William Tanida, apresentador da TV Diário, relata luta contra a Covid-19
Após 30 dias afastado para tratar a Covid-19, o jornalista William Tanida, 49 anos, apresentador da TV Diário, está de volta ao trabalho com o relato da experiência considerada uma das mais difíceis de sua vida: vencer a batalha contra o novo coronavírus. Não foi fácil, ele conta, relembrando desde o início do primeiro sintoma, […]
20/06/2021 10h46, Atualizado há 62 meses
Após 30 dias afastado para tratar a Covid-19, o jornalista William Tanida, 49 anos, apresentador da TV Diário, está de volta ao trabalho com o relato da experiência considerada uma das mais difíceis de sua vida: vencer a batalha contra o novo coronavírus. Não foi fácil, ele conta, relembrando desde o início do primeiro sintoma, a dor de garganta, que pensava ter sido causada pela friagem de uma janela aberta, ao diagnóstico da doença após o teste no hospital, a tentativa de tratamento em casa, a internação com dificuldade para respirar e 50% dos pulmões comprometidos, e enfim a alta com direito a tocar o sino do hospital, que ouvia soar todos os dias quando algum paciente deixava o local livre da Covid, sob aplausos da equipe médica, enfermeiros e demais funcionários.
“A experiência com a Covid foi uma das mais difíceis da minha vida. Começou no dia 19 de maio, com a dor de garganta, mas achei que fosse por causa de friagem que peguei com uma janela aberta. Pensei que era algo normal. Mas no dia seguinte estava tossindo e, na apresentação do Bom Dia Diário, comecei a sentir um frio intenso, enquanto todos no estúdio usavam camiseta e a temperatura do ambiente não estava fria. Depois do jornal, fui ao hospital, onde passei pelo procedimento normal para suspeita de Covid e fiz o teste do cotonete, que deu positivo. Fiquei com aquela preocupação: ‘Será que vai piorar? Será que vai ser Covid leve? Será que vou sentir os sintomas mais graves?’. A espera pelo resultado e logo depois, com ele já em mãos, tudo isso mexe muito com a cabeça e comecei a me preocupar”, relata Tanida.
O jornalista, que há mais de um ano divulga diariamente vários casos da doença e as mortes, alertando a população sobre os cuidados que devem ser adotados na pandemia e que a doença é grave e pode levar a óbito, sempre se protegeu com o uso de máscara facial, álcool gel e distanciamento social. “Fico batento a cabeça para tentar saber como peguei o vírus. Sou extremamente discreto, não vou a baladas e minha vida pessoal é sair para trabalhar e voltar para casa. Com a pandemia, ficou ainda mais restrita. Às vezes, vou ao mercado, mas não sei onde posso ter contraído isso. Para começar a trabalhar, é sempre uma cerimônia. Passo álcool, pano com Lysoform, levo lenço umedecido na bolsa e demoro de 10 a 15 minutos limpando tudo. Todos os colegas fazem isso, mas dizem que sou o mais paranóico”, conta.
Ao receber o diagnóstico positivo da doença, Tanida foi afastado do trabalho e começou o tratamento em casa. “Por mais que nós, jornalistas, tenhamos uma carga grande de informações em relação à pandemia e à doença, não estamos totalmente protegidos. E quando isso acontece conosco, percebemos o quanto somos frágeis nesta vida. Fiquei 14 dias em casa, com momentos de melhora e piora grande. Do dia 24 até 27 de maio, tive muita tosse e, do dia 23 em diante, não conseguia comer nada porque havia uma sensação de alimento estragado em tudo o que comia e os medicamentos me atacavam o estômago. Só me alimentava com pera e maçã. No dia 27, comecei a ter febre, que foi o primeiro sinal de que algo pior poderia acontecer e aconteceu. Não tinha mais olfato e paladar, perdi muita massa muscular e fiquei fraco”, relata.
Mas o pior ainda estava por vir. Nos dias seguintes, a febre subiu para 38,5 graus e as dores se espalharam para o corpo todo, principalmente no fundo dos olhos, tanto que Tanida não conseguia deixar a luz acesa, assistir à TV, ler e responder mensagens de familiares e amigos no celular e nem atender telefonemas. “Sentia tanta dor que não conseguia pensar. Foi algo que nunca tive. Tentei tomar banho para ver se melhorava e só me recordo de ter acordado na cama, três a quatro horas depois. Acho que apaguei neste período. No dia 31 veio a falta de ar. Foi quando achei que ia morrer. Minha namorada, Mayra (de Freitas Castro), que não havia ficado em casa comigo, senão corria o risco de contrair a doença, me levou ao hospital. Era horário de pico, às 18h30, a avenida João XXIII estava parada, e quando vi aquele cenário de trânsito, pensei que não iria dar tempo e morreria ali. No hospital, foi feita tomografia, que constatou que 50% dos pulmões estavam comprometidos, e fui transferido ao Santa Maria, em Suzano, onde tive um atendimento excelente”, conta.
Tanida lembra que logo que chegou à unidade de saúde da cidade vizinha, passou por vários exames novamente, inclusive de sangue, e a pneumonia foi confirmada em nova tomografia. “Primeiramente, os médicos ficaram em dúvida se me levavam direto para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva), mas logo decidiram que eu ficaria no quarto. Foi uma semana recebendo muitos medicamentos, sempre com medo de algo pior acontecer, porque escutava sobre pacientes que não resistiram à doença. Meu Deus do céu, nesta hora a gente precisa ter uma cabeça boa, o psicológico tem que estar bem, senão enlouquece!”, desabafa ele, que recebeu remédios como Azitromicina, Profenid e Decadron no hospital.
Do Santa Maria, Tanida guarda o cuidado, atenção, dedicação e carinho que recebeu dos profissionais, desde funcionários da limpeza aos enfermeiros e médicos. “O tratamento foi muito bom, todos perguntavam como eu estava e torciam por mim. E percebi que não era porque sou ‘conhecido’. Este tratamento é igual para todos. Outro apoio importante foi o da minha namorada, que é professora e como já tinha sido vacinada, pode ficar comigo todo este tempo. Enquanto eu estava lá, passava vários filmes na minha cabeça, tinha dúvidas se podia piorar ou não, e a internação remetia à lembrança do meu pai, que morreu há cinco anos, com infecção hospitalar. Eu estava em um ambiente parecido com aquele que ele estava antes de morrer”, recorda-se.
A tão esperada alta veio no dia 6 de junho, um domingo, com direito a homenagens de médicos e enfermeiros, que o aplaudiram em sua saída, e a realização de um sonho nascido naquela semana de internação: tocar o sino na saída do hospital, que ouvia soar sempre que um paciente recebia alta após vencer a doença. “Um dos melhores momentos era escutar, na madrugada, de dia ou de noite, o soar do sino no corredor da Covid do hospital. Sabia que era alguém que tinha sobrevivido e pensava na minha hora de fazer isso. Foi um sentimento de vitória. Escrevi uma carta de agradecimento a todos que me ajudaram durante a internação, no quarto, e, nesta despedida, a li para os funcionários, médicos e auxiliares de enfermagem. Foi emocionante e um momento forte durante todo este período difícil”, conta.
Retomar a vida era outro desafio. Ainda fraco e dopado por medicamentos, como anticoagulantes, que deverão ser usados até o final deste mês, ele teve dificuldades para se locomover nos primeiros dias após deixar o hospital. “Na primeira semana, precisei de ajuda para andar e me sentia um idoso de muita idade. Ainda tenho fraqueza nas pernas, mas não é sequela. Agora, estou andando quase normalmente, trabalho durante o dia na TV, mas quando chego em casa à noite, estou muito cansado e não consigo fazer mais nada”, relata, lembrando a expectativa para voltar ao trabalho. “Foi outra emoção, no dia 17, quando voltei ao Bom Dia Diário, que é um programa apresentado em pé e com improviso de algumas falas de acordo com a reportagem anunciada. Estava preocupado e parecia que iria apresentar um jornal pela primeira vez, mas deu tudo certo, recebi um carinho grande dos colegas durante o jornal e fiquei comovido”, disse.
Ao final, ele deixou uma mensagem aos telespectadores: “Gostaria de reforçar o recado passado desde o ano passado e que a gente repete e vai continuar repetindo, porque é muito importante. O coronavírus é uma doença muito séria e, nos casos mais graves mata, você sabe disso. E quem sobrevive sabe o quanto foi sofrido enfrentar o vírus, com aquela dúvida sempre batendo na cabeça: Será que vou conseguir passar dessa? Não queira enfrentar a Covid-19. Por isso, use máscara, ela não é infalível, mas enquanto a vacina não chegar para todos nós, esse pequeno escudo é de grande proteção. Muita gratidão a todos os profissionais da Saúde que estão na linha de frente no combate da pandemia. Se cuide e até mais”.
Agora, Tanida vai esperar os 30 dias necessários desde o diagnóstico negativo da doença, que veio no último dia 16 de junho, para receber a vacina contra a Covid-19. “Se Deus quiser, serei imunizado com qualquer uma das vacinas. É um absurdo não termos sidos vacinados logo no começo, em janeiro. Tenho uma inveja boa dos jornalistas do Maranhão, que estão sendo imunizados. Depois de ter passado por esta experiência, fico com uma indignação ainda maior porque poderia não ter passado por tudo isso. Muitas pessoas poderiam estar vivas e não estão pela falta da vacina. Hoje, posso afirmar que venci a Covid, mas foi muito difícil. É uma doença de evolução rápida. Na semana passada, perdi mais um amigo, o Toninho, da Globo SP, para a doença, e hoje (ontem), o país superou 500 mil mortes”, lamenta.
Tanida avalia que, durante os 26 anos como jornalista, apesar de reportagens que o marcaram e mudaram muito sua maneira de enxergar as coisas, como quando esteve no Haiti, em 2013, e viu a população sem ter comida e se alimentando com biscoitos feitos com lama, a Covid foi algo que marcou demais sua vida. “Após este trabalho no Haiti, passei a dar valor para coisas que não dava de forma muito grande, mas ter enfrentado a Covid desta forma e graças a Deus não precisar ter sido intubado foi algo que também ficará marcado, principalmente esta situação de sentir que poderia perder a vida. Isso me fez ter outros valores que não achava que teria. Mudou minha vida, especialmente na questão da gratidão. Agradeço muito a tudo, desde as coisas pequenas até as grandes. A gratidão se transformou em uma das palavras mais importantes e quero agradecer os profissionais da Saúde, a minha namorada Mayra, familiares e amigos, como o Dino (Rodrigues) e o Renato (Cocenza), além de tantos outros, que me apoiaram”, finaliza.