Filha denuncia pai por suposto abuso sexual de netas em Suzano
O apoio da família, uma publicação nas redes sociais e a denúncia feita à Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), que se transformou em processo judicial, levaram uma funcionária da Prefeitura Municipal de Suzano – cujo nome será preservado para não expor a identidade de uma adolescente – a denunciar violência sexual sofrida por ela, […]
07/07/2022 16h48, Atualizado há 47 meses
O apoio da família, uma publicação nas redes sociais e a denúncia feita à Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), que se transformou em processo judicial, levaram uma funcionária da Prefeitura Municipal de Suzano – cujo nome será preservado para não expor a identidade de uma adolescente – a denunciar violência sexual sofrida por ela, quando tinha 6 anos e, mais recentemente, a mesma situação sofrida por suas duas filhas, uma de 18 e a outra de 16 anos. O acusado de tais práticas é o pai e o avô das vítimas, um político conhecido na cidade. O silêncio foi quebrado, segundo ela contou em entrevista exclusiva a O Diário, após um período de luto, dor e tratamento psicológico.
A profissional disse que falar abertamente sobre o assunto foi a forma que encontrou para seguir em frente, “virar a página e estimular” outras mulheres a denunciarem os abusos, mesmo quando se trata de alguém próximo da família. No caso dela, o próprio pai. “Eu era uma criança e ele, o meu pai, a única pessoa que eu queria que me protegesse na vida”, declara a mãe de cinco filhos, ao tornar público um segredo guardado por mais de 40 anos, até descobrir que suas duas filhas também tinham sido vítimas do mesmo abusador, segundo denuncia.
De acordo com ela, foi o amor pelas filhas que deu a força para o enfrentamento da situação e a denúncia à Polícia. “Quando você está no meio do furacão é preciso ter disciplina e pensar: eu preciso fazer isso, por mim e pelos meus filhos. A maior conquista foi a liberdade dessa jaula que a gente não enxergava. Tirei um peso das costas e a angústia. É lógico que a sua vida não vai ser um arco-íris todos os dias: tem dias bons e ruins, mas a gente tem que saber respeitá-los e seguir em frente”, ressalta, ao falar sobre o sentimento após a decisão.
A atitude “tão libertadora” a ajudou a expor o caso também em suas redes sociais, com uma publicação feita nesta quarta-feira (6). “Quando eu tinha seis anos de idade, meu pai me convidou para tomar banho com ele. Esse banho mudou o resto da minha vida”, diz o texto publicado em sua conta pessoal do Instagram, que começou a receber, imediatamente, o apoio de conhecidos e de outras mulheres.
O Caso
Mãe de três meninos e duas meninas, bacharel em Ciências Jurídicas e pós-graduada em Direito e Processo Eleitoral e em Administração Pública e Gerência, ela ocupa atualmente um cargo na Prefeitura de Suzano. Apesar de saber de toda a repercussão em torno que o assunto teria, quando viesse a público, ela explica que decidiu dar publicidade a essa história para, segundo diz, “literalmente mostrar para as mulheres, porque não importa quem a pessoa seja, ou qual a situação se encontra, ainda é possível falar sobre o assunto para se libertar”.
Ela alega que quanto mais ouvia relatos de outras mulheres que tinham sofrido abuso, mais se sentia confiante e fortalecida para tratar do assunto. “Me senti, durante toda a minha vida, inferior às mulheres que tiveram a coragem de denunciar e enfrentar e isso porque eu queria ter essa coragem, mas não conseguia. Então foi um processo e, quanto mais depoimentos eu ouvia, mais eu falava: Poxa, se eu tivesse coragem. Enquanto filha, eu não tive, mas enquanto mãe sim”.
Ao falar publicamente sobre o assunto, ela afirma que quer alertar as mães sobre a importância de conversar com os filhos de forma aberta, sem preconceitos, para que as crianças tenham a confiança para contar o que está acontecendo e evitar abusos e traumas que podem ser carregados por toda a vida.
“É sobre isso: nós mães e mulheres mais jovens da geração delas temos que nos acostumar a viver unidas, em família, ir crescendo e amadurecendo. É preciso falar sobre abuso e assédio e como existem pessoas que não controlam os seus instintos. Muitas dessas pessoas podem ser da sua família, estar dentro da sua casa e você não percebe. As pessoas que têm esse instinto são totalmente manipuladoras. Conseguem dissimilar e você não enxerga a situação”, alerta.
A descoberta
A denunciante conta que tinha poucas lembranças da infância, mas sempre vinha em sua mente a memória do dia do banho com o pai. Por muitos anos, ela disse que tentou bloquear o acontecimento. Teve problemas para se ajustar quando era adolescente, sentia angústia e nunca se sentia à vontade com o pai quando estavam sozinhos, apesar de terem muita proximidade, especialmente no setor profissional.
“Tinha uma grande admiração por ele. Na verdade, hoje enxergo que admiração é uma palavra que a gente coloca no lugar de submissão. Uma vítima – e te falo com propriedade – ela sempre é submissa ao seu abusador, até o momento em que ela se liberta e não importa em qual situação da vida – não importa se é profissional ou pessoal. Você precisa da validação da pessoa. Este era o lugar onde aprendi a estar desde os 6 anos. Para sair dele e da zona de conforto era muito difícil.
