Outubro Rosa: pressão por otimismo pode afetar saúde emocional de pacientes, destaca especialista
Eliana Faria defende que o acolhimento não deve se transformar em imposição de positividade
29/10/2026 16h38, Atualizado há 2 horas
O Outubro Rosa é uma campanha de conscientização sobre o câncer de mama, que reforça a importância da prevenção e do diagnóstico precoce | Foto: Reprodução/internet
O Outubro Rosa, campanha de conscientização sobre o câncer de mama, destaca a importância da prevenção e do diagnóstico precoce da doença. Além dos aspectos físicos, o diagnóstico e o tratamento também podem afetar a saúde emocional das pacientes. Entre os desafios enfrentados por mulheres diagnosticadas com câncer de mama estão as mudanças na percepção do próprio corpo, as preocupações com o futuro e a pressão para manter uma postura positiva durante o tratamento.
Eliana Faria, coordenadora de psicologia do Centro Universitário Braz Cubas, afirma que desmistificar a figura da “mulher guerreira” é fundamental para um cuidado de saúde integral. “O primeiro passo é abandonar a ideia de que a paciente precisa ser uma heroína. Sentir medo não significa falta de coragem, assim como sentir tristeza não significa perder a esperança. A saúde emocional não depende de manter uma atitude positiva o tempo inteiro”, ressalta.
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As transformações corporais decorrentes das intervenções médicas, como a queda de cabelo, as cicatrizes e a retirada parcial ou total da mama, podem afetar a autoestima e a percepção da própria imagem. Segundo a docente, sentimentos de estranhamento não devem ser rotulados como vaidade excessiva, mas compreendidos como parte do processo de elaboração de perdas simbólicas e físicas significativas.
Essa reconfiguração da autoimagem também pode se refletir na vida afetiva e sexual, uma vez que dores, fadiga e oscilações hormonais somam-se ao receio da rejeição. O diálogo entre os parceiros, pautado na escuta e sem pressa, pode contribuir para restabelecer vínculos de carinho e confiança sem transformar o retorno à vida íntima em mais uma cobrança cotidiana.
O papel da rede de apoio
A forma como familiares e amigos acolhem a paciente pode amenizar ou intensificar a sobrecarga emocional, explica a especialista. Frases bem-intencionadas, como “é só pensar positivo” ou “você vai vencer porque é forte”, frequentemente geram a sensação de que demonstrar cansaço ou angústia é uma falha moral.
“O pensamento positivo, por si só, não cura o câncer, e a evolução do quadro não depende da capacidade da mulher em manter o sorriso no rosto. Cuidar não é oferecer respostas prontas, mas perguntar como ajudar de maneira concreta, seja acompanhando uma consulta, resolvendo uma tarefa doméstica ou simplesmente permanecendo ao lado em silêncio, respeitando o ritmo e a dor do outro”, explica Eliana.
Nesse cenário, o acompanhamento psicológico atua como um espaço de escuta durante o tratamento e no período de recuperação, quando o receio da recidiva e o desafio de retomar a rotina profissional e social continuam presentes. A reconstrução da autoestima, segundo a especialista, não nasce da obrigação de amar todas as marcas deixadas pelo tratamento, mas do direito de estabelecer limites, pedir ajuda e tomar decisões sobre o próprio corpo.
“O diagnóstico transforma aspectos fundamentais da vida, mas não esgota quem a mulher é. Ela continua sendo sujeita de desejos, projetos e relações. O cuidado em saúde precisa enxergar essa pessoa por inteiro, lembrando sempre que a mulher é muito maior do que a doença”, conclui a pesquisadora.