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Massacre na escola Raul Brasil, em Suzano, completa dois anos; veja depoimentos

O capítulo mais triste da história recente de Suzano completa dois anos neste 13 de março. Na mesma data, em 2019, dois ex-estudantes entraram na escola estadual Professor Raul Brasil e atacaram estudantes e funcionários. Uma professora e uma coordenadora pedagógica, além de cinco alunos, foram as vítimas fatais da ação dos jovens, que contou […]

13 de março de 2021

Reportagem de: O Diário

O capítulo mais triste da história recente de Suzano completa dois anos neste 13 de março. Na mesma data, em 2019, dois ex-estudantes entraram na escola estadual Professor Raul Brasil e atacaram estudantes e funcionários. Uma professora e uma coordenadora pedagógica, além de cinco alunos, foram as vítimas fatais da ação dos jovens, que contou com um revólver e outros apetrechos, como arco e flecha. Antes, eles atiraram no tio de um deles, dono de uma agência de veículos, a poucos quarteirões da escola, no Parque Suzano. 

A tragédia entrou para a história do Brasil, que não tem registros frequentes deste tipo de crime, como ocorre nos Estados Unidos. Em Suzano ele causou uma demanda por atendimento psicológico maior do que a estrutura municipal suportaria. A fila de espera chegou à casa de 1,3 mil pessoas. Uma força-tarefa com profissionais de universidades públicas foi encaminhada à cidade para prestar o apoio. Em seguida, uma unidade do Centro de Referência e Apoio à Vítima (Cravi) foi instalada: Em 2019 o CRAVI realizou 29 dias de plantões e 572 atendimentos, desde o dia do ocorrido até o mês de Junho de 2019.  

O CRAVI Suzano foi inaugurado no final de 2019. Desde então já realizou 1.041 atendimentos, até fevereiro de 2021.   

Das 10  vítimas do massacre ocorrido na Escola Raul  Brasil que chegaram ao CRAVI Suzano,  que não conseguiram ser atendidas no “mutirão” de serviços na época, uma continua em atendimento. Esta vítima estava na escola, porém, não foi ferida, e ainda apresenta um quadro ansioso, que indica Estresse pós-traumático.  

“As demais pessoas receberam alta do serviço. Algumas entenderem não precisar mais de acompanhamento, e outras,  por motivos pessoais. A maioria apresentou quadros ansiosos, Estresse pós-traumático”, informou a equipe. 

A investigação do crime levou cinco homens à cadeia, por suspeita de envolvimento no fornecimento da arma e munição utilizadas pelos jovens no dia da ação. No ano passado, o juiz Fernando Augusto Andrade Conceição determinou a condenação a quatro anos de reclusão por venda ilegal de arma de Cristiano Cardias de Souza e Geraldo de Oliveira Santos. No entanto, a mesma decisão converteu as sentenças em restrição de direitos para os dois. Já no caso de Adeilton Pereira dos Santos, o juiz determinou que ele fosse julgado novamente. Os três foram soltos em 13 de fevereiro de 2020 da penitenciária de Tremembé, no Vale do Paraíba.  O quarto suspeito, Márcio Germano Masson, foi absolvido da acusação de venda de armas.

Um adolescente, à época com 17 anos, foi apontado pela investigação como menor intelectual do crime. Ele era amigo dos assassinos e teria ajudado a planejar o ataque. A Justiça determinou que ele cumprisse medida socioeduicativa e análise a cada seis meses. 

A Escola Estadual Raul Brasil foi totalmente reformada, ganhou novas salas, banheiros, área de convivência arborizada, bicicletário, entre outras mudanças. Ganhou um laboratório  equipado com notebooks, TV e impressora 3D. O projeto completo foi uma parceria com a iniciativa privada, com investimento de R$ 2,7 milhões.

Mas o massacre interrompeu os sonhos de Caio Oliveira, 15 anos, Cleiton Antonio Ribeiro, 17, Douglas Murilo Celestino, 16, Kaio Lucas Costa Ribeiro, 15, Samuel Melquíades, 16, a inspetora Eliana Regina de Oliveira Xavier, 38, Marilena Ferreira Vieira Umezo, 59, coordenadora pedagógica e também do lojista Jorge Antonio de Moraes, 51, bem como dos dois jovens assassinos. Mas a vida para quem continuou, sejam os 11 sobreviventes ou familiares, exigiram resiliência. Nesta edição que relembra os dois anos do massacre, conversamos com o pai de Cleiton Antônio Ribeiro, e também com a mãe de José Vitor Ramos Lemos, 20, um dos sobrevientes. Para que o episódio não seja esquecido, a porta atingida no ataque está exposta no gabinete da Seduc Estadual. “É um símbolo de força e esperança, para que esta tragédia sirva para melhoria na área de segurança das escolas, disse a pasta estadual.

