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“Ideia retrógrada e fascista” levou à violência em Brasília, diz cientista político

Em entrevista a O Diário, o cientista político e pesquisador do Instituto de Pesquisa e Marketing Político (Ipemp), Elias Martins Pereira, 66, fez uma análise dos atos anti-democráticos que aconteceram em Brasília. Na visão dele, o que aconteceu no último domingo (8) não é repentino, e sim resultado dos últimos quatro anos.  Elias, inclusive, vem alertando para […]

10 de janeiro de 2023

Reportagem de: O Diário

Em entrevista a O Diário, o cientista político e pesquisador do Instituto de Pesquisa e Marketing Político (Ipemp), Elias Martins Pereira, 66, fez uma análise dos atos anti-democráticos que aconteceram em Brasília. Na visão dele, o que aconteceu no último domingo (8) não é repentino, e sim resultado dos últimos quatro anos. 

Elias, inclusive, vem alertando para a preocupação sobre violência desde o início de novembro, quando as primeiras manifestações contra a vitória de Lula nas urnas surgiram pelo país, inclusive em Mogi das Cruzes, onde manifestantes pediam “intervenção federal e militar”.

“Esses movimentos que nós denominamos de anti-democráticos, ou que faltam muito com a compreensão do que é participação da democracia, na realidade, vêm numa crescente desde a posse do Bolsonaro em 2018. Quando ele disputou uma eleição, veio com uma proposta anti-petista, que passou primeiro por um fomento de radicalização provocada, e na realidade, em 2018 teve muito apoio de parte do poder judiciário, que foi a (operação) Lava Jato. A partir daí se criou uma tendência de radicalizar o debate político”, começa ele.

Desde que Bolsonaro foi eleito, portanto, “isso foi se intensificando”, e Elias destaca o “desrespeito à informação, ao jornalismo e ao jornalista”. Isso aconteceu pois o então presidente “tinha entendido e compreendido, de maneira inequívoca da parte dele, que esse processo da direita conservadora ia ser duradouro e teria a eleição em 2022 com certa facilidade, o que não ocorreu”.

Ao ver o resultado do primeiro turno das últimas eleições, Bolsonaro, continua o cientista político, “passou a radicalizar mais”, estabelecendo um ritmo “muito mais intenso”. “Ele não tinha liderança, e sim adeptos. E esses adeptos com a pregação de direita, que a gente pode entender como pregação conservadora, retrógrada e ao mesmo tempo que chega à beira do fascimo, ainda não é, mas chega à beira”.

O resultado já se sabe. Lula ganhou, e houve ameaças de que ele “não subiria a rampa”. “Tivemos movimento muito forte na diplomação, onde não teve nenhuma reação”, comenta Elias. Mas isso não demoraria a mudar.

“O governador de Brasília ganhou no primeiro turno, mas com tendência do voto bolsonarista, extremamente conservador, e essa mesma estrutura entendeu que deveria continuar, mesmo com a eleição do Lula”.

O cientista político volta a cravar: “essa falta de compreensão e do entendimento do que é democracia, inclusive por um grupo, população que na realidade comprou essa ideia retrógrada e fascista, quase no fascismo, gerou caldo de violência que desaguou no domingo em Brasília”.

 

Bolsonarismo

O ataque aos símbolos da democracia é definido por Elias como um “movimento organizado pelo bolsonarismo”.  Mas teria o silêncio de Jair Bolsonaro, após a derrota nas urnas, influenciado a violência em Brasília?

“Isso foi um erro, estimulado pelo Bolsonaro. À medida que ele ficou quieto e não se manifestou e não desejou ao vitorioso sucesso na gestão e não se colocou à disposição, na realidade ele estimulou essas ações insanas, e isso pode custar muito caro ao bolsonarismo”.

Contudo, Elias alerta:  “essa corrente de pensamento vai continuar e sempre existiu, apenas foi desvendada por um líder, que não encontrou lideres, e sim adeptos”.

Ele explica. “Tem raízes muito fortes na própria estrutura ideológica dele (Bolsonaro), essa visão de que um presidente que disputou uma eleição, mas na campanha desviava o tema, como as questões indígenas, ambientais, de recismo, cotas, misoginia, diversidade e homofobia. Estes temas nunca foram tratados com muita abertura, então eu não acredito que ele falaria com sinceridade e com uma visão democrática a respeito desse assunto”.

A análise vai mais fundo. Ignorando que Bolsonaro “conquistou adeptos, seguidores, uma facção, como se fosse uma ceita”, mesmo se ele tivesse falado algo, o resultado “seria o mesmo que foi”.

“Líderes debatem, facção não debate. Isso não é liderança. Ceita acredita, e ele só foi encaixado dentro de um partido político, que é o PL, mas a linha de reflexão de democracia e debate político e eleitoral é essa. Ele teve sucesso lá atrás, na Lava Jato, mas ela, de uma certa forma, perdeu a força a partir do momento que começou a se discutir a parcialidade do juiz, (Sergio) Moro, que não era juiz imparcial, e sim parcial”.

 

Violência histórica

“Na torcida pelo fim do fascismo no Brasil”, Elias analisa as perdas dos ataques do último domingo (8), como danos a uma pintura de Di Cavalcanti, importante artista do período modernista.

“Os ataques terroristas aos poderes da república em Brasilia foram o que faltava para demonstrar o despreparo e alienação dos adeptos ao bolsonarismo. Esta gente que foi para o ataque insano ao patrimônio histórico, envolvida de tamanha ignorância e estupidez, desconhece o papel da cidadania e a democracia. Derrotados nas eleições presidenciais, não possuem compreensão do que é um processo eleitoral”.

Ele considera estas pessoas como “alienadas que não se reconhecem como produtores das instituições sociopolíticas”, e por isso “revelam-se contra o próprio estado de direito, agredindo o que encontram no caminho, de eleitores a jornalistas e incluindo também obras de arte”.

Questionado sobre a possível semelhança deste episódio de Brasília com algum outro da história brasileira, Elias reflete. Os pensamentos dele vão aos tempos da instalação da República, quando “a ideia vinha com democracia, mas na realidade teve muitos movimentos mas continuou o mesmo do mesmo”.

Naquele tempo, “quem era monarquista na realidade navegou no novo modelo de governo que foi a república, e nada mudou: as oligarquias continuaram no mesmo mando”, lembra ele.

Já nas décadas mais recentes, ele acredita que “os únicos movimentos que se observa que foram violentos foi do golpe de 64”.

“Mas era golpe militar de direita que na realidade atendia, naquele momento, o que era o mundo, que era a discussão entre comunismo e capitalismo, Guerra Fria, e outras questões a mais”, analisa ele, que enxerga, naquela ocasião, “dois movimentos, duas correntes da população”, sendo “uma que defendia a democracia e o respeito aos direitos individuais e humanos e a outra que queria estabelecer uma ditadura”.

Agora o contexto é outro. “Essa corrente do Bolsonaro está meio fora dessa etapa. Não existe, na América Latina, na América do Sul, nada assim. A maioria dos presidentes são progressistas, de Centro ou Centro-Esquerda. É o caso da Colômbia, Chile, México, Argentina. Mesmo nos Estados Unidos, quando presidente quando se manifesta, é pelo apelo à democracia, porque vê esse modelo de ação dos bolsonaristas um mundo parecido com o de Donald Trump”.

 

Comparação com a invasão ao Capitólio

Falando em Estados Unidos, em 2021 houve uma invasão no Capitólio, no dia 6 de janeiro. Na ocasião, partidários do então presidente Donald Trump foram por ele convocados a se reunirem para protestar contra o resultado da eleição presidencial..

“Lá, foi no sentido de invadir a câmara dos deputados e o senado, mas se encontrou algum tipo de resistência e ocorreram cinco mortes. Todos foram punidos. Aqui foi contra  os três poderes, Legislativo, Supremo e Executivo. Essa gente agiu pela representação, para atar sistemas de poderes da república. Foi muito ruim”.

Elias finaliza dizendo que os eventos de domingo (8) dão “um tom do que é o bolsonarismo”, que é apoiado não apenas por aquelas pessoas que estavam lá, mas por “parte dos políticos eleitos, por parte do senado e por parte do empresariado brasileiro, principalmente da pequena burguesia, como o comerciante da classe média brasileira ascendente que não aceita muitas coisas que são importantes para outras classes sociais que sempre foram alcançadas pelo menos nos anos de governo PT”.

 

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