Convivência com animais pode auxiliar crianças neurodivergentes, mas requer cuidados, destaca psicóloga
Rafaella Moraes, especialista em desenvolvimento infantil e serviços assistidos por animais, afirma que os benefícios variam de acordo com cada criança e que a intervenção não é indicada para todas
27/07/2026 17h10, Atualizado há 1 hora
Cães de terapia são diferentes de pets comuns, eles são treinados para realizar intervenções terapêuticas | Foto: Acervo pessoal/Rafaella Moraes
A convivência com animais, principalmente com cães, pode trazer benefícios para crianças neurodivergentes se realizada da maneira adequada, conforme explica a psicóloga Rafaella Moraes, especialista em desenvolvimento infantil e serviços assistidos por animais. Segundo ela, essa convivência não é indicada para todas as crianças e deve ser avaliada por um profissional caso a caso.
Vale destacar que neurodivergente é um termo social utilizado para descrever pessoas neuroatípicas, cujo cérebro tem funcionamento cognitivo fora do padrão comum. Segundo o site do Hospital Israelita Albert Einstein, o termo inclui pessoas Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), Transtorno de Personalidade Limite (Borderline), Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD), Dislexia e Discalculia.
“Quando essa convivência com animais é saudável e bem acompanhada, ela pode favorecer o desenvolvimento de habilidades que acompanham a criança ao longo da vida. Entre elas estão maior autonomia, fortalecimento da autoestima, desenvolvimento da empatia, melhora das habilidades sociais, aumento da responsabilidade e maior capacidade de reconhecer e regular emoções”, afirma a psicóloga.
Rafaella destaca que, antes de iniciar os serviços assistidos por animais, é fundamental realizar uma avaliação individualizada para compreender se a criança está apta a participar e se essa modalidade, de fato, atende às suas necessidades específicas do paciente.
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Em alguns casos, principalmente em crianças com TEA, a hipersensibilidade sensorial pode fazer com que estímulos como a textura do pelo, o cheiro ou os latidos do cão ocasionem sobrecarga sensorial e desregulação, ao invés de promover benefícios, conforme orienta a profissional. Além disso, ela destaca que esse tipo de tratamento não é indicado para aqueles que têm fobia de cães. Outro aspecto a ser considerado é o bem-estar animal, uma vez que algumas crianças podem apresentar comportamentos agressivos.
Quando indicada e realizada de maneira adequada, a intervenção pode se tornar uma grande aliada, como aconteceu com Breno Ribeiro Macedo, de 7 anos. Diagnosticado com TEA e com hiperfoco em animais, ele realizou tratamento com o auxílio de cães de terapia dos 2 aos 4 anos de idade. A mãe de Breno, Vitória Ribeiro Serafim, explica que o procedimento foi importante para a evolução do filho. Entre os benefícios apontados por ela estão a melhora na capacidade de lidar com situações frustrantes, aprender a esperar e interagir mais.


“O Breno sempre foi uma criança muito agitada. Antes [do tratamento], ele era bem nervoso porque não falava. A terapia com animais ajudou nessa evolução, de começar a falar e interagir. […] Os terapeutas sempre usavam os animais como uma forma de troca para conseguir atingir os objetivos dele, trabalhar a questão do ‘não’, que era bem complicada, e desenvolver a fala, o ato de pedir, chamar e esperar. A terapia com animais sempre teve um papel muito importante nessa parte”, explica a mãe.
A convivência com os animais na vida de Breno não está limitada somente ao tratamento. O menino convive diariamente com dois gatos que, segundo a mãe, também são importantes para o desenvolvimento do filho, uma vez que essa relação o ajudou a criar senso de responsabilidade e ter respeito com os animais de modo geral.
“Desde que o Breno nasceu, sempre tivemos algum animal. Primeiro foi cachorro, depois tartaruga, pintinho, calopsita e, agora, nós temos gatos. A passagem de todos eles foi em uma fase importante e auxiliou muito, principalmente em casa. Ele ficava mais tranquilo, mais amoroso e buscava sempre ficar próximo aos animais”, conta Vitória.
A experiência de Breno exemplifica o que Rafaella aponta sobre os benefícios dessa convivência no desenvolvimento infantil, mas a psicóloga faz um alerta: “os animais podem ser grandes aliados, mas eles fazem parte de um conjunto de estratégias. Quanto mais cedo a criança recebe uma intervenção adequada, maiores costumam ser as oportunidades de desenvolvimento e qualidade de vida […] os animais não substituem os tratamentos tradicionais. Eles atuam como facilitadores, potencializando o processo terapêutico quando inseridos de forma ética e planejada”.
Qual a diferença entre o cão de terapia e o pet comum?
Rafaella ressalta que existem diferenças entre cães de terapia e os pets comuns. Enquanto a intervenção terapêutica ocorre com objetivos definidos e acompanhamento profissional, a relação construída em casa acontece de maneira espontânea, uma vez que o animal não foi treinado para isso.
Caso a criança já possua um pet em casa é recomendado a realização de um trabalho de psicoeducação para ensinar sobre o comportamento animal e o respeito aos limites deles, além de formas adequadas de interação para garantir a convivência segura e benéfica tanto para a criança quanto para o animal.
Rafaella também alerta que a decisão de incluir um animal na rotina de uma criança neurodivergente não deve ser tomada apenas pela expectativa de que a convivência trará benefícios. Ela explica que a chegada de um pet exige uma avaliação da realidade da família, em que devem ser considerados aspectos como disponibilidade, organização da rotina e responsabilidade com os cuidados do animal.
“A mensagem mais importante é que os animais são seres sencientes, e não ferramentas de tratamento. Quando eles participam de um processo terapêutico ou passam a fazer parte de uma família, seu bem-estar deve ser considerado com a mesma importância que o desenvolvimento da criança”, finaliza a especialista.
