Paciente de saúde mental era mantida em maca próxima ao chão no Hospital Regional de Ferraz
Antes da reinauguração da ala psiquiátrica do Hospital Regional de Ferraz de Vasconcelos, nesta quinta-feira (22), após sete anos fechada para reforma, pacientes da saúde mental estavam sendo mantidos em macas próximas ao chão, em corredores do hospital. A situação foi denunciada à reportagem de O Diário primeiro por Jussara Martins Oliveira, do Núcleo de […]
23/07/2021 11h25, Atualizado há 61 meses
Antes da reinauguração da ala psiquiátrica do Hospital Regional de Ferraz de Vasconcelos, nesta quinta-feira (22), após sete anos fechada para reforma, pacientes da saúde mental estavam sendo mantidos em macas próximas ao chão, em corredores do hospital. A situação foi denunciada à reportagem de O Diário primeiro por Jussara Martins Oliveira, do Núcleo de Mulheres Maria Tereza, de 59 anos, em frente ao hospital, durante o evento de entrega da ala, que contou com a participação do vice-governador Rodrigo Garcia (PSDB) e do secretário estadual de Saúde, Jean Carlo Gorinchteyn. O secretário comentou a situação, em entrevista coletiva no local.
Na manhã desta sexta-feira (23), uma ex-cunhada da paciente (cujo nome será preservado), que atualmente acompanha o estado de saúde dela, relatou a situação a qual a interna estava submetida. Vânia Macedo dos Anjos diz ter levado a ex-cunhada ao Hospital Regional no domingo (18), após o início de uma crise. O médico que a atendeu receitou dipirona e voltaren, e a liberou.
“Eu fui conversar com a enfermeira, porque ela precisava de um calmante, mas ela disse que o médico tinha que receitar. Eu fui falar com o médico, e ele me perguntou se eu era enfermeira. Aí eu comecei a filmar a conduta dele e ele resolveu interná-la e deu um diazepan para acalmar”, conta.
Entretanto, Vânia diz que as condições que a paciente estava sendo mantida no hospital não condiziam com o tratamento que ela necessitava: uma maca próxima ao chão, inclusive nas madrugadas frias de terça e quarta-feira (20 e 21) e um tratamento adequado.
“Eu cheguei um dia lá e um homem estava chamando-a de neguinha, mandando ir para o banheiro, mas ela estava dopada por conta dos remédios e acabou fazendo as necessidades na maca. Quando ela acorda, ela fica muito agitada e tira até a roupa e todo mundo no corredor passa e vê ela pelada, é muito constrangedor e só piora a situação dela”, relata Vânia.
Ainda de acordo com Vânia, a paciente foi diagnosticada inicialmente com depressão, quando resolveu procurar os pais biológicos, já que é adotada por um casal que hoje tem mais de 70 anos e não consegue cuidar da filha.
“Isso mexeu demais com ela e provocou as crises. Depois, veio o diagnóstico de esquizofrenia. Só há três meses que eu estou correndo com ela, porque tinha perdido o contato. Ela está assim porque não tinha ninguém que pudesse acompanhar. O Caps dava a medicação, mas aí ela toma tudo de uma vez. Dorme por dois dias, acorda e come uma panela de comida, bebe água, toma o remédio e dorme de novo”, diz Vânia.
Reviravolta
Antes de conversar com a reportagem de O Diário e os demais veículos de comunicação presentes no evento, Jussara Martins Oliveira, do Núcleo de Mulheres Maria Tereza, denunciou a situação à assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Saúde.
Durante a entrevista coletiva, o titular da pasta estadual, Jean Goryntchein, disse não ter conhecimento do caso, mas que sabia da existência de protocolo em que os pacientes desta ala eram mantidos em macas baixas, para que não se machucassem caso caíssem.
Mais tarde, a reportagem de O Diário pediu uma posição à secretaria, por e-mai, a respeito do caso em específico. A resposta veio via telefone, de que não havia paciente internado naquela unidade com o nome informado pelo jornal. Verdadeiramente o sobrenome informado por Jussara ao jornal não estava correto, mas o primeiro nome informado era mesmo o da paciente.Ou seja, ela estava internada neste setor do hospital.
À TV Diário, que questionou sem detalhar o nome da paciente, o estado encaminhou a seguinte nota, desmentindo que houvesse pacientes nessa situação: “Não procede a informação prestada à reportagem de que pacientes “ficavam amontoados em uma sala sem assistência adequada”. Durante a reforma, disse a nota “todos os pacientes com quadro psiquiátrico que ingressaram na unidade receberam a devida assistência pela equipe médica e atendimento necessário no Pronto Socorro, sendo mantidos em observação e contando com o suporte da CROSS (Central de Regulação e Oferta de Serviços de Saúde) para transferência a serviços de referência preferencialmente na região em casos de necessidade de internação”.
Na manhã desta sexta-feira, após O Diário conseguir contato com Vânia e detalhar ainda mais o caso, a Secretaria de Saúde foi novamente acionada, e prometeu explicar o ocorrido, o que de fato aconteceu durante a tarde (veja abaixo).
