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Mães atípicas questionam a terceirização do Caps e a falta de psiquiatras em Mogi

As mães atípicas de Mogi das Cruzes participaram de uma audiência pública, na Câmara Municipal, a fim de discutir as mudanças no atendimento oferecido na cidade pelo Centro de Atenção Psicossocial (Caps), serviço de saúde voltado aos atendimentos de pessoas com sofrimento psíquico ou transtorno mental. Durante o encontro, que aconteceu na última quarta-feira (19), […]

24 de julho de 2023

Reportagem de: O Diário

As mães atípicas de Mogi das Cruzes participaram de uma audiência pública, na Câmara Municipal, a fim de discutir as mudanças no atendimento oferecido na cidade pelo Centro de Atenção Psicossocial (Caps), serviço de saúde voltado aos atendimentos de pessoas com sofrimento psíquico ou transtorno mental.

Durante o encontro, que aconteceu na última quarta-feira (19), elas questionaram o processo de terceirização do Caps em Mogi, o que, segundo elas, poderia comprometer o trabalho que já vinha sendo realizado por profissionais que atuam na unidade.

As mães alegam que a medida pode colocar em risco o trabalho da médica Patrícia Oliveira, que atende mais de 1500 crianças com transtornos mentais na cidade. Algumas delas se posicionaram contrárias a terceirização.

A mãe de um garoto com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Ingrid Dias Penachio, explica que o problema é que com a terceirização, o atendimento será descontinuado, porque passará a ser feito por pediatras e não por psiquiatras. Ela também critica o fato de a Prefeitura não ampliar o debate a respeito do tema com os usuários do serviço antes de fazer qualquer mudança.

“Não vai melhorar porque quem fazia o atendimento do meu filho era a psiquiatra, a Dra Patrícia. Desde que ele teve o diagnóstico ela o acompanha, e quem conhece uma criança autista sabe da dificuldade que ela tem de aceitação de outra pessoa até mesmo para uma consulta médica que é uma coisa difícil, mas o problema maior é o atendimento deve passar a ser feito por pediatras”, argumenta.

Ela disse que recentemente foi remarcar uma consulta de retorno do filho com uma psiquiatra, e que não precisaria ser necessariamente a doutora Patrícia, mas esperava uma especialista, porém a criança foi direcionada para uma das três pediatras que atendem no local. “Isso é incoerente porque me desloco para marcar um pediatra sendo que eu poderia agendar no 160 e passar em um posto de saúde.  Mas o que certo é um psiquiatra, porque ele precisa ser medicado e tem que continuar continuidade com o atendimento”.

Ingrid disse também que a Prefeitura poderia investir no que já tem no Caps Infantil, realizar concurso público, melhorar o espaço para poder dar o atendimento médico e complementar o trabalho da Escola Municipal de Educação Especial (Emesp), que dá suporte às crianças na parte mais pedagógica e multidisciplinar.

“O trabalho do Caps Infantil é excelente, e o que precisa é melhorar a estrutura e ampliar a quantidade médicos, teria que ter pelo menos mais uma psiquiatra. Agora vai terceirizar e colocar pediatra para atender não tem lógica não tem lógica inaugurar um prédio novo só para fazer o primeiro atendimento”, avalia

A mãe atípica de duas meninas gêmeas, Andréia Rodrigues, disse que é contra a terceirização porque acha que os médicos vinculados ao município dão tratamento melhor e são mais comprometidos.

Ela conta que no último dia 30, teve que ir ao Vagalume para levar uma das filhas que estava chorando de dor. Disse que a médica que atendeu alegou que a garota não tinha nada e que era caso para psiquiatria. “Minha menina estava aos prantos, com dor e eu disse que não sairia de lá até que resolvesse o problema. No final, descobriram que ela estava com infecção urinária”, relata.

O que diz a Prefeitura

A Secretaria de Saúde da Prefeitura de Mogi das Cruzes participou do encontro, na Câmara Municipal, representada pela adjunta da pasta, Rosângela da Cunha, a Dra. Nenê, que na oportunidade esclareceu todas as dúvidas das mães, e se colocou à disposição das mães para outras necessidades.

