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Yoshiharu Umeoka falece aos 97 anos, um mês após seu irmão mais novo, Hiromitsu

Mogi das Cruzes perdeu neste domingo (20), um de seus mais antigos e atuantes farmacêuticos, que fez história ao lado da família na cidade. Yoshiharu Umeoka faleceu nesta manhã, aos 97 anos, vítima da Covid-19, um mês após a morte de seu irmão Hiromitsu. Juntos, os irmãos dedicaram 70 anos da vida para atender os […]

Por O Diário
20/02/2022 13h30, Atualizado há 54 meses

Mogi das Cruzes perdeu neste domingo (20), um de seus mais antigos e atuantes farmacêuticos, que fez história ao lado da família na cidade. Yoshiharu Umeoka faleceu nesta manhã, aos 97 anos, vítima da Covid-19, um mês após a morte de seu irmão Hiromitsu. Juntos, os irmãos dedicaram 70 anos da vida para atender os mogianos.

Ele estava internado no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, na capital paulista, devido às complicações da Covid-19. Por causa das restrições da pandemia, não haverá velório, apenas uma cerimônia de cremação para a família. O corpo será cremado em São Paulo.

“Agradecemos todas as orações e condolências que estamos recebendo. Meu avô foi um ser humano ímpar.  A frase de Nelson Rodrigues ‘toda unanimidade é burra’ não é verdadeira quando se fala no meu avô, ele era uma unanimidade, uma pessoa incrível”, disse a neta Cristiane à reportagem de O Diário em nome da família. Ele deixa a esposa, Norma, 10 netos, 9 bisnetos e uma legião de amigos.

LEIA MAIS: Prestes a completar 90 anos, Hiromitsu Umeoka morre e deixa saudades em Mogi

Nas redes sociais da Drogaria Umeoka, uma postagem avisava os mogianos sobre a perda: “Com muita tristeza, informamos que o Sr. Yoshiharu Umeoka faleceu nesta manhã. Prestes a completar 97 anos, Sr. Umeoka foi um ser humano ímpar, generoso, dedicado e o mais importante, grato e feliz. Amava conviver com sua esposa, dna Norma, seus filhos, irmãos, netos e bisnetos”.

Os irmãos Hiromitsu e Yoshiharu Umeoka foram entrevistados da série Entrevista de Domingo de O Diário. Confira a seguir a publicação na íntegra:

ENTREVISTA DE DOMINGO

Hiromitsu Umeoka e Yoshiharu Umeoka

2 irmãos e 1 ofício: farmacêutico

Por Carla Olivo

Filhos dos imigrantes japoneses Shiguetoshi e Katsu Umeoka, os irmãos Yoshiharu e Hiromitsu viajaram 60 dias com os pais e tios no navio Arizona Maru, deixando para trás a terra natal, Aichi, e em busca de melhores oportunidades no Brasil, na década de 30. Primeiramente, a família morou em Promissão, no Interior do Estado de São Paulo, onde se dedicou à lavoura de café. Também passou por Marília, Presidente Bernardes e Bragança Paulista, sempre atuando em plantações, inclusive de algodão e arroz. Mas em 1940, o sonho de estudar levou Yoshiharu, aos 14 anos, a seguir sozinho para Álvares Machado, onde se dividia entre o trabalho em uma farmácia durante o dia e as aulas à noite. Oito anos depois, chegou a Mogi das Cruzes e montou a Farmácia Avenida, onde logo o irmão Hiromitsu veio trabalhar e que alguns anos mais tarde ganhou o nome de Drogaria Umeoka. Era o início da parceria que se estende há sete décadas, período em que a farmácia também funcionou na Rua Dr. Deodato Wertheimer, teve filial em Braz Cubas e, desde 1985, está na Rua Professor Flaviano de Melo, 938. É lá que os dois irmãos passam o dia todo, já atendem à quinta geração dos primeiros clientes e, acompanhando a evolução da indústria farmacêutica, há alguns anos apostam na linha fitoterápica, apesar de manter a seção de medicamentos alopáticos. Yoshiharu tem 93 anos. Hiromitsu, 86. Na entrevista a O Diário, os comerciantes relembram histórias vividas na Cidade e falam dos avanços da área farmacêutica que acompanharam de perto ao longo destes 70 anos de atividades:

 Por que a vinda da família do Japão para o Brasil?

