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Políticos enfrentam problemas com projetos e pássaros

Duas histórias de locais distantes e distintos – Grossos, no Rio Grande do Norte, e Salesópolis, na Grande São Paulo – se assemelham e também se completam para mostrar a simplicidade de alguns políticos brasileiros no trato com questões de ordem administrativa ou pessoal.  A primeira delas é contada pelo consultor Gaudêncio Torquato, em sua […]

Por O Diário
19/03/2023 10h09, Atualizado há 39 meses

Duas histórias de locais distantes e distintos – Grossos, no Rio Grande do Norte, e Salesópolis, na Grande São Paulo – se assemelham e também se completam para mostrar a simplicidade de alguns políticos brasileiros no trato com questões de ordem administrativa ou pessoal.

 A primeira delas é contada pelo consultor Gaudêncio Torquato, em sua coluna “Porandubas Políticas”, lembrando o escritor Paulo Santos.

Quando senador pelo Rio Grande do Norte, Agenor Maria (sindicalista rural, falecido em 1997), visitando o município de Grossos, foi interpelado pelo prefeito Raimundo Pereira. 
“Estamos precisando de uma escola para a comunidade de Pernambuquinho.” 

De pronto, Agenor garantiu-lhe apoio à proposição, assim como a liberação de recursos para a obra. 
Semanas depois, um telegrama traz a boa-nova ao prefeito: 

“Escola está assegurada. Mande-me o croqui.”

Tomado pelo espírito de gratidão, Raimundo visita Agenor para agradecer o empenho, carregando uma gaiola à mão.

 Diante do senador, que estranha o acessório, Raimundo vai logo se explicando:

“Eu não peguei um concriz como o senhor pediu, mas trouxe esse sabiá. O bichinho canta que é uma beleza!”

A outra história, a de Salesópolis, envolveu um antigo prefeito, muito popular e originário da zona rural do município onde nasce o rio Tietê, famoso por suas matas ainda virgens, rios e pássaros. Muitos pássaros.

Pois o prefeito de nossa história era justamente um apaixonado pelos passarinhos.

Tanto que tratava deles com carinho e comida para que eles permanecessem soltos, no quintal de sua casa.

Um certo dia, o prefeito  foi informado de que, em São Paulo, haveria uma grande exposição de pássaros, muitos deles raríssimos, o que aguçou a curiosidade da autoridade, que para lá se dirigiu.

No enorme espaço da área da exposição,  ele se encantou com um casal de passarinhos desconhecidos.

Impressionado e disposto a saber a identificação das aves, ele se dirigiu até uma das recepcionistas, estas lindas mulheres  contratadas para atender ao público, mas quase sempre ignorando o que se passa à sua volta.

Foi para uma dessas que ele perguntou o nome dos bichinhos:

“Ignoro, senhor” – respondeu a bela, secamente.

De volta para a Prefeitura, o seu chefe de gabinete, buscando fazer uma média com o chefe, quis saber do que ele mais havia gostado na visita à feira de aves na Capital.

E o prefeito, ainda impressionado com o casal de pássaros que vira na exposição, respondeu de pronto:

“Tudo lá era muito bonito, lindo mesmo. Mas o que eu realmente adorei foi um casal de ignorinhos”, garantiu o chefe do Executivo, ainda maravilhado.
 

Assombrando Nova York

O promotor público Sebastião Cascardo, prefeito de Mogi entre 1972 e 1976, tinha na honestidade sua maior virtude. Mas enfrentava dificuldades para administrar a cidade. A ponto de mandar construir uma ponte sobre o rio Negro, que teve de ser demolida, por ficar algo em torno de quatro metros  acima do nível da rua a ser por ela ultrapassada.
Mas não ficou somente nisso.

Vieram muitas outras  trapalhadas administrativas.

E foi em meio ao tumultuado governo que um mogiano, em visita aos Estados Unidos,  encomendou uma primeira página do jornal “The New York Times” com uma manchete local.

Foi assim que a vitirine de uma loja, no ponto mais movimentado da rua Dr. Deodato Wertheimer, estampou, por algum tempo, a capa do jornal com o título, em letras garrafais: “Obras de Cascardo assombram Nova York”.

A política já viveu tempos menos sisudos por estas bandas.

 

Deu bode na cabeça

O bom político oposicionista é aquele que incomoda seus adversários até mesmo nas pequenas coisas.

Prefeito de Suzano, Firmino José da Costa publicou edital em jornal anunciando o leilão de um bode encontrado nas ruas da cidade pela Fiscalização e jamais reclamado pelo seu dono.

Repetido durante alguns dias, o anúnciou chamou a atenção do vereador Francisco Quadra Andrez, o impagável “Ticão”, que fez as contas e não teve dúvidas: foi para a tribuna da Câmara denunciar o prefeito Firmino por excesso de gastos.

Ele alegava que Firmino jamais conseguiria arrecadar, com a venda do bode, o que aplicara divulgando o leilão.

O caso repercutiu e  não apareceu um só interessado.

E a despesa ficou ainda maior. Dizem que o animal continuou comendo e bebendo, até o fim de sua longa vida, sempre às custas do erário público suzanense. 

Com isso, o bode acabou recebendo uma bela aposentadoria.

 

Quando a verba não dá

Contam que na Câmara de uma pequena cidade do Alto Tietê, o presidente recém-eleito quis fazer uma média com o dono do jornal local.

Chamou o seu diretor financeiro e ordenou que enviasse para publicação, no semanário, os anais do Legislativo.

O diretor ouviu, foi até seu gabinete, fez as contas e voltou dizendo que a verba consignada no orçamento  não era suficiente para a publicação dos anais (documentos de valor jurídico e histórico, definidos  como um registro onde são narrados fatos).

O presidente do Legislativo se imbuiu da autoridade que lhe assegurava o cargo e mandou ver:

“A verba não dá? Não tem problema. Publica um anal só,  depois mandamos publicar os outros”. 

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