“Há como recuperar perdas no ensino”, avalia a professora Luci Bonini
Com vontade política, gestão pública eficiente, projetos multidisciplinares e escolas abertas manhã, tarde e noite para alunos e pais será possível recuperar o tempo perdido na educação durante a pandemia de Covid-19, que paralisou as aulas presenciais no Brasil desde meados de março do ano passado. A avaliação é da professora Luci Mendes de Melo […]
06/02/2021 06h03, Atualizado há 66 meses
Com vontade política, gestão pública eficiente, projetos multidisciplinares e escolas abertas manhã, tarde e noite para alunos e pais será possível recuperar o tempo perdido na educação durante a pandemia de Covid-19, que paralisou as aulas presenciais no Brasil desde meados de março do ano passado. A avaliação é da professora Luci Mendes de Melo Bonini, que prevê o distanciamento ainda maior entre os estudantes das redes pública e particular de ensino, que mais uma vez recebem tratamento diferenciado neste período letivo atípico, marcado por aulas remotas.
Quais os impactos da pandemia aos alunos das redes pública e particular de ensino?
Estima-se que metade das escolas do mundo permanece fechada. A pandemia da Covid-19 foi uma ruptura potencialmente prejudicial à educação de uma geração. As escolas particulares se empenharam com seus alunos no sentido de encontrar plataformas que sustentassem as aulas de modo remoto. Assim também, os alunos das escolas particulares têm mais acesso às tecnologias, a uma conexão à rede mais estável e não são muito prejudicados. Meu pensamento fica nas escolas públicas e, mais especificamente, nos alunos. Estudantes com famílias de baixa e baixíssima renda, sem acesso à tecnologia e nem a uma rede wi-fi estável. O acesso dessas crianças fica prejudicado. Além disso, muitas crianças não têm, em casa, um espaço favorável para poder fazer suas tarefas.
Será possível recuperar este tempo perdido?
Se houver vontade política, sim. Proponho que as escolas abram as portas manhã, tarde e noite para alunos e pais. Que existam atividades que possam recuperar o tempo perdido. Projetos interdisciplinares, professores pagos adequadamente, materiais didáticos de reforço. Sem uma gestão pública eficiente e determinada a remover as lacunas causadas pela pandemia, a educação não vai caminhar. Seja a educação básica, seja educação superior. Existem muitos aplicativos que poderiam ser utilizados para envio de materiais, lives, aulas, assim como WhatsApp, Telegram, Youtube, Facebook, TikTok, Instagram, Blogger, plataformas de games e assim por diante. Mas a preocupação é sempre a mesma: os professores estão preparados para enfrentar esse desafio?
E o reflexo do ano letivo atípico em 2020 no desempenho dos alunos no Enem e vestibulares?
Já tenho resultados de alunos que prestaram Fuvest e foram aprovados na primeira fase. Soube de estudantes que realizaram o Enem e não tiveram dificuldades. Mas crianças e adolescentes precisam ter acesso à tecnologia de qualidade. Há duas décadas falava-se que cada aluno da educação básica nas escolas públicas teriam um laptop de 100 dólares. Onde foi parar esse sonho? Só para refrescar a memória, essa ideia de um laptop de 100 dólares foi do cientista da computação Nicholas Negroponte, do Massachussets Institute of Technology (MIT). Esse equipamento colocaria milhares de crianças e jovens com acesso à informação e à educação de qualidade. Assim, parece que concluímos sempre com aquele pensamento corriqueiro: a melhoria da qualidade da educação não interessa aos gestores públicos. Ninguém quer um povo com instrução adequada, formação e educação voltadas ao desenvolvimento econômico e social do país.
Qual o papel da tecnologia nesta pandemia?
Embora a tecnologia esteja finalmente sendo integrada à educação, seu uso para ensino e aprendizagem ainda permanece um desafio, mesmo neste momento em que vivemos. Apesar do fato de que muitas escolas hoje têm o privilégio do acesso imediato à tecnologia, professores treinados e um ambiente político favorável, o uso deste recurso na educação durante a pandemia foi desafiador. O potencial da tecnologia para aprimorar o aprendizado não pode ser subestimado, pois já começou há algum tempo e deve urgentemente ser acelerado. A tecnologia precisa ser inclusiva e não excludente como tem sido. As Big Techs, como são chamadas as grandes empresas de tecnologia, têm ganho muito dinheiro com a pandemia em vários sentidos, e na educação inclusive, elas poderiam ajudar muito mais do que fazem hoje.
Os professores se reinventaram e saem fortalecidos?
Os professores assumiram a responsabilidade de estabelecer conexão com seus alunos e com os pais desses estudantes. Isso foi muito desafiador, pois eles entraram na privacidade do aluno e de sua família. Neste sentido, as relações ficaram mais próximas. Alguns professores criaram estratégias personalizadas, puderam planejar tarefas para permitir que os alunos trabalhem em seu próprio ritmo e outros ainda foram capazes de oferecer opções de atividades e incentivar os alunos a tomarem iniciativas com base em suas áreas de interesse. Mas nem tudo foi assim, muitos que nunca tinham encarado as possibilidades da educação mediada pela tecnologia tiveram dificuldade. A lousa, o giz e o impresso foram, durante décadas, os materiais disponíveis ao professor, então acredito que tenha sido bastante difícil. Há muitas coisas ainda a serem pensadas e reorganizadas com esse home office dos professores: despesas com energia elétrica, compra de computador novo e melhores condições de acesso à internet.
Quais lições a pandemia deixa na área da educação?
É preciso envolver as famílias. Talvez com a pandemia, muitos pais acompanharam seus filhos e entenderam como eles aprendem, como os professores ensinam e qual o seu papel na educação formal do filho. Eles devem ter entendido também que precisam conhecer mais de tecnologia, aprimorar seus equipamentos e de seus filhos. Talvez tenhamos aprendido que daqui para a frente ficaremos mais tempo frente a uma tela. É preciso que todos os cursos de formação de professores tenham em seu currículo o ensino mediado pelas tecnologias.
E a saúde mental de professores, alunos e pais?
Também é preciso cuidar da saúde mental dos alunos, professores – e claro, dos pais. Afinal o lockdown prende as pessoas em casa, as deixa à mercê de tudo o que ocorre sempre pelas vias da tecnologia. A informação que vem por meio da internet nem sempre é a mais correta. Há muitas distorções de dados feitas pelos usuários mal-intencionados. Informação não significa conhecimento. O conhecimento vem de como processamos os dados e as informações para a melhoria de nossa vida pessoal, da comunidade, do país e do mundo.