Bolo envenenado? Prefeito manda que doador coma o primeiro pedaço
Semanas atrás, neste mesmo espaço, relembrei a história do “vale cesta básica”, distribuído na periferia de Mogi em nome do candidato a prefeito Waldemar Costa Filho e que acabou levando centenas de pessoas para a frente de seu escritório político. Waldemar atendeu a todos, um a um, explicando que o tal “vale” era obra de […]
14/05/2023 07h05, Atualizado há 38 meses
Semanas atrás, neste mesmo espaço, relembrei a história do “vale cesta básica”, distribuído na periferia de Mogi em nome do candidato a prefeito Waldemar Costa Filho e que acabou levando centenas de pessoas para a frente de seu escritório político.
Waldemar atendeu a todos, um a um, explicando que o tal “vale” era obra de seus adversários e entregando, ao final da conversa, um bom “dinheirinho”, sob o pretexto de ajudar na passagem de volta.
Contornou o problema e ainda se beneficiou da armadilha que, logo se soube, havia sido obra de Januário Figueira, o Nega, para beneficiar o seu tio e também candidato a prefeito, Mauricio Najar.
Mas como em política as inimizades duram pouco, algum tempo depois, lá estava Nega, filho de um grande amigo do prefeito eleito, frequentando assiduamente o escritório político de Waldemar, com quem fizera as pazes.
Àquela altura, ele era dono de uma confeitaria na esquina das ruas Dr. Corrêa e Barão de Jaceguai, no centro, muito próximo do escritório que ficava na rua Coronel Souza Franco, no local onde está a sede do Diretório Municipal do PL.
Certo dia, numa de suas visitas, Nega anunciou que levaria um bolo de presente a Waldemar. Mesmo tendo dito que aceitaria, Waldemar ainda mantinha uma certa desconfiança em relação ao antigo desafeto, mesmo após a pacificação entre ambos.
Diante daquela situação, ele chamou o seu vice Melquíades Portela e confessou que não poderia descartar o presente, mas que também não tinha assim tanta certeza a respeito da real qualidade do bolo. Ali poderia ter coisa. E o que fazer?
O vice lhe apresentou a solução: “Quando ele trouxer o bolo, eu estarei a seu lado. Então você recebe o presente e convida para que todos nós comamos juntos. E faz com que ele coma o primeiro pedaço. Se ele comer, sem susto, eu também comerei, logo em seguida. E então, o senhor poderá provar do bolo à vontade”.
Dito e feito.
No dia seguinte, na hora prometida, quando Nega chegou com o bolo, o script foi seguido à risca.
A guloseima foi inicialmente devorada pelo visitante, dono da confeitaria onde havia sido feita, e, em seguida, pelos demais comensais.
A conversa rolou divertida, por mais um bom tempo, até que Nega foi embora contente.
Contente também teria ficado Waldemar, ao comprovar, daquela maneira, que as “desinteligências de campanha” haviam ficado definitivamente para trás.
Os dois continuaram grandes amigos e o episódio das “cestas fantasmas” era lembrado, de vez em quando, por ambos como um dos muitos fatos de uma época em que a política era muito mais divertida.
Nega e Waldemar já se foram, mas deixaram muitas outras histórias que merecem ser lembradas.
Compra e venda de votos
Candidato a vereador por insistência de Waldemar, o mogiano Toninho Andari estava confiante na eleição. Afinal, ele atuava no Centro Espírita Caminheiros, onde servia sopa e era amigo de todos.
Dias antes da eleição, Waldemar o chamou e disse: “Precisamos comprar uns 200 votos para você se eleger”.
Ele se irritou: iria se eleger por seu trabalho, realizado em várias frentes, na cidade.
Perdeu a eleição por pouco mais de 150 votos.
Naquela campanha, toda vez que ia servir sopa no centro, ele pedia o voto de uma senhorinha, que retrucava:
“Só voto se o senhor me der um saco de cimento e um metro de areia”.
A história se repetia a cada semana, até que passado o pleito, Toninho, derrotado, perguntou à senhorinha se ela havia votado nele.
“Não, porque o senhor não me deu o que pedi”.
Naquela semana, a idosa viu chegar em sua casa um caminhão com areia e cimento. Presente de Toninho Andari.
Lições para ser prefeito
Hoje deputado federal, o mogiano Marco Bertaiolli ainda se recorda dos tempos em que, ainda vereador, costumava ir à Prefeitura, pela manhã, despachar com o amigo e prefeito Waldemar Costa Filho.
Havia grande empatia entre os dois, a ponto de Waldemar atrasar sua audiência para que o vereador permanecesse mais tempo do seu lado.
Bertaiolli ainda se lembra que várias vezes acabava ficando para almoçar na Prefeitura e continuava acompanhando os despachos no período da tarde.
“Você não quer ser prefeito de Mogi? Pois então fique aí para aprender”, dizia Waldemar ao espectador que, dias atrás, lembrava-se da história com a coluna.
Já político, Bertaiolli recebeu do amigo um quadro que enfeitava o seu gabinete. Nele, apenas uma frase do ex-presidente Kennedy, com a última lição: “O segredo do fracasso é querer contentar a todos”.
Mesmo depois de haver sido prefeito de Mogi por dois mandatos, Bertaiolli ainda guarda até hoje o quadro e o conselho de seu amigo já falecido.
A araponga e o juiz
Diomar Ackel Filho, nos anos 70, era um vereador à frente do seu tempo, preocupado, por exemplo, com questões ecológicas, algo pouco comum à época.
Mas certo dia escorregou, ao pedir que fosse retirada uma araponga que ficava no açougue do Zé Borges, no Largo Primeiro de Setembro, cujo canto, por demais estridente, incomodava alguns vizinhos. O fato repercutiu e logo surgiram os defensores da ave.
A polêmica pode não ter sido decisiva, mas certamente colaborou para que Diomar não se reelegesse naquele ano. Melhor para ele: ao deixar a carreira política, ele seguiu a jurídica e se tornou um respeitado juiz do Fórum da Comarca de Mogi das Cruzes.