O outro lado
Em resposta à esta reportagem, a diretora de apoio técnico do Hospital Regional de Ferraz de Vasconcelos, Maria Aparecida Barcelos, confirmou, a O Diário, algumas situações apresentadas pela família da paciente mas nega outras. Ela conta ter requerido, junto ao Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) do município, uma “reunião multidisciplinar para ver como a paciente vai sair da unidade”, o que deve acontecer na próxima semana. Até que haja um plano de ação, ela seguirá internada na unidade de saúde, na enfermaria da recém-inaugurada nova ala psiquiátrica.
Maria afirma que a paciente chegou ao hospital no último domingo, dia 18, e que esteve em atendimento no corredor, em maca baixa, conforme o “protocolo”, até esta quinta-feira (22), quando a nova ala foi inaugurada. “Não confirmo que ela passou frio. Os enfermeiros acompanham de perto. Ela trocou de roupa, tomou banho, se alimentou e teve o cobertor que pediu”.
A denúncia, feita inicialmente por Jussara Martins Oliveira, do Núcleo de Mulheres Maria Tereza, apontava que a paciente estava “urinada”, o que a gestão da unidade também nega. “(Para) todo paciente psiquiátrico, usamos fralda. No momento que ela realizou necessidades fisiológicas, o enfermeiro não estava lá. Mas no retorno dele foi feita assepsia e ela foi trocada”.
A diretora diz ainda que “em nenhum momento ela veio por causa de um quadro agudo em psiquiatria”. “Chegou com queixa de dor de dente. Passou no médico, recebeu medicação e alta da clínica médica, porque o diagnóstico que apresentava, e a queixa do momento, foi resolvida”. Então, “em um dado momento da consulta, a família quis consulta com psiquiatra”.
Após consulta, a paciente foi mantida em observação e “ficou em maca baixa por segurança”. De acordo com a gestão, “na maior parte do tempo sem acompanhante”, pois “os pais são idosos”, um irmão “tem histórico familiar”e outro irmão “e uma pessoa” a acompanhavam. Apesar disso, ela “veio evoluindo bem até a data de ontem (22)”. Já “elegível para alta”, a paciente teria tido, na versão do Estado, a alta recusada pela família.
“A família entende que ela é uma paciente que tem que ficar internada, só que não é o caso. O que a unidade fez, para tentar assegurar melhor acompanhamento: ela subiu sim para a enfermaria psiquiátrica, e continua no momento sendo paciente elegível para alta, mas como entrou questão social dos pais idosos, e quando o CAPS leva a medicação ela não tem acompanhamento familiar presente para acompanhar, eu requeri junto ao CAPS do município uma reunião”, relata Maria.
Este encontro deve acontecer na próxima terça-feira, dia 27, para estabelecer um plano envolvendo um “cinturão de apoio” formado por “psicóloga, médico, serviço social, terapeuta ocupacional”. O Estado garante que, até que as decisões sejam tomadas com a “rede do CAPS”, a paciente continuará internada no Hospital Regional de Ferraz, onde está recebendo “medicação, banho de sol, alimentação e assistência social”.
“Na minha leitura, a família precisa de acompanhamento e suporte do CAPS muito presente. Chego até pensar na promoção social do nosso município, vendo rede de apoio. Hoje a paciente está muito bem, não tem quadro agudo em psiquiatria. Não vai ter alta neste momento por recusa do familiar, que insiste em falar de internação”, diz Maria.
A diretora continua e esclarece os motivos desse argumento: segundo ela, a paciente não conseguiria seguir o tratamento sem orientação. “Neste momento a família tem que orientar. Não é paciente que se deixar sozinha vai saber que horas vai tomar medicação”.
Embora tenha confirmado que há “patologia psiquiátrica que precisa ser tratada no âmbito ambulatorial, e não com internação”, a gestão do hospital não detalhou o diagnóstico, já que isto iria contra o “sigilo médico”.
Sobre a alegação de o médico ter prosseguido com a internação apenas após ter sido filmado, o Estado nega. “Ela não é paciente de internação psiquiátrica, e a família não aceitou a alta”, insiste Maria.
Sobre a reclamação da família, que diz que a paciente teria sido chamada de “neguinha”, o Estado também nega. “Isso não aconteceu. Em nenhum dos monitoramentos foi verificado isso. Eu desci no pronto-socorro antes dela subir (para a enfermaria), conversei com ela, pedi para nossa terapeuta ocupacional conversar com ela. Nesse momento não tinha ninguém da família dela e, ela não tinha nenhuma queixa”.
Por fim, sobre a denúncia feita por Jussara Martins Oliveira, do Núcleo de Mulheres Maria Tereza, que apontava a presença de outras cerca de 15 pessoas na mesma situação, em atendimento no corredor, o Estado também nega. “Tenho mais um paciente, que não está no corredor, e sim na enfermaria, também de alta médica. Ele diz se chamar ‘fulano de tal’, e meu serviço social já entrou em contato com a delegacia para tentar identificar e ver quem é a família. Neste mês, até hoje, os que passaram por internação aqui foram 13 pacientes, mas todos em curtíssimo tempo e todos psiquiátricos. Nunca tive 15 pacientes psiquiátricos no pronto socorro. Isso é um equívoco muito grande”, finaliza a diretora de apoio técnico do Hospital Regional de Ferraz de Vasconcelos.