Sandra vive em alerta 

Uma das cenas mais marcantes do massacre na Raul Brasil foi a de José Vitor Ramos Lemos, um dos estudantes, correndo dois quarteirões com uma machadinha pendurada no ombro direito, até o Hospital Santa Maria, em busca de socorro. Ele é filho de Sandra Regina Ramos,  de 51 anos. Depois do trauma de quase perder o filho e saber por tudo o que ele vivenciou naquele ataque, ela diz ter vivido em alerta desde então, tanto pela insegurança de que algo de ruim aconteça com o filho novamente, quanto para lhe oferecer ajuda. 

“Ele ficou diferente do que ele era, ele ficou mais fechado, no mundo dele. A gente passou por uma fase horrível, ele tinha saído de casa e foi uma fase ruim. Mas agora eu acho que hoje, ele com 20 anos, deu uma amadurecida um pouco. Ele está namorando, a menina ajuda bastante ele nessa parte psicológica. Ele está pensando em fazer faculdade”, conta. 
O assunto do massacre é pouco conversado na casa da família. Mas Sandra diz que próximo à data é inevitável não lembrar com maior intensidade. Ao ponto de “parecer que foi ontem”. Recentemente, por meio das redes sociais, disseram para José que o menor que estava cumprindo medida socioeducativa havia deixado a Fundação Casa.

Sandra conversou com ele de que deveria ser uma mentira e de que ele não poderia perder a liberdade dele por conta de mentiras. Para ajudá-lo no processo de ressignificar o atentado,  ele continua fazendo análise com psicólogo. Ela também percebeu que, por ser a pessoa mais próxima a ele, também precisava de análise.

Hoje os dois continuam o tratamento, pago particularmente. “O governo promete que vai ter um auxílio, mas durou só no começo. Hoje para a genter ter psicólogo, eu preciso pagar. Isso tem ajudado com que a vida volte realmente voltou ao normal, entre aspas, porque é um dia para nunca mais esquecer”, diz

João tenta recomeçar

O sol forte, a paisagem exuberante e o povo acolhedor formam o cenário escolhido pelo motorista aposentado João Antônio Ribeiro para recomeçar a vida. Piatã, município que integra a Chapada Diamantina (BA), foi o lugar em que ele nasceu e deixou parar buscar melhores condições em São Paulo, mas que agora o recebe depois da morte dos dois filhos, da esposa e da mãe. “Aqui é um lugar que eu só tenho recordações boas. Em Suzano estava difícil de conseguir continuar, porque tudo me lembrava eles”, conta aos 62 anos. 

João era o pai de Cleiton Antônio Ribeiro, morto aos 17 anos no massacre em Suzano. De novo ele perdia um filho. Três anos antes de Cleiton nascer, a irmã Claudilene morreu de complicações de pneumonia. 
Motorista aposentado, no dia da tragédia João estava a poucos quarteirões da escola. “Ali começou uma turbulência muito grande na minha vida, porque eu fazia de tudo pelo Cleiton. E aí morreu daquele jeito. Eu recebi muito a ajuda da minha família, dos psicólogos para conseguir superar”, diz. 

Após a tragédia, o casal se separou. Na versão de João, a Marlene não quis mais voltar para casa. Se sentia sufocada pelas lembranças dos filhos. Ela foi morar com a irmã e eles se falavam poucas vezes. Ele soube pela família que o quadro depressivo dela havia se agravado e Marlene havia sido internada, mas sem detalhes do motivo da internação. Em julho do ano passado, ele recebeu a notícia por uma sobrinha de que a ex-companheira havia morrido. Só depois ele descobriu que ela tirou a própria vida. 

Em outubro do ano passado, a mãe de João também morreu, prestes a completar 100 anos. Foi então que ele decidiu voltar para a Bahia deveria ser concretizada. “Na minha casa, nós éramos em cinco. Sobraram os dois cachorros e eu. Peguei eles e vim embora. Foi a luz que Deus me deu pra eu continuar a minha vida”. 

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