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Mães dos filhos da ‘geração Covid’ falam do medo e de esperanças

Eles são criados entre quatro paredes e começam a conhecer o mundo em saídas estrategicamente planejadas pelas mães. Visitas são rápidas e apenas para os mais íntimos. As apresentações dos novos integrantes das famílias são online.  As dúvidas sobre o futuro e o desenvolvimento de quem nasceu a partir de 2020 são muitas. Nascidos ou […]

Por O Diário
01/05/2021 08h37, Atualizado há 63 meses

Eles são criados entre quatro paredes e começam a conhecer o mundo em saídas estrategicamente planejadas pelas mães. Visitas são rápidas e apenas para os mais íntimos. As apresentações dos novos integrantes das famílias são online.  As dúvidas sobre o futuro e o desenvolvimento de quem nasceu a partir de 2020 são muitas.

Nascidos ou gerados a partir do ano passado ou em 2019, os bebês da pandemia, estão sendo chamados de Geração C, em referência à Covid ou Coroniais,  e tendem a se diferenciarem da Geração Z ou Millenniais, pelas características marcantes impostas pelo longo período de isolamento social.

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As crianças e jovens estão vivendo uma drástica e inclassificável mudança comportamental desde o ano passado. Bebês estão demorando ainda mais a sair do casulo, algo que preocupa os pais desde a confirmação da gravidez.

Com cinco meses, Heloísa Lourenço Curvello  apenassaiu de casa para ir ao pediatra e a um almoço de família, com poucas pessoas. Foi nesse encontro que a mãe, Daniela, de 34 aos, notou uma alteração no comportamento da filha. “Ela estranhou demais e eram apenas seis pessoas. Eu tinha de estar no campo de visão dela, e só voltou à rotina dois dias depois”, recorda-se a mãe, ciente de que a descoberta do mundo, para Heloísa, terá um processo diferenciado.

Primeira filha do casal, a garota recebeu apenas a visita dos familiares mais próximos. A gestação foi tomada por cuidados especiais. Heloísa nasceu de parto normal, na Santa Casa de Misericórdia de Mogi das Cruzes.

“Quando soube da gravidez tiva uma grande alegria, mas também um sentimento assustador, porque estávamos no final de março, quando a pandemia se tornou conhