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Pneumologista Luiz Pereira morre aos 81 anos

A cidade perdeu um dos primeiros professores da Faculdade de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), o médico Luiz Carlos Pereira, 81 anos, que foi professor e coordenador do curso na instituição de ensino. Ele sofria de Alzheimer e morreu nesta sexta-feira (26). Após rápida passagem pelo Velório Cristo Redentor, no Parque Monte […]

Por O Diário
26/03/2021 14h55, Atualizado há 62 meses

A cidade perdeu um dos primeiros professores da Faculdade de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), o médico Luiz Carlos Pereira, 81 anos, que foi professor e coordenador do curso na instituição de ensino. Ele sofria de Alzheimer e morreu nesta sexta-feira (26). Após rápida passagem pelo Velório Cristo Redentor, no Parque Monte Líbano, em Mogi, o corpo seguiu para o Crematório da Vila Alpina, em São Paulo.

Pereira era muito querido pela comunidade acadêmica e profissionais da área médica, que usaram as redes sociais para destacar o legado por ele deixado.

A Universidade de Mogi das Cruzes publicou nota de pesar: “A UMC manifesta todo pesar e consternação pelo falecimento do professor Dr. Luiz Carlos Pereira, ocorrido na madrugada de hoje, 26 de março. Um dos pioneiros da UMC, onde ingressou como docente na  Faculdade de Medicina e ocupou as cadeiras de Pneumologia e Propedêutica. Dr. Luiz Pereira foi coordenador do curso de Medicina contribuindo para a formação de grandes médicos. A UMC expressa suas sinceras condolências à família, amigos, colegas e alunos neste momento, salientando que seu exemplo de dedicação e esforço ficará como lembrança para todos, principalmente no exercício da ética profissional”.

Em 23 de janeiro de 2005, o médico foi personagem da série Entrevista de Domingo de O Diário. Confira a publicação a seguir:

“Gostar de gente é a qualidade essencial de um médico”. A frase do pneumologista Luiz Carlos Pereira, 66 anos, traduz a satisfação com a profissão escolhida ainda na adolescência. Não era para menos: o pai, Alberto Carlos Pereira Filho, formou-se na Faculdade Nacional de Medicina, na Praia Vermelha (Rio de Janeiro), e o levava para brincar na horta da Santa Casa de Guaxupé (Minas Gerais), sua terra natal. Nas férias escolares, o filho o acompanhava no raio-X e no laboratório do hospital. Então, desde cedo conviveu com o ofício que o acompanha desde 1958, quando ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), aprovado em 24º lugar. Lá também fez a especialização em Pneumologia e no ano de 1967 iniciou como assistente de Pneumologia da USP. Em 1971 veio lecionar na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC) – onde ainda trabalha – e mudou-se para a Cidade, tendo ocupado também o cargo de diretor clínico da Santa Casa. O médico casou-se em 1968 com Doracy Batista de Campos Pereira, que faleceu há 23 anos, e há 8 anos é casado com a advogada aposentada Pedrita Maria Braile Pereira. Do primeiro casamento, tem duas filhas – Paula e Cláudia – e um neto, Rafael, 2 anos. Em entrevista a O Diário, ele conta histórias vividas na Cidade e fala de sua carreira na Medicina e como professor universitário.

O Diário – Quais as lembranças da infância em Guaxupé?

Luiz Carlos Pereira – Depois do primeiro ciclo do primário, no Grupo Escolar Barão de Guaxupé, fiz o segundo ciclo no Ginásio São Luiz de Gonzaga, que era dos padres lassalistas, de origem canadense, mas que abrigava também italianos e espanhóis. Era uma educação muito rígida e lembro que fazendo o semi-internato, somente ia para casa à noite, para dormir. Durante três anos de estudos, aprendi muito, principalmente idiomas, porque tinha aulas obrigatórias de francês, inglês, português, mas aos padres também nos ensinavam latim e espanhol. Quando completei o terceiro ano ginasial, com apenas 13 anos, deixei minha Cidade e fui morar numa pensão em Casa Branca, já em São Paulo, onde continuei meus estudos.

O Diário – Por que o senhor saiu de casa tão cedo?

Pereira – Porque naquela época, o Governo do Estado de São Paulo tinha construído institutos de educação no Interior, mas isso não existia em Minas. Só havia opção até o ginásio e em seguida, o curso profissionalizante de comércio. Então, ao invés de terminar o ginásio lá, meus pais (Alberto Carlos Pereira Filho e Julieta Ferreira Pereira) preferiram que eu o concluísse já em Casa Branca para ir me adaptando ao novo ambiente.

O Diário – Como foi esta experiência?

Pereira – Sair de casa aos 13 anos, deixando meus pais e irmãos (Maria Luíza, Antonio Carlos, Maria Lígia e Maria Lúcia – já falecida), me fez experimentar a independência mais cedo. Morei numa pensão e passei a estudar no Instituto de Educação Dr. Francisco Tomás de Carvalho. Não entendia porque minha mãe chorava tanto quando deixei nossa casa em Minas, mas hoje sei perfeitamente o motivo. Só que naquela época ainda era bem diferente de hoje porque não havia bandidos, drogas e violência. Apesar da preocupação dela, deu tudo certo. Fiz três anos do curso Científico e fiquei mais dois anos por causa do serviço militar. Foi em Casa Branca que conheci minha primeira esposa, Doracy.

O Diário – Por que a escolha pela Medicina?

Pereira – Meu pai era formado pela Faculdade Nacional de Medicina, na Praia Vermelha, no Rio, e queria que eu também fosse médico. Aliás, me criou dentro do hospital porque era radiologista e me levava para o raio-X e o laboratório da Santa Casa de Guaxupé. Muitas vezes ficava brincando na horta do hospital e passava as férias escolares acompanhando-o no trabalho. Também gostava de Educação Física, mas um tio que era professor me fez desistir desta área. Agora, minha grande paixão quando criança era a Marinha. Queria prestar exame na Escola Naval e me tornar almirante. Só sei que, na hora da escolha, prestei o primeiro vestibular para Medicina na USP e não passei, então, optei por servir o Tiro de Guerra e, ao final, voltei a São Paulo para mais uma tentativa frustrada de vestibular na USP.

O Diário – Quando o senhor conseguiu ser aprovado?

Pereira – Depois da segunda reprovação, fiquei um ano fazendo cursinho em São Paulo e aí foi a grande diferença, porque aprendi a estudar exatamente o que precisava para passar no vestibular da USP. Fui aprovado em 24º lugar, em 1958 comecei a estudar lá e de início, morava com a família da minha mãe, em São Paulo. A partir do segundo ano da faculdade, já fazia alguns bicos em pesquisas e recenseamentos oficiais e, em seguida, passei num concurso para acadêmico plantonista na Maternidade de São Paulo, onde fiquei três anos e passei a me identificar ainda mais com a carreira porque nos dois primeiros anos da faculdade, só via muita teoria chata, que me aborrecia demais. E olha que estava na melhor Faculdade de Medicina do País e única com o padrão A em toda a América do Sul, naquela época.

O Diário – Houve histórias pitorescas nesta época de plantonista?

Pereira – O problema maior é quando os estudantes começam a dar passos mais largos. Hoje em dia oriento meus alunos para que isso não ocorra. O fato é que nesta época de plantonista fiz amizades e recebi a oferta para dar plantão em outra área de atendimento, num hospital geral de São Paulo. Era acadêmico do terceiro ano de Medicina e logo no primeiro dia em que cheguei ao local e perguntei pelas parturientes para fazer visita, o médico responsável pelo hospital saiu e me deixou seu telefone para qualquer complicação. Não sabia que este hospital tinha atendimento de urgência e como era a única pessoa com vestimenta de médico lá dentro, tinha de atender o que aparecia. Apesar de estudante, aos olhos daqueles pacientes, eu era um médico.

O Diário – Houve alguma situação muito complicada?

Pereira – Enfrentei uma situação de aperto quando chegou uma paciente com cólica renal. Consegui atendê-la, mesmo com minha experiência que se igualava às parteiras, já que tinha feito estágio em clínica geral no Pronto-Socorro do Hospital das Clínicas enquanto estava no segundo ano da faculdade. Precisei, inclusive, sair com a ambulância do hospital para atendimento domiciliar, mas este foi meu primeiro e último plantão naquele hospital.

