Pedrinho Matador trabalhou em escola de Mogi como jardineiro durante três anos
Durante três anos, Pedro Rodrigues Filho trabalhou como jardineiro na EE Francisco de Souza Mello, no Botujuru. Chegou à escola após um pedido feito por uma das irmãs dele, Ângela, à então diretora, Maria Zelinda Rodolfo. A conquista do emprego era uma maneira de ressocializar Pedro, num período em que se libertou das grades. Maria […]
13/03/2023 09h02, Atualizado há 39 meses
Durante três anos, Pedro Rodrigues Filho trabalhou como jardineiro na EE Francisco de Souza Mello, no Botujuru. Chegou à escola após um pedido feito por uma das irmãs dele, Ângela, à então diretora, Maria Zelinda Rodolfo.
A conquista do emprego era uma maneira de ressocializar Pedro, num período em que se libertou das grades. Maria Zelinda sabia da história do homem de pouca palavra, tímido, e do apelido de “Matador” que identificava o serial killer brasileiro com o maior número de mortes confirmadas.
“Eu pensei muito em como poderíamos fazer. Conversei com ele, falei sobre as regras, e também falei com a minha equipe e alunos para não ter brincadeiras maldosas, gracinhas, e nem intimidade. Nós sabíamos quem era ele, que estava lá para trabalhar. Foi uma das melhores coisas que eu fiz na minha vida”, define hoje.
Pedrinho era madrugador e aprendeu o serviço de roça, a caça, a lida com animais, com avós e tios. O nome no diminutivo foi preservado entre os oito irmãos, os mais novos vivendo na Ponte Grande desde o final dos anos 1950. Ele chegava por volta das 5 horas na escola, conhecida pela defesa de causas ambientais e humanas.
VEJA TAMBÉM: Pedro Rodrigues Filho morreu aos 68 anos e foi enterrrado no Cemitério São Salvador
“Trabalhava sábado e domingo, e o chão do jardim era um espelho, não tinha um papel de bala, nada. Teve uma época, que ficava com a chave porque era o primeiro a chegar para cuidar dos canteiros e flores”, lembra a diretora que deixou a unidade em 2021.
Maria Zelinda foi ao velório e ao enterro no Cemitério São Salvador, na segunda-feira (6).
Carismático, apesar de não dar muita abertura, ela lamentou a morte do conhecido que se preparava para celebrar 70 anos.
Do convívio, recorda-se das conversas. “Ele dizia que se arrependeu e que nunca matou gente boa”.
Da prisão, pouco falava. Mas chegou a comentar casos, como um motim na antiga Cadeia Pública, no Parque Monte Líbano, (antes da construção do Centro de Detenção Provisória, o CDP, no Taboão) em que detentos desafetos de um preso, amigo dele, “o senhor João”, foram mortos. Eles perseguiam o amigo do homicida, que se aproveitava de rebeliões, para vingar situações e comportamentos das quais discordava. Naquele dia, ele matou sete. Em entrevistas antigas, recusava o codinome de justiceiro. Durante anos, teve a inscrição “prazer por matar” no corpo.
Zelinda acredita que uma parte dos casos era floreada, exagerada.
VEJA TAMBÉM: O jornalista Darwin Valente, de O Diário entrevistou a escritória Ilana Casoy que escreveu obras sobre os serial killers do Brasil e foi procurada por Pedrinho Matador para contar a história dele.
Após três anos de trabalho, o jardineiro aceitou convite para morar com uma das irmãs, em Santa Catarina. Terminava o período em que ele surpreendia os professores quando ficava emocionado ao receber mimos, como ovos de Páscoa ou regalos no Natal. “Ele virava mesmo uma criança”. Com os estudantes, era atencioso. “Quando havia briga, ele não deixava continuar, dava conselhos, era respeitado e querido”. Outros indivíduos que recebiam medidas cautelares, chegaram a ser encaminhados à unidade pela Justiça. “Um deles, que era até aluno, foi num dia e não voltou. A gente conhece quem quer sair da vida errada. E o Pedro queria mudar”, acrescentou.
A morte dele surpreendeu conhecidos por ocorrer quando estava de “boa, envelhecendo”.
Seguido por milhares
Nos últimos três anos, Pedro Rodrigues Filho fez carreira de influencer nas redes sociais adotando outro codinome, Pedro Ex-Matador com Jesus ou Pedrinho Ex-Matador, Não Monstro. Lançou duas biografias, divulgava planos para dois filmes sobre a própria história, projetados por Pablo Nascimento, e por Fernando Grostein Andrade (irmão de Luciano Huck) e Fernando Siqueira. Chegou a somar mais de 800 mil visualizações no Youtube – teve, inclusive, “roubo” de domínio nas redes sociais.
Dias antes de morrer, informou aos seus seguidores que estava em Mogi, para resolver um problema pessoal. Ele manteve-se ativo dede o início da pandemia, com comentários sobre crimes, de pregações bíblicas, onde desestimulava criminosos, política, e a importância da vacina da Covid.
Semana passada, gravou encontro com um amigo de infância. Falou da rua mogiana onde viveu desde criança. Dados que podem ter ajudado no plano de morte por vingança ou cobrança, cumprido no ato derradeiro do serial killer. A Polícia investiga o assassinato e procura três homens que usavam capuz e foram vistos por testemunhas, passando duas vezes pela rua antes dos tiros fatais. O caso foi registrado pelo delegado José Carlos Santos Alvarenga como homicídio com emprego de asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, mediante paga ou promessa de recompensa ou por outro motivo torpe.