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Rota da Luz: um caminho de fé que nasce em Mogi das Cruzes

Como nasceu a Rota da Luz, um caminho de fé, belas paisagens e conexão com a natureza que parte de Mogi das Cruzes até o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida

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Foto: Dani Paparoto - Família de Ciclistas

Reportagem de: Victoria Freitas

O Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida é um dos mais tradicionais destinos de peregrinação do País. O que muitas pessoas não sabem é que há uma rota alternativa com paisagens incomparáveis partindo de Mogi das Cruzes para chegar ao local.

Durante o mês de setembro, O Diário publica uma série de reportagens especiais sobre Mogi das Cruzes e suas histórias. A Mogi da Fé, que aborda a Rota da Luz é a quarta entre cinco abordagens que começaram com a cidade a linha do tempo da história, uma curiosidade sobre a verdadeira data da fundação e a Mogi do Divino.

Rota da Luz: veja o percurso | Reprodução
Rota da Luz: veja o percurso | Reprodução

A Rota da Luz nasceu de um pedido do Padre Rosalvino, presidente e Fundador da Obra Social Dom Bosco, situada na zona leste da capital paulista, que desde os anos 2000 realizava a peregrinação de São Paulo à Aparecida pela Rodovia Presidente Dutra. A cidade de Aparecida recebe romeiros desde o século XVIII, quando surgiu o culto à Nossa Senhora Aparecida, por meio da imagem encontrada no Rio Paraíba em 1717.

No ano de 2016, Maria Lúcia Guimarães Ribeiro Alckmin, conhecida como Lu Alckmin, católica e devota de Nossa Senhora Aparecida, inaugurou a Rota da Luz – Caminho de Peregrinação que liga o município de Mogi das Cruzes a Basílica Nacional de Aparecida no Vale do Paraíba – partindo do Terminal Estudantes e passando pelas cidades de Guararema, Santa Branca, Paraibuna, Redenção da Serra, Taubaté, Pindamonhangaba e Roseira, totalizando um percurso de 201 km.

Entenda mais no vídeo abaixo:

Como a história começou

Todos os anos, desde 2001, Lu Alckmin recebia os peregrinos chegando ao Santuário, onde ouviu incontáveis relatos sobre os perigos da peregrinação pela Via Dutra. Em 2014, Lu Alckmin se juntou à equipe com o objetivo de encontrar um caminho mais seguro para os peregrinos, chegando a percorrer alguns trajetos de carro para mapear as estradas e encontrar o caminho mais adequado.

Meu filho Thomaz também compartilhava comigo o desejo de criar um trajeto alternativo por estradas vicinais, quando demos início à busca. Contudo, antes que pudesse concluir o percurso, o Thomaz partiu [faleceu precocemente em um acidente de helicóptero em abril de 2015], quando o traçado estava quase concluído. No início de 2016 o trajeto já estava todo traçado e, em 16 de março, a Rota da Luz foi abençoada pelo papa Francisco“, conta Maria Lúcia.

Após a benção do papa, em homenagem à memória de Thomaz, Lu Alckmin organizou, com o apoio de amigos e colaboradores, a primeira caminhada da Rota da Luz, em 2 de abril de 2016, exatamente um ano após a perda do filho. A caminhada inaugural foi marcada por profunda emoção, fé e propósito: tirar os peregrinos de uma rota perigosa e levá-los para um caminho seguro, em meio à natureza, num ambiente propício à oração, ao encontro interior e à solidariedade entre os caminhantes.

Para a madrinha da Rota da Luz, o percurso significa “despir-se das coisas materiais e ligar-se às coisas espirituais”. Ela compartilha seu depoimento sobre a primeira caminhada que marcou a inauguração da rota.

“Quando percorri os 201km da Rota da Luz, em 2016, vivi dias inesquecíveis de amor e de entrega a Deus. Não houve um minuto sequer em que eu não senti a presença do Thomaz na caminhada. Fui me modificando como ser humano. Ao percorrer os 201 km da Rota da Luz, minha vida se transformou,
renovei comigo mesma os reais significados da vida”, conta
.

É mais importante ser do que ter. Voltei com mais força à minha família, ao trabalho social, aos meus amigos, ao tempo presente. Que cada pessoa encontre a sua rota de luz. Que cada um encontre um percurso de conexão com Deus, de renovação com a sua fé, independentemente de qualquer religião, que encontre sua missão e saiba compreender a real importância de ser, ressalta ela.

Mais do que um caminho de fé

A Rota da Luz é marcada por paisagens encantadoras. Além de levar os peregrinos à cidade de Aparecida, o caminho também é conhecido por atrair diversos visitantes turísticos. Com direito a passaporte, o caminho é autoguiado e, ao final do percurso, um certificado também pode ser emitido.

A Associação dos Amigos da Rota da Luz oferece suporte desde a apresentação da rota, orientações sobre o percurso, até dicas sobre pontos de apoio, alimentação e repouso. Além disso, o passaporte do peregrino também fica disponível no site oficial da associação.

A Associação foi fundada no ano de 2019, por meio da união de vários peregrinos, tanto aqueles que fazem a rota a pé quanto o público que percorre o caminho de bicicleta, além dos empreendedores da Rota da Luz – proprietários de pousadas e estabelecimentos que foram incentivados a implantar a prestação de serviços oferecidos no trajeto dos peregrinos em 2016.

A Rota da Luz foi descontinuada pelo Governo do Estado, em 2019, e corria o risco de desaparecer, mas, devido a uma ação popular, a sociedade civil se organizou e fundou a Associação dos Amigos da Rota da Luz (AARL), que tem como objetivo principal auxiliar e orientar o peregrino na sua jornada de fé, desde a saída de Mogi das Cruzes até a chegada ao Santuário Nacional.

A associação também se coloca como interlocutora com os governos municipais e estadual nas necessidades de manutenção e sinalização do caminho.

Neste ano, em especial, a Rota da Luz está recebendo a Imagem Peregrina de Nossa Senhora Aparecida, que a cada mês faz parte de uma celebração em cada cidade do trajeto. Ubirajara Nunes, presidente da associação e peregrino da rota, compartilha as principais diferenças entre a peregrinação por meio da Rota da Luz e por meio da Rodovia Presidente Dutra.

“O principal [diferencial] é a tranquilidade do trânsito em relação à rodovia. O percurso é realizado por estradas rurais, parte pavimentada, mas a maioria do trajeto é feito em estradas de terra, com paisagens rurais, com o contato mais próximo da natureza, longe do trânsito da rodovia e dos perigos que rondam os acostamentos” explica.

Ubirajara compartilha também sobre sua experiência pessoal com a rota, trazendo sua motivação para a peregrinação.

Para mim, trata-se de uma graça alcançada: a saúde de meu filho Davi. O propósito de cada peregrino em realizar a Rota da Luz sempre está relacionado à gratidão à Nossa Senhora Aparecida. Há de se destacar que, pelo caminho ser pela zona rural, a Rota da Luz também recebe esportistas sem nenhum tipo de propósito, mas em muitos casos o propósito surge no caminho, e isso é transformador, dado os relatos que já ouvimos desde sua criação“, ressalta.