Geólogo vê problemas estruturais na região da Mogi-Bertioga e defende construção de nova estrada
Morando em Mogi das Cruzes há 32 anos, o geólogo Sílvio Antonio Canevare Pomaro tem acompanhado, com muita preocupação, as constantes interdições da ligação rodoviária Mogi das Cruzes-Bertioga, causadas ora por afundamentos de pista, como aconteceu recentemente, ora por deslizamentos de encostas, que só mesmo por verdadeiros milagres ainda não deixaram pessoas soterradas sob montanhas […]
11/03/2023 07h08, Atualizado há 41 meses
Morando em Mogi das Cruzes há 32 anos, o geólogo Sílvio Antonio Canevare Pomaro tem acompanhado, com muita preocupação, as constantes interdições da ligação rodoviária Mogi das Cruzes-Bertioga, causadas ora por afundamentos de pista, como aconteceu recentemente, ora por deslizamentos de encostas, que só mesmo por verdadeiros milagres ainda não deixaram pessoas soterradas sob montanhas de lama, árvores e enormes pedras, que acabaram indo parar sobre a pista do trecho de serra da estrada.
Seus temores são muitos, a ponto dele próprio “pensar duas vezes” antes de passar pela rodovia, indo ou voltando do litoral, onde trabalha. “O risco é grande nessa época de chuvas intensas. Como geólogo, não tenho mais segurança. Acompanho obras no litoral, mas confesso que tenho medo de descer pela estrada com equipamentos e pessoal”, afirma ele.
Sílvio Pomaro defende que está na hora de o poder público repensar a utilização da Mogi-Bertioga e programar estudos para que se faça uma nova rodovia com segurança, como a Imigrantes e a nova pista da Tamoios, dotada de túneis e viadutos e que não dependa das encostas, como acontece com a estrada recentemente interditada, a qual foi construída sobre cortes nas encostas da Serra do Mar.
Segundo o geólogo, as rochas daquela região serrana têm 4,5 bilhões de anos e, por isso mesmo, quando são agredidas para a passagem de uma estrada, é de se esperar que ocorram problemas, como os verificados na Mogi-Bertioga. “Acho difícil exigir que não caia, pois essas rochas milenares estão sendo alteradas, progressivamente, pela ação do clima, calor, frio, água, que a deixam fragilizadas, fraturadas, trincadas”, atesta.
Do ponto de vista topográfico, ele diz que durante todo esse tempo, criou-se sobre as rochas uma pequena camada de solo, que tende a descer serra abaixo, quando se interfere no ecossistema cortando encostas, em locais próximos de rios e cachoeiras, fatores que aumentam os riscos da rodovia.
Por tudo isso, Sílvio Pomaro propõe a transformação da Mogi-Bertioga em uma rodovia de apoio e não mais de circulação para milhares de veículos.
Para que isso ocorra, uma via paralela teria de ser construída obedecendo às modernas técnicas de geologia e engenharia para que a estrada não fique encostada na beira de barrancos, evitando sofrer os efeitos de uma serra geologicamente frágil.
Para o especialista, os problemas da atual Mogi-Bertioga são cíclicos e continuarão a ser, por conta da falta de planejamento do passado e da manutenção duvidosa dos dias atuais.
“É preciso ter vários olhos, em tempo integral na estrada que vive em uma situação de risco permanente. No entanto, o que se vê é o DER realizando pequenas obras, pintando o asfalto, enquanto os trabalhos realmente necessários não acontecem”, diz o geólogo, lembrando a necessidade de monitoramento permanente das encostas e a realização das obras sugeridas pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), como levantamento das áreas de risco, conserto de taludes ameaçados de deslizamento, entre outros.
O geólogo formado pela Universidade do Vale dos Sinos, a Unisinos, do Rio Grande do Sul, se baseia no que tem acompanhado nas últimas décadas para afirmar que, se não forem tomadas providências, a Mogi-Bertioga pode vir a ser a indutora da chamada “tragédia anunciada”.
“A se manter tal estrutura, é certo que vão ocorrer problemas de inquestionável magnitude; é só uma questão de tempo”, prevê Sílvio Pomaro, ao apontar a inviabilidade técnica da estrada por conta de fatores topográficos e geológicos.
O profissional faz questão de ressaltar: “Não estou jogando a Mogi-Bertioga no lixo. Ela pode ficar como uma estrada de apoio, com a construção de uma rodovia que te dê segurança quando se passar por ali.”.
“Para realizar todas as obras que a Mogi-Bertioga realmente necessita terá de se gastar muito dinheiro. O melhor então é fazer outra, não sei se por meio do Estado, da União, ou com participação do município. Não estou avaliando os custos nem de onde virá o dinheiro. Como geólogo, tenho falado sobre isso há muito tempo, mas as autoridades não parecem dar a devida atenção, mesmo com a repetição de idênticos problemas a cada ano, nas temporadas de chuvas”, conclui.
Fiscalização poderia ter evitado interdição
O afundamento de pista que motivou a interdição da Mogi-Bertioga, desde a madrugada do dia 19 de fevereiro, domingo de carnaval, foi, na opinião do geólogo Sílvio Pomaro, resultado do rompimento de uma tubulação que passava sob a pista, na altura do Km 82 do trecho de serra. Ao romper o sistema de drenagem, por conta de forte pressão das águas pluviais que se acumulavam naquele ponto da estrada, houve um grande deslocamento do solo, causando afundamento do asfalto
Mas quais fatores teriam levado a essa situação? A exemplo de outros engenheiros e geólogos consultados por este jornal, Sílvio evita cravar uma resposta por não ter avaliado o local do incidente, logo após o ocorrido.
Ele, entretanto, não afasta a possibilidade de uma obstrução no sistema de drenagem, causada pela rolagem de pedras e entulhos ter provocado a infiltração prévia de água nas laterais da tubulação, fator agravado pelo excesso de chuvas daquela noite na área da Serra do Mar, que possui um dos maiores índices pluviométricos do País.
“As razões podem ter sido muitas, mas neste período, tudo o que for falado vai acabar caindo na quantidade de água que caiu naquela noite em toda a Baixada Santista e Litoral Norte”, diz.
Uma estrada como a Mogi-Bertioga, na opinião, do geólogo, exige uma avaliação permanente, especialmente em épocas de chuva, quando são comuns pequenos deslizamentos de encostas, sempre acompanhados de pedras e mato, capazes de obstruir os sistemas de drenagem. “A manutenção preventiva e constante é necessária e o olhar redobrado ainda é pouco para garantir que as águas corram livremente”, diz ele.
Se a rodovia tivesse sido vistoriada antes do Carnaval, certamente seriam detectados pequenos afundamentos, que seriam motivo para impedir a circulação de veículos, mesmo naquela semana de grande movimento.
“Se houvesse fiscalização e monitoramento efetivos poderia ter sido acionado um alerta, o que não aconteceu”, afirma o geólogo.
Por isso, restou ao DER consertar a rodovia, quem sabe colocando uma tubulação maior naquele trecho, pois deve continuar chovendo e a Mogi-Bertioga tem de estar preparada para isso, apesar da continuidade dos riscos para quem tiver de passar por ali, indo ou voltando das praias da Baixada Santista.