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O advogado, a melancia e as eleições municipais em Mogi

As eleições municipais de 1976 foram das mais emblemáticas e disputadas da cidade.  Pela Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido do golpe e do governo militar da época, o candidato Waldemar Costa Filho concorria, sozinho, contra três candidatos do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), de oposição ao regime.  Vigorava, à época, o voto de legenda para as […]

Por O Diário
13/08/2021 14h59, Atualizado há 60 meses

As eleições municipais de 1976 foram das mais emblemáticas e disputadas da cidade. 
Pela Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido do golpe e do governo militar da época, o candidato Waldemar Costa Filho concorria, sozinho, contra três candidatos do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), de oposição ao regime. 
Vigorava, à época, o voto de legenda para as disputas de cargos majoritários, um artifício usado pelo governo militar para favorecer a ascendência  arenista nos grotões e nos grandes centros: somavam-se os votos dos candidatos de cada legenda – três, no máximo – e vencia o mais votado do partido que alcançasse maior número de sufrágios no cômputo final.
Em Mogi, tudo era diferente. Confiante em seu poder de fogo eleitoral, Waldemar simplesmente abria mão dos dois possíveis companheiros de legenda para enfrentar o advogado trabalhista, mineiro como ele, Rubens Nogueira Magalhães, que tinha fama de comunista; o padre católico Herval Brasil de Siqueira, de tradicional família da cidade; além de Américo Kimura, dono de imobiliária, colocado na chapa para  atrair os votos da comunidade nipônica, à época muito grande na cidade.
Waldemar costumava aplicar a Rubens Magalhães, seu compadre, com quem havia rompido politicamente, a pecha de “vermelho” ou “comuna”.
Em troca, recebia o estigma de “ditador”, pelo cabelo cortado à escovinha e óculos escuros, no estilo militar, e pelo modo muito peculiar como costumava agir.
Veio a eleição, disputadíssima, e deu Waldemar na cabeça, após uma campanha dura, marcada por ataques de ambos os lados. E, como sempre, em situações desse tipo, sobraram mágoas e ressentimentos.
Tanto que, logo após o resultado sacramentado, alguns aliados do vencedor trataram de encontrar um meio de provocar os derrotados.
E foi então que, para a passeata da vitória, que deveria percorrer toda a cidade, numa manifestação que hoje é chamada de “carreata”, os cupinchas de Waldemar decidiram alugar uma toga de advogado e vesti-la em Roberto “Chep-Chep” Schiripa, um aliado do grupo vencedor, que desfilaria levando uma melancia pendurada no pescoço. A sátira seria, é claro, uma alusão a Magalhães – verde por fora e vermelho por dentro, como eram tratados os comunistas à época. Toninho Andari havia alugado a toga em São Paulo e a melancia já estava fatiada, para ser distribuída ao público que estivesse nas calçadas acompanhando o desfile, principalmente na área central da cidade, onde os ânimos sempre estiveram mais exaltados na campanha.
E foi então que chegou um pedido – leia-se “ordem” dos tempos ditatoriais – do delegado da cidade à época. 
Buscando prevenir possíveis  confrontos, a comemoração/provocação acabou abortada, a toga devolvida e a melancia degustada pelos participantes da passeata da vitória. Essa, sim, aconteceu, sem maiores problemas.

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