O Diário – Quando o senhor iniciou a carreira como médico?

Pereira – Quando terminei a residência recebi uma oferta de emprego como assistente de Pneumologia da USP, mas precisava aguardar a aposentadoria de um colega para ocupar seu cargo e isso demoraria seis meses. Só que não poderia mais morar no hospital, onde até então dormia e comia sem qualquer custo, além de receber uma pequena mesada. Durante os estudos, morei 3 anos na Maternidade de São Paulo, que ficava em um lindo prédio de 11 andares. O Dr. Passos, que era o diretor, me deixou em uma suíte com saleta, quarto e banheiro, mas como não havia luz no corredor do décimo andar, precisava levar lanterna para o quarto. Depois, na época da residência, morei no Hospital das Clínicas, mas para sobreviver enquanto esperava para ocupar o cargo na USP, meu pai e eu fizemos dois empréstimos bancários até que, em 1967, assumi como assistente, lecionava, passava visitas de rotina e viajava bastante. Atuava no Laboratório de Exploração Funcional de Pulmão da 2ª Clínica Médica da USP.

O Diário – Por que a vinda para Mogi?

Pereira – Estava na USP, quando o doutor Castor Jordão Cobra, que era médico do Hospital das Clínicas, me procurou contando que era professor na Faculdade de Medicina de Mogi e buscava gente nova para sua equipe. Nem sabia onde ficava a Cidade e me recusei, mas ele passou um ano insistindo e me convidando para conhecer Mogi. Um dia, vim para cá com ele, que era reumatologista e tinha sido meu professor de propedêutica clínica. Era final de 1970, lembro que paramos para almoçar no Arujazinho e em seguida, chegamos à Policlínica, onde ficavam as faculdades de Medicina e Odontologia. Conheci o prédio, me entusiasmei e acabei concordando em vir à Cidade todas as quintas-feiras para lecionar oito horas na UMC e acompanhar os alunos nos laboratórios e nas visitas aos pacientes.

O Diário – O que o fez aceitar o convite?

Pereira – Já estava casado e precisava de dinheiro, mas além disso, fiquei entusiasmado com a proximidade que havia entre professores e alunos na faculdade de Mogi. Aqui, eles conversavam muito, saíam para almoçar e tomar café. Este contato era muito positivo e bem diferente daquele relacionamento que existia em São Paulo, onde os professores eram grandes figurões da Medicina e autores de livros, por isso, mantinham-se distantes dos alunos. Mas naquele primeiro dia em que vim a Mogi, o doutor Cobra teve de ficar aqui e voltei a São Paulo de carona com o professor de Anatomia Aldo Stachini. Saímos daqui por volta das 18 horas e como não havia ainda a Mogi-Dutra, fomos pela antiga São Paulo-Rio e quando estávamos em São Miguel, precisávamos passar por uma ponte de mão única, mas naquela noite, um caminhão tinha quebrado no meio do caminho e precisamos esperar mais de três horas dentro do carro, naquele calor de final de ano e ainda com um monte de pernilongos em volta.

O Diário – Mas quando o senhor passou a morar em Mogi?

Pereira – No início viajava toda quinta-feira, mas em 1973 fui nomeado diretor clínico da Santa Casa de Mogi e passei a viajar mais porque trabalhava no hospital pela manhã e ficava na Cidade até meia-noite. Acabei me convencendo que morreria na estrada se não me mudasse para cá porque o caminho era de terra, muito complicado e era difícil passar um dia sem acidentes. Além disso, ficava cansado demais, pois saía de casa às 6 horas e chegava por volta da 1 hora da manhã. Em 1975 trouxe minha família para cá e moramos dois anos em uma casa na Rua Professor Flaviano de Mello, perto do Teatro Vasques, até que comprei a residência em que moro até hoje, na Vila Oliveira.

O Diário – A situação na Santa Casa sempre foi complicada? Quais eram as principais dificuldades como diretor do hospital?

Pereira – Sempre foi muito complicada, mas não gostaria de falar sobre isso.

O Diário – E a Cidade, como era nesta época?

