomou a vacina primeiro acaba mais cedo?

“É preciso dizer, antes, que a importância da vacinação com qualquer imunizante é o benefício da coletividade através da proteção de cada um. A vacinação da massa reduz a circulação de vírus ou outro agente, como as bactérias, fazendo com menos pessoas adoeçam por aquele agente nocivo. As vacinas também, de uma forma geral, não fazem a proteção de 100% e existe uma parcela pequena da população, cerca de 2% a 5%, que não respondem à vacinação, isto independentemente do tipo de vacina. Daí a importância da adesão da população com intuito de proteger a todos. Por isso, defendemos altas coberturas vacinais, de pelo menos 95% da população alvo. As diferentes respostas imunológicas individuais dependem da idade, da presença ou não de comorbidades, e de outras caracterísitcas pessoais. Todos estes fatores influenciam para uma boa resposta a uma vacina.

Sobre a questão da duração da imunidade, é bom lembrar que ainda não se passou tempo suficiente desde o surgimento da doença e, principalmente, do tempo de início da imunização para uma avaliação segura e real a se estabelecer um prazo para a duração da proteção, mas já existem estudos que apontam para uma durabilidade grande, outros que demonstram que a imunidade pode reduzir com o passar do tempo não tão longo visto ainda que temos mais que um tipo de vacina contra a Covid 19 produzida por vários laboratórios e com diferentes tecnologias. Tudo isso pode influenciar tanto na eficácia e provavelmente na duração da imunidade. Mas podemos afirmar que a vacina é a forma principal para redução da circulação do vírus para o fim ou controle desta pandemia”.

A resposta da vacina está ligada à apresentação de quadros mais leves ou graves?

“Sobre a duração da imunidade, sobre a possibilidade da perda ou redução da proteção mas não dá pra se ter uma certeza. Os estudos ainda são feitos. Analisando, por exemplo, a atriz Glória Menezes, que recebeu duas doses de vacina, também se infectou mas me parece que o quadro clínico foi mais leve, graças à proteção adquirida pela vacina, portanto a minha impressão é que isso vem corroborar a teoria de que a resposta imune é algo individual”.

Teremos a terceira dose?

“Países como Israel, Chile e outros, conforme noticia a mídia, planejam a 3ª dose, ou a dose de reforço, iniciando pelas pessoas de maior idade. Estes países estão considerando a nova variante que tem avançado muito pelo mundo, dada à sua grande capacidade de transmissão e disseminação. Até o momento, a Organização Mundial de Saúde não tem se manifestado favorável à dose de reforço. Mas creio que o Brasil também deverá partir para oferecer dose de reforço assim que possa. Temos que lembrar que existem ainda muitos países com pequena parcela da população que conseguiu receber a primeira dose, e a falta de agilidade no avanço da vacinação é um fator prejudicial e de preocupação, pois favorece o surgimento e avanço de variantes novas, então a vacinação da população do mundo precisa avançar de forma igualitária e rápida para o controle desta pandemia”.

Acha que os primeiros vacinados serão alvo de campanhas já no início do ano que vem?

“O secretário de Estado da Saúde já se manifestou sobre esta possibilidade de termos campanhas anuais, iniciando em 2022 pelas faixas etárias maior de 60 anos e profissionais de saúde. De toda forma precisamos acompanhar a pandemia nas próximas semanas, meses, pois ela é bastante dinâmica, e o Brasil ainda precisa melhorar as coberturas tanto da primeira dose e, principalmente, da segunda. A cobertura vacinal elevada deve ser acompanhada de uma homogeneidade também alta, o que significa que a vacinação precisa chegar a todos de forma uniforme sem exceção a todas as pessoas, faixas etárias e localidades. No Brasil ainda temos que levar as vacinas às nossas crianças, mas infelizmente ainda nem temos imunobiólogicos aprovados”.

DADOS

Primeiros resultados 

Começam a ser divulgados os primeiros resultados de pesquisas que buscam avaliar o impacto da vacinação nos registros de casos e mortes no Brasil. Um deles, surgido de uma parceria entre a USP e a Unesp, vale ser conferido no site da Plataforma de Monitoramento Info Tracker, que atualiza dados diversificados sobre a pandemia.

Os pesquisadores cruzaram os dados de mortes no Brasil entre 28 de fevereiro e 27 de julho deste ano, quando a vacinação começou a ser mais consistente em parte dos estados brasileiros. Os resultados mostram que, neste recorte de tempo, morreram 9.878 pessoas que receberam uma ou duas doses das vacinas aplicadas. Os demais, 96,32%, ou  seja, 268,4 mil vítimas fatais, estavam sem qualquer proteção.

Outras informações começam a fortalecer os argumentos sobre a eficácia das vacinas. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registra uma morte a cada grupo de 25 mil pessoas imunizadas, segundo reportagem da CNN. Esse percentual corresponde a 0.004 da população.

Já na cidade de Serrana, no Interior de SP, avaliações após a cobertura vacinal em 75% da população apontam para a redução de 95% das mortes pela doença e 86% das internações (confira quadro ao lado com outros dados).

É preciso lembrar: vivemos em comunidade

A campanha de prevenção à Covid-19 ocorre com muitos países divididos por ideologias ou o negacionismo, e afetados pelo que originou o termo criado no ano passado, a “infodemia”, pandemia da informação e da desinformação. 

Sobre a dificuldade de muitos familiares em tratar do tema com quem decidiu não tomar a vacina, a médica Tereza Nihei, afirma que esse é “o procedimento que tem o melhor resultado na prevenção de doenças, capaz de reduzir mortes, prevenir doenças graves, de forma segura e de baixo custo. Os eventos adversos são inerentes ao indivíduo, na sua grande maioria são leves e  moderados e pouquíssimos graves, portanto não existe justificativa para não receber a vacina”.

E lembrou sobre a função de cada indivíduo no combate à pandemia. “Existem algumas pessoas que não respondem à vacina, então se cada um receber a vacina poderemos proteger aqueles que eventualmente não responderam, e esta pessoa pode ser qualquer pessoa, alguém que conheço, parentes, amigos, filhos, pais, avós”.

Outra questão, observa, “é um um alerta, precisamos melhorar as nossas relações, pouco conversamos com as pessoas, os filhos, já pequenos querem ficar na ‘telinha’, já crescem assim, esquecendo que vivemos em comunidade”. 

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