Yoshiharu – Como a maioria dos imigrantes japoneses, meus pais e tios vieram para o Brasil em busca de trabalho, porque a situação no Japão estava muito complicada naquela época. Dos filhos, viemos eu, com 8 anos, o Shozo, com 5, e o Hiromitsu, com 2. Os outros cinco (Setsuo, Shiguelo, Massayoshi – já falecido -, Toyoko e Toshiko) nasceram no Brasil. Viajamos quase 60 dias no navio Arizona Maru.

Hiromitsu – Tenho poucas lembranças porque tinha apenas 2 anos, mas me recordo da infância nas lavouras em que meus pais, tios e irmãos mais velhos trabalharam. Foi um tempo bastante difícil.

 Primeiramente, onde a família morou?

Yoshiharu – Fomos para Promissão, onde trabalhamos na lavoura de café. Era preciso acordar bem cedo, pegar a enxada e ajudar a cuidar da plantação. Um ano depois, a família foi para Marília, onde além do café, plantava algodão e arroz. Após três anos, seguiu para Presidente Bernardes, onde ficou até 1960, e Bragança. Mas quando eu fiz 14 anos, como tinha o sonho de estudar e de falar português e, na lavoura o normal era fazer apenas até o terceiro ano do primário, fui embora sozinho para Álvares Machado.

 Como foi este período?

Yoshiharu – Estudava à noite e trabalhava na Farmácia Japonesa, que na época da guerra mudou de nome e passou a ter o nome do dono, Alberto. Comecei ajudando na limpeza e lavando vidros. De lá, fui para o Colégio Oswaldo Cruz, em São Paulo, e também fiz o curso de oficial de Farmácia. Eram necessários quatro anos de prática para poder prestar o exame. Em 1943, fui aprovado no concurso e comecei a trabalhar na farmácia do ambulatório do Hospital da Cooperativa de Cotia, na Capital.

 Quando o senhor veio para Mogi das Cruzes?

Yoshiharu – Em 1958, vim para Mogi das Cruzes montar a Farmácia Avenida, na própria Avenida dos Bancos (Voluntário Fernando Pinheiro Franco, 69), onde hoje funciona o Hotel Capri. Meu irmão Hiromitsu veio trabalhar comigo e, naquele tempo, o pessoal comentava que os dois novatos, que vieram de São Paulo, não iriam durar muito pagando aluguel de 3 mil por mês. Mas ficamos neste ponto seis anos, fomos para a Rua Dr. Deodato Wertheimer, onde está a Lojas Riachuelo, tivemos uma filial em Braz Cubas, e desde 1985 estamos na Rua Professor Flaviano de Melo, 938. O nome Farmácia Avenida logo foi trocado para Drogaria Umeoka.

Hiromitsu – Quando vim trabalhar com meu irmão na farmácia em Mogi, eu estudava no Colégio O s w a l d o Cruz, então viajava todos os dias no trem Maria Fumaça até São Paulo. Saía daqui às 5 horas e a viagem era tão demorada que, às vezes, ainda chegava atrasado na aula. Costumava levar os pedidos e, na volta, trazia as mercadorias para a farmácia.

 Como era o trabalho do farmacêutico na época?

Yoshiharu – Em Mogi, só tínhamos médicos como os doutores Milton e Nelson Cruz, Nelson Straube, Lamartine, Rubens Amaral Brito, Luiz Rosa, Maria Aparecida e poucos outros. Havia apenas a Santa Casa e um posto de saúde na Rua Barão de Jaceguai. Então, os farmacêuticos eram bastante procurados e respeitados como médicos. Mas também eram poucas as farmácias na época. Tínhamos a Santa Therezinha, São José, Ariza, Yamada, Moderna, São Luiz e depois veio a São Benedito.

Hiromitsu – Hoje são mais de 100 farmácias em toda a Cidade, com várias funcionando nos mais diversos bairros, que cresceram muito nos últimos anos. Antigamente, a maioria das pessoas procurava as farmácias para tomar vacinas, principalmente contra varíola e tifo, que tinha vacinação obrigatória todos os anos. Em janeiro, como geralmente chovia o mês inteiro, também havia muita gripe e Mogi sempre foi uma cidade úmida, então, eram vários casos de garganta inflamada, com febre, e doenças respiratórias, como bronquite.

 Os pacientes buscavam atendimento fora de hora?