Na audiência pública, a pasta alega que explicou que procederá com um chamamento público, cujo objetivo é a execução dos serviços através de um Contrato de Gestão e que “a pretendida contratação resultará em ampliação, continuidade, e melhoria na qualidade do atendimento”.

A Saúde, em nota encaminhada a O Diário, explica ainda que a medida “resultará também em melhoria no atual Ambulatório de Saúde Mental, que continuará funcionando com o quadro de servidores de forma mais adequada. A rede de atenção psicossocial preconiza que os atendimentos devem ocorrer em espaços diferentes, onde os transtornos graves devem ser atendidos no Caps Infantil e os transtornos leves em um Ambulatório de Saúde Mental Infantil”.

A pasta acrescenta ainda que o atendimento adequado, conforme preconizado, será ofertado no Complexo Integrado de Atendimento à Saúde (Cias), e esclarece que com a estrutura, o atendimento médico será ampliado de 40 horas para 120 horas, além das especialidades de nutricionista, homeopatia, fonoaudiologia, dentista e terapia ocupacional.

Em relação à médica, Dra. Patrícia Oliveira, que, segundo a Secretaria da Saúde, recentemente solicitou afastamento de um dos vínculos empregatícios que exercia junto a Prefeitura, também foi esclarecido na audiência pública, da qual a profissional estava presente. “Por este motivo, para dar continuidade aos atendimentos, foram incorporadas duas pediatras com trabalho voltado à saúde mental”, complementa.

Por fim, a secretaria de Saúde reforça que foram abertos concursos anteriores para psiquiatras, porém sem adesão. “Reitera, portanto, que a execução dos serviços por meio do Contrato de Gestão, possibilitará que os serviços sejam oferecidos com a qualidade necessária, de forma contínua, a fim de possibilitar a reposição imediata dos profissionais necessários seja em caso de afastamento, pedido de demissão, ou qualquer outra ocorrência do tipo, o que acaba não sendo possível através da execução direta, dificuldade está enfrentada atualmente”.

Mobilização

A vereadora Inês Paz (PSOL), que organizou o encontro na Câmara, não concorda com os argumentos. De acordo com ela, a adjunta explicou que não tem psiquiatra que queira trabalhar, mas a parlamentar questiona o porquê não foi feito um concurso, alegando que essa falta de psiquiatra acontece há mais de duas décadas na cidade, desde o governo Junji Abe (MDB), que comandou a cidade no início de 2000.

“Dizer que terceirizar melhora é uma falácia, pois o Convênio descredenciou todas as clínicas terapêuticas”, critica, acrescentando ainda que aposta nos serviços públicos através de concursos.  “A nossa luta é a manutenção dos serviços públicos, a população precisa se mobilizar.  Dizer se que com a terceirização atenderá a todos? Isso não está acontecendo desde já com consultas básicas.  Está faltando clínico geral, ginecologista, pediatria”, argumenta Inês

Sobre a luta contra a terceirização, a vereadora espera conseguir mobilizar todos os envolvidos para fazer uma campanha mais ampla na cidade para impedir que isso aconteça. “Especificamente sobre as questões do que as mães atípicas estão enfrentando, independentemente da terceirização ou não, o que pedido que vamos encaminhar à Prefeitura é para que realize mais campanhas esclarecendo o que são as mães atípicas de crianças neuro divergentes, uma campanha mais explicativa sobre a questão de ter atendimento prioritário para algumas consultas”, comenta. Para quem ainda não conhece a expressão, mãe atípica é aquela que lida com a criação de uma pessoa com deficiência.

Ela disse que vai insistir que sejam promovidas ações por parte da gestão no dia a dia e que a prefeitura também faça concursos para chamar as chamar Auxiliares de Desenvolvimento Infantil (ADIs) para atuar nas escolas, além da contratação de psiquiatras para tratar e atender as demandas que tem nas Unidades Básicas de Saúde (UBS).

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