Longas jornadas afetam saúde mental dos trabalhadores, alerta especialista
Momentos de lazer são importantes para recuperação da saúde mental, explica Eliana Farias, coordenadora do curso de psicologia do Centro Universitário Braz Cubas
17/05/2026 13h40, Atualizado há 2 horas
Saúde mental também é afetada por jornadas longas de trabalho | Foto: Freepik
As longas jornadas de trabalho afetam, além do físico, a saúde mental dos trabalhadores. O alerta foi feito pela coordenadora do curso de psicologia do Centro Universitário Braz Cubas, Eliana Farias.
Ela afirma que a sobrecarga, associada a rotinas intensas e com pouco tempo de recuperação, contribui para a “fadiga cumulativa”, como classificam outros especialistas. “Diferentemente do desgaste pontual, revertido após um período de sono ou descanso, esse tipo de fadiga se instala progressivamente e altera o funcionamento do organismo ao longo do tempo”.
Como consequência dessa fadiga, o corpo permanece em estaddo constante de alerta. Esse estado compromete funções cognitivas, reduz a resiliência emocional e favorece o adoecimento mental.
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Todas essas condições explicam o crescimento de quadros como ansiedade, estresse crônico e burnout entre os trabalhadores que passam por jornadas extensas e repetitivas.
A coordenadora explica que o problema está ligado ao aumento da “carga alostática”, conceito usado para definir o custo físico e emocional que o organismo para para se adaptar a situações de pressão. “O burnout não é apenas cansaço, mas a erosão do sentido do trabalho. Aos poucos, o trabalhador passa a viver em função das obrigações profissionais, perdendo espaço para experiências de lazer, convivência e realização pessoal. A ansiedade também tende a se intensificar nesse contexto, principalmente pela sensação constante de que o tempo de descanso nunca é suficiente para uma recuperação real”, disse.
Os processos de recuperação emocional também são importantes. Para que o cérebro consiga se desligar das tensões do trabalho, é necessário o desapego psicológico, mecanismo associado a momentos de lazer, desconexão e descanso genuíno. Em jornas excessivas, o pouco tempo livre costuma ser consumido por tarefas domésticas, compromissos pessoais e recuperação do sono acumulado.
Os sinais de sobrecarga psicológica podem surgir de diferentes maneiras: irritabilidade excessiva, apatia, isolamento social, dificuldade de concentração, alterações no sono e dores tensionais são os mais frequentes.
Em alguns casos, o aumento do consumo de substâncias como cafeína, álcool e ansiolíticos também ocorrem como forma de lidar com o desgaste cotidiano.
As jornadas intensas também afetam relações familiares e sociais. A dificuldade de conciliar horários e a ausência de tempo compartilhado fragilizam vínculos afetivos e reduzem espaços de convivência.
“A pobreza de tempo corrói o suporte social, que deveria funcionar como fator de proteção à saúde mental”, destaca a especialista. Segundo ela, esse processo pode gerar culpa, sensação de ausência e aumento do sofrimento emocional, especialmente em contextos familiares.
Algumas estratégias podem ajudar a reduzir os impactos da sobrecarga, mesmo que mudanças estruturais dependam de decições organizacionais e políticas. Entre as estratégias estão: a criação de limites claros entre trabalho e vida pessoal; a realização de micropausas durante a jornada; práticas de regulação emocional; e o resgate de atividades que reforcem identidades para além da produtividade.
Outra ferramenta importante para enfrentar o desgaste emocional é o apoio coletivo. Espaços de escuta, diálogo e acolhimento ajudam trabalhadores a compreender que o sofrimento não é apenas individual, mas também consequência das condições de trabalho às quais estão submetidos.