Yoshiharu – Morávamos na Avenida Fernando Costa e quando a farmácia já estava fechada e alguém precisava de algo, ia até em casa nos chamar a hora que fosse preciso. A maioria destes casos acontecia à noite e era para nos pedir aplicação de alguma injeção. Hoje, já estamos atendendo a quinta geração dos nossos primeiros clientes e há aqueles com mais de 80 anos, que ainda compram conosco.

Hiromitsu – Nos casos em que os doentes não podiam se locomover porque estavam acamados, os familiares vinham nos buscar em casa e nos levavam até eles. Também era comum as fábricas darem vales para seus funcionários fazerem compras na farmácia. Depois, eles tinham os valores gastos durante o mês descontados em seus salários e as firmas nos repassavam

 No início, quais eram os principais medicamentos vendidos na farmácia?

Yoshiharu – Eram os medicamentos à base de sulfa, usados para contra infecções bacterianas, além da aspirina C e vitaminas C e B1, entre outras. Depois vieram os antibióticos, que sempre mudam de tempos em tempos.

Hiromitsu – Antes, a maioria dos remédios era de alopatia e quase não havia os fitoterápicos. Depois, vieram os genéricos, mas é preciso escolher bem os laboratórios fabricantes.

 Quais foram as principais mudanças nestes 70 anos de atuação no comércio mogiano?

Yoshiharu – A maior dificuldade foi a concorrência com as grandes redes. Não dá para concorrer com elas nos preços dos alopáticos, por isso começamos a dar mais espaço aos fitoterápicos, que apresentam bons resultados. Em 1993, minha filha Margareth, trouxe algumas plantas para cá e cursos para as pessoas conhecerem as ervas. Depois, a Marisa, também minha filha, fez curso com o biomédico e professor da USP (Universidade de São Paulo), Silvio Panizza, e passamos a trabalhar com os fitoterápicos. Mas também enfrentamos dificuldades com a concorrência das lojas de produtos naturais, além dos comércios que vendem ervas que não são industrializadas.

Hiromitsu – Mogi mudou muito e o comércio também. A maioria dos mais antigos, que eram de famílias tradicionais da Cidade, fechou quando vieram as grandes redes de São Paulo e, mais recentemente, as lojas populares e chinesas. É difícil a concorrência com elas, porque como vendem muito, também compram em grandes quantidades, então conseguem preços melhores. Tínhamos lojas que fizeram história em Mogi, como BBC Modas, Meyer Magazine, Carpes, Spell, Renner, Calçados São José, Kimura, Clark, Zogbi, São João, Casa Yague, Relojoaria Cruzeiro, entre outras, que infelizmente encerraram atividades.

 Qual é o segredo da família para conseguir sobreviver tantos anos neste mercado?

Yoshiharu – O segredo é trabalhar com honestidade, pontualidade e qualidade. Além disso, eu e meu irmão estamos há 70 anos juntos e nunca brigamos, porque aprendemos com nossos pais a manter o respeito, companheirismo e união, além de ter paciência, sempre. Este é o caminho para dar tudo certo. Assim, vencemos graças a Deus e a Mogi, que nos acolheu muito bem. Aqui tive meus filhos, netos e bisnetos, sendo que minha filha Margareth, os netos Alexandre e Eduardo, que começaram a trabalhar na drogaria, e a bisneta Bruna, são formados farmacêuticos.

Hiromitsu – Também demos oportunidade a vários jovens, principalmente da colônia, que trabalharam na farmácia conosco enquanto estudavam. Hoje são médicos, dentistas, engenheiros e também farmacêuticos, todos encaminhados na vida. Uma ex-funcionária, que entrou na farmácia com 15 anos e ficou 17 anos conosco, trabalha em uma grande rede de Curitiba. É gratificante ver que estas pessoas que passaram por aqui foram fazendo a vida e crescendo.

 Daqui para frente, quais são os planos?

Hiromitsu – Nossa vida é a farmácia, então, queremos continuar com saúde para poder trabalhar e atender a clientela com a qualidade de sempre nos produtos e serviços, além do melhor preço.

Yoshiharu – Estou com 93 anos e não pretendo parar de trabalhar porque o segredo é manter o corpo e a mente em movimento. Depois que os filhos se casaram, minha mulher também nos ajuda no caixa da farmácia, e aqui passamos o dia todo, recebendo os clientes que passam não apenas para fazer compras, mas também para nos visitar, conversar, e relembrar histórias da Cidade.

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