Pereira – A Cidade terminava na Policlínica. De lá para os lados da Vila Oliveira, por exemplo, era tudo terreno baldio. Mas gostei muito daqui porque tinha vivido no Interior e o interessante é que atendia em um consultório na Frei Caneca, 1212, em São Paulo, e lá tinha pacientes daqui de Mogi, mas que não queriam passar a ser atendidos na Cidade porque teriam de ir até a Santa Casa. Com o tempo, abri meu consultório em Mogi, num prédio que existe até hoje na esquina das ruas Coronel Souza Franco e São João. Depois, passei para o Largo do Carmo, ao lado do Casarão, que naquela época funcionava como velório, fui para a Barão de Jaceguai e depois para o Biocór, onde me aposentei há 8 anos.

O Diário – Mas o senhor continuou como professor?

Pereira – Sim, encerrei a carreira médica, mas permaneci na UMC, onde completo 34 anos de trabalho, já fui coordenador da Faculdade de Medicina, assumi cargos administrativos e atualmente continuo como professor e também sou responsável por parte da clínica médica. Na época em que troquei a USP pela UMC, já ganhava muito mais vindo para cá somente uma vez por semana, do que trabalhando todos os dias em São Paulo. Foi muito bom ter mudado para cá porque fiz muitas amizades, apesar de também ter deixado grandes amigos em São Paulo, e até hoje tenho um relacionamento excelente com o Padre Melo (chanceler da UMC, Manoel Bezerra de Melo). Ele é uma pessoa notável e mesmo sabendo que algumas pessoas não gostam dele por causa de algumas amarguras do passado, comigo o Padre sempre foi 100%.

O Diário – Qual a maior satisfação de sua carreira?

Pereira – Como médico foi descobrir que gostava de gente porque esta é uma qualidade essencial para a profissão. Ele precisa sentir algo positivo por seu paciente. Já o professor não pode jamais ser egoísta, precisa ensinar e compartilhar seus conhecimentos e isso é muito satisfatório. Algum ou outro profissional pode até ter alguma amargura por causa da remuneração, mas não pela profissão. Porém, as profissões de médico e professor estão bem próximas e ambos precisam se doar.

O Diário – Quais histórias ficaram na memória nestes anos de profissão?

Pereira – Foram tantas que agora fica até difícil lembrar alguma. Mas lembro que fui chamado para atender uma paciente na periferia da Cidade e ela havia falecido. Então, fiz meu trabalho no próprio local em que ela estava, sendo que na hora de ir embora, fui até o lavabo e uma pessoa me deu um frasco de perfume para que eu lavasse as mãos. Tinha saído de casa à meia-noite e voltei às 3 horas da madrugada cheirando perfume. Não houve brigas, mas isso gerou alguns questionamentos com minha primeira esposa.

O Diário – Qual o caso mais complicado que o senhor atendeu?

Pereira – Não há casos complicados e sim sem solução. O mais me entristece na profissão é a morte de um paciente e embora a entenda cientificamente, espiritualmente não aceito aquela em que a pessoa sofre demais. Há mortes rápidas e inesperadas para a família e muito doloridas para quem fica, e as mortes já anunciadas e que mesmo assim a pessoa fica sofrendo.

O Diário – E a maior alegria?

Pereira – É fazer o diagnóstico correto, que possa levar à cura do paciente.

O Diário – O que o senhor faz para se distrair?

Pereira – Já pratiquei muito esporte, principalmente basquete no Clube de Campo, onde inclusive participava de competições e ganhei medalhas. Além disso, aos 50 anos, depois de um cateterismo e de um aviso do coração, passei a correr com uma turma de amigos e disputei maratonas no Rio, em Americana, e outras cidades, até que voltando de Guararema, na subida do trevo, quebrei o pé em um buraco do acostamento e fiquei quatro meses engessado. Agora, corro somente nas praças de vez em quando e passou o restante do tempo preparando minhas aulas e pesquisando. Fico dividido entre a sala de aula, o ambulatório da Policlínica e o hospital, já que hoje também leciono no curso de Fisioterapia e acompanho os alunos no Hospital Luzia (de Pinho Melo), o que também devo fazer neste ano com os estudantes de Medicina.

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