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Advogado mogiano Roberto Bottini morre aos 79 anos

O mogiano Roberto Bottini, que fez história na advocacia da cidade, morreu nesta terça-feira (22), aos 79 anos. Ele vinha lutando contra um câncer no intestino e não resistiu. O corpo será velado das 8 às 14 horas desta quarta-feira (23), no Velório Municipal Cristo Redentor, de onde será levado para o sepultamento no Cemitério […]

Por O Diário
22/03/2022 18h49, Atualizado há 53 meses

O mogiano Roberto Bottini, que fez história na advocacia da cidade, morreu nesta terça-feira (22), aos 79 anos. Ele vinha lutando contra um câncer no intestino e não resistiu. O corpo será velado das 8 às 14 horas desta quarta-feira (23), no Velório Municipal Cristo Redentor, de onde será levado para o sepultamento no Cemitério São Salvador, ambos no Parque Monte Líbano. 

Neto de imigrantes italianos e espanhóis, ele nasceu em Jundiapeba e ainda bebê ele veio com os pais – o tipógrafo e depois dono de gráfica, Iracy Bottini, e a dona de casa Maria Jacob Bottini – morar na penúltima casa da Vila Ana Maria, na rua Professor Flaviano de Melo, no Centro. Estudou o primário no 2º Grupo Escolar Aprígio de Oliveira, que funcionava na esquina da Capitão Manoel Caetano e Dr. Ricardo Vilela, passou pelo Curso Preparatório Braz Cubas e, aprovado no Exame de Admissão, ingressou no ginasial e também fez Contabilidade no Liceu.

Nesta época, participou dos memoráveis desfiles da fanfarra da escola tocando caixa, principalmente nas comemorações do aniversário de Mogi, em 1º de setembro, e em concursos realizados em várias cidades. Anos mais tarde, formou-se na terceira turma da Faculdade de Direito da Universidade Braz Cubas (UBC), em 1973.

Mas o trabalho entrou na vida de Bottini muito antes. Aos 11 anos, já trabalhava na Gráfica Brasil, que pertencia ao pai, primeiramente funcionou na rua Professor Flaviano de Melo e depois passou para a Coronel Santos Cardoso. Em 1979, já formado, abriu seu primeiro escritório de advocacia, na avenida Voluntário Fernando Pinheiro Franco, atuando nas áreas de família e cível.

Personagem da série Entrevistas de Domingo, de O Diário, em 26 de abril de 2015, Bottini, que há mais de 30 anos participava da Entidade Espírita Cáritas, no Socorro, relembrou as inúmeras histórias de seu trabalho também de três décadas, envolvendo divórcios, guarda dos filhos, inventário e usucapião, na cidade. Confira a entrevista na integra:

Em qual região da cidade o senhor nasceu?
Sou neto de italianos e meus avós paternos Giovanni e Florinda Bottini vieram da Itália para São Paulo, e de imigrantes espanhóis, porque minha avó materna Clarice Clarin, casada com o sírio João Jacob, era da Espanha. Nasci em Jundiapeba, mas ainda bebê vim com meus pais morar na penúltima casa da Vila Ana Maria, na rua Professor Flaviano de Melo, no centro da cidade. Ali, as famílias eram amigas e faziam festas inesquecíveis, como as juninas. Naquela região havia poucas casas, apenas algumas mais antigas, uma oficina mecânica e vários terrenos livres para construção. A rua ainda era calçada com paralelepípedos. De lá, fomos para a rua Santana, que ainda era de terra, mas depois recebeu uma camada tão fina de asfalto que vivia quebrando e tudo virava terra novamente. Era uma área residencial e nem se pensava em comércio por ali. Perto ficava do campo do Vila Santista, onde joguei no time infantil, ocupando a posição de defesa, mas logo encerrei a carreira porque uma prensa da gráfica do meu pai caiu no meu pé e o quebrou. Este campo pegava todo o quarteirão entre as ruas Santana e Francisco Franco e vivia lotado aos finais de semana. Tenho saudades deste tempo do futebol amador da cidade.

Há mais lembranças da sua infância?
Somos em quatro irmãos (Adhemar, Roberto, Nancy e Ircio) e foi uma infância de dificuldades porque meu pai precisou lutar muito. Ele viajava todos os dias para trabalhar como tipógrafo em São Paulo. Pegava o trem, ainda a Maria Fumaça, às 4 horas da madrugada e só voltava à noite, para trabalhar na Gráfica Michel, que era do Tufy Elias e funcionava na rua Dr. Paulo Frontin. Depois, ele se tornou gerente desta gráfica e anos mais tarde montou a Brasil, primeiramente na rua Professor Flaviano de Melo, onde funcionou o Bar e Bilhar Glória, e a partir de 1955, em prédio próprio, na Coronel Santos Cardoso.

Onde o senhor estudou?
Estudei o primário no Aprígio de Oliveira, que ficava na esquina das ruas Dr. Ricardo Vilela e Capitão Manoel Caetano, onde hoje está o Liceu Braz Cubas. No quarto ano, tive aulas com a professora Iracema Brasil de Siqueira, que anos depois se tornou minha sogra. Em seguida, fiz o Curso Preparatório Braz Cubas, na esquina da Flaviano com a Braz Cubas, passei no Exame de Admissão e ingressei no curso ginasial, chamado de básico, do Liceu, na época na Princesa Isabel de Bragança, onde foi construído o Edifício Helbor Tower. Lá também me formei em Contabilidade, no tempo em que na Cidade esta era uma das opções no colegial, além da Escola Normal, e dos cursos Científico e Clássico, do Instituto de Educação (Dr. Washington Luís). Tive professores como Valtely Aquino, de Português, Salvarani, Humberto, Ricardo Amorim, Ismael Alves dos Santos, Moacir Amorim, entre outros, que eram excelentes, mesmo porque, naquele tempo o ensino era sério.

Ficaram mais recordações dos tempos do Liceu?
Foi uma época muito boa, acompanhei a fanfarra da escola tocando caixa em desfiles no aniversário de Mogi, na Avenida (Voluntário Fernando Pinheiro Franco), e nos concursos que ela disputava. A rivalidade era grande com a turma do Instituto de Educação e os ensaios se tornavam segredos de Estado. Para não sermos vistos por eles, ensaiávamos até de madrugada, em locais ermos. Era salutar, assim como a Brascol, uma competição esportiva entre os alunos das duas escolas, com um grupo querendo provar que era melhor do que o outro. A disputa que ficou mais marcada foi a do Quarto Centenário de Mogi, vencida pela fanfarra do Liceu. Os desfiles na Avenida movimentavam toda a Cidade. Aliás, foi na lá que aconteceram os melhores carnavais de Mogi. Quando garoto, desfilava nos blocos de rua Ki-Frio, Os Catedráticos e do Policursos. Depois, saía na Mocidade Alegre Comercialina, que tinha sede onde hoje está o Comercial (Associação Atlética Comercial). Em 1977, fui presidente desta escola de samba, houve muita política na festa e vi o que realmente é o Carnaval, então, não participei mais. Só que não perdia uma noite e nem mesmo as matinês no Itapeti Clube, União e, anos depois, no Clube de Campo.

E depois do curso de Contabilidade?
Fiz a Faculdade de Direito da Braz Cubas e sou da terceira turma, formada em 1973. Ali também havia bons professores, a maioria vinda de São Paulo, assim como os alunos. A minoria da sala era da Cidade e foi a partir daí que Mogi começou a mudar bastante. Com a instalação da Faculdade de Direito da Braz Cubas e a de Filosofia da Omec (Organização Mogiana de Educação e Cultura), muita gente de fora vinha para cá estudar e ficava morando em repúblicas. Foi uma metamorfose e um marco no desenvolvimento da Cidade. Além da grande circulação de ônibus fretados, que faziam a viagem todos os dias para cá, havia este pessoal de longe que morava aqui durante o curso, principalmente de Medicina, Odontologia e Engenharia. Era tanta gente diferente andando pelas ruas que os mogianos passaram a ser alienígenas e quase não conheciam mais ninguém.

Quais as distrações da juventude na cidade?
Além dos bailes de Carnaval, eu frequentava os outros do Itapeti Clube, que eram animados por grandes orquestras e movimentavam a Cidade. As pessoas iam todas bem arrumadas e durante a semana este era o comentário geral. Outro tipo de baile realizado na época era chamado ´Picape e seus Negrinhos´e acontecia nas garagens das casas, com vitrolas e discos de vinil, geralmente para arrecadar dinheiro para as festas de formatura. Como distração, havia ainda os cinemas. Eu costumava assistir aos filmes seriados como ´Nyoka´, ´Roy Rogers´, ´Flash Gordon´, ´Allan Rocky Lane´, entre outros, exibidos aos domingos pela manhã no Cine Odeon. À noite, ia ao Urupema, aos sábados, e ao Avenida, aos domingos. Outro costume era passear no jardim (praça Oswaldo Cruz) e na rua Dr. Deodato Wertheimer, mesmo porque, quem não fizesse isso, não conhecia ninguém. Havia ainda pontos de encontro, como o Bar do Lanche e o Palhaço Lanche, ambos na Dr. Deodato; o Café Michel, em frente à antiga rodoviária (Praça Firmina Santana); e os restaurantes Estância dos Reis, um tipo de hotel fazenda onde as pessoas costumavam ir aos finais de semana, a Cantina Mogiana e o Piatto D´Oro, que foi do mesmo dono do Estância, o Carlos Barattino.