Durante anos, a profissional fez terapia, o que a “ajudou a entender também a dimensão e o impacto que esses abusos” causaram na vida dela. Mesmo assim decidiu guardar segredo de todos por não se sentir à vontade para falar a respeito e também por receio da reação da mãe dela, que não imaginava o que tinha acontecido. “Era um peso eterno no peito, uma angústia, constante, e o desconforto quando estava com ele”. Mas achava que com o tempo, a maturidade e a experiência de vida, o pai tinha mudado de atitude e que já deveria ter controle dos seus instintos.
Seguiu com a vida: casou, se divorciou e passou a morar com os cinco filhos. “Moramos todos juntos e nunca desconfiei de nada e nunca vi olhar dele diferente para as minhas filhas. Ele estava sempre por perto, era o vovô, o vovô que ia viajar com a gente, o vovô que a gente sempre ia para a chácara. Até quando eu soube que ele tinha abusado e assediado as minhas filhas também”.
Isso aconteceu há pouco mais de um ano, quando as filhas decidiram abrir o jogo com a mãe. As duas contaram que vinham sendo abusadas pelo avô por muitos anos e o pior é que uma não sabia da outra. Disseram que não estavam mais suportando a situação e que não tinham contado antes porque sabiam da relação próxima da mãe com o pai.
“Elas vieram e me pediram socorro e disseram que tinham muito medo por causa da minha relação com ele. Imediatamente eu abracei as duas e falei: nada supera o amor que eu tenho pelos meus filhos. Mesmo se eu não tivesse sido vítima também, eu não contestaria jamais. Mas, só que infelizmente sei exatamente quem ele é. Então para mim não foi nada difícil saber que elas estavam muito certas e muito abaladas. No caso delas, não foi apenas uma vez, mas sim 9 anos consecutivos e segundo o que elas me contam, era todas as vezes que elas estavam conosco”.
Quando ficou sabendo sobre o abuso das filhas, decidiu confrontar o pai, que não negou. “Disse que era sandice”. Ela conta que falou com ele abertamente pela primeira vez sobre o que tinha acontecido quando era criança, mas ele disse que não se lembrava.
As duas filhas começaram a mostrar sinais de depressão e automutilação. Ambas se cortavam e uma delas passou por uma crise aguda de depressão. Ficou dois dias internada em uma UTI.
Mesmo assim, ela tentava esconder o caso da mãe, que já estava separada do pai há 12 anos. “Não queria magoar e acreditava que ela era muito frágil e tinha medo que o baque fosse muito grande. Por isso, quando fiquei sabendo da primeira vez delas, ficou entre eu e elas, porque no mesmo momento em que tive que acolhê-las, também tive que expor o meu segredo. Fiquei muito mal. Tinha que tirar força de um lado e tristeza de outro. Enfrentar a realidade de um dia para a noite, sendo que escondi isso durante 42 anos. Nesse momento, eu disse: meu Deus e agora? Tenho que acolher minhas filhas imediatamente, mas tenho que ter cuidado, porque, imagina, o que vai ser da minha mãe se ela souber? O que vai ser das pessoas? Como vai ficar a imagem dele? Como vai ficar a nossa vida, a família, o que vão pensar dele? Eu continuei nesse processo de submissão”, relata.
Porém, no final de 2021 teve que fazer uma viagem para o México para resolver um assunto com o filho mais velho e acabou ficando por lá mais de 15 dias. Foi então que a filha telefonou e disse que não estava aguentando mais e que tinha acontecido mais uma vez, o que a desagradou muito. “Aí, decidi: não tem mais como ficar só entre nós. Não tem como não confrontar se isso não se tornar uma verdade. Minha filha disse também que tinha muito medo de acontecer com outras crianças. A maior preocupação dela era essa. A avó ficou sabendo e, diferente do que ela imaginava, demonstrou uma força incrível e decidiu incentivar a filha a fazer a denúncia”.
Ela preferiu não falar sobre o inquérito, que corre em segredo de Justiça e explica que constituiu um advogado para cuidar do caso. “A família está muito bem agora, todos juntos, os cinco filhos, planejando a próxima viagem, a próxima festa de aniversário, a pintura da parede. Estamos indo em frente. Tem dias felizes e tem dias muitos tristes e você vai respeitá-los, mas eles não vão te dominar nunca mais”.
Defesa
O Diário encaminhou mensagens e ligou para a pessoa acusada com objetivo de ouvir a sua versão. As ligações não foram atendidas, e o jornal coloca-se à disposição para apresentar a outra versão desse caso.
O advogado de defesa do político, Denis Souza do Nascimento, encaminhpou a seguinte nota: “O que existe é uma investigação em andamento, não existe culpa formada. O inquérito está sob segredo de justiça para preservar à todos, portanto, no momento, não podemos passar maiores detalhes sobre o conteúdo do inquérito.