Qual foi seu primeiro emprego?
Comecei a trabalhar aos 11 anos, na gráfica do meu pai, que faleceu quando eu tinha 21. Então, assumi a gráfica e fiquei lá até 1979, quando já formado desde 1973, montei o primeiro escritório de advocacia na cidade, na avenida (Voluntário Fernando Pinheiro Franco). Depois, ele mudou para a Paulo Frontin, Padre João e há 17 anos estou na Rua São João, sempre atuando nas áreas de família e cível.

Nestes anos na advocacia, quais casos ficaram marcados?
A maioria dos casos é de separação, divórcio, inventário e usucapião, quase sempre conflitantes. Houve um divórcio que ficou marcado porque foi diferente, já que uma das partes morava em Mogi e a outra era da Suíça. Ele foi feito por meio do Supremo Tribunal Federal e assinado pelo ministro do STF, Sepúlveda Pertence. Os casos em que uma ou ambas as partes desistem do divórcio na frente do juiz já se tornaram comuns. Uma vez, um casal de idosos conversou em separado com o juiz e quando fomos para a audiência, um sentou de frente para o outro e senti que o clima havia mudado. Pedi ao juiz para conversar com eles e vi que não queriam mais se separar. Há casos em que uma das partes começa a chorar na frente do juiz, mas os mais chorões são os homens porque a mulher, quando chega a esta decisão, é mais radical e em 99% dos casos não desiste, já está certa do que quer. O que acontece é que na maioria das vezes, o marido é quem erra no relacionamento e, quando chega a hora da separação, se arrepende do que fez. A esposa, para castigá-lo, não aceita a guarda compartilhada, que eu considero ideal, e faz de tudo para afastá-lo dos filhos. Por isso, quando alguém chega ao escritório querendo a separação, faço o papel de conselheiro, peço que pensem bem antes disso porque é uma judiação destruir um convívio de anos.

Há outros casos na memória?
Os casos corriqueiros de inventário também são conflitantes, porque há herdeiros que acham que estão sendo lesados na partilha de bens, mas isso não existe, já que ela é fiscalizada pelo Ministério Público e pelo juiz. Se tiver um centavo a menos para alguém, o processo não anda.

Hoje, quais são suas distrações?
Fazia parte da Confraria das Quintas Feiras, mas depois que o Adelino Yague, que era o mentor do grupo, morreu, não nos reunimos mais. Aliás, esta perda e a do meu pai foram as que eu mais senti. Há 10 anos, sou da Confraria do Café da Manhã, com amigos como Mário Veiga, Luiz Geraldo, Adilson Arizza, Paulinho, Sérgio Knippel e Marcos de Souza Leite, que se encontram todas as sextas-feiras pela manhã em um café que fica na esquina da Princesa Isabel de Bragança e Coronel Souza Franco. Ali conversamos sobre tudo, menos profissionalmente, e passamos horas agradáveis. Há ainda a Confraria do Morumbi, com o Valdir Trigo, Edson Paschini, Jair, Toninho Mello Freire, Mário Veiga e Zé Fonseca, que se reúnem todos os sábados, a partir das 11 horas, para um aperitivo. Outra distração é assistir aos jogos do Corinthians, já fui muito a estádios e acompanhei as partidas pelo Brasil, inclusive em Pernambuco, Minas, Rio Grande do Sul, Paraná, entre outros Estados. Fui a vários locais, de carro ou kombis de aluguel com os amigos, até que num jogo no Pacaembu, em que praticamente só havia corintianos na torcida, porque o adversário era um time pequeno, saiu uma briga generalizada. Percebi que não dava mais para ir a estádios, por causa do perigo. Ainda para me distrair, trabalho há 30 anos no Cáritas (Entidade Espírita Cáritas), no Socorro, onde faço parte da equipe do passe.

O senhor sente saudades da Mogi das Cruzes de antigamente?
Sinto falta principalmente da tranquilidade que havia no passado. Era raro alguém ter carro, então, andávamos a pé por toda a Cidade, mesmo à noite, sem qualquer perigo. Hoje, moro praticamente no Centro e tenho receio de voltar tarde do Largo do Carmo, que fica a algumas quadras de casa. Vivemos trancados com portões e grades nas janelas, quando antigamente isso não existia e o pão e o leite eram deixados costumeiramente nas janelas das casas. Ninguém mexia no que era dos outros porque havia maior respeito, principalmente com os mais velhos. Além disso, quando saíamos à rua, parávamos toda hora para conversar porque conhecíamos todo mundo. Era uma delícia. O relacionamento entre as famílias não era fechado como hoje e uma frequentava a casa da outra naturalmente. Hoje, tudo ficou muito distante e frio, mas ainda bem que tenho amigos desta época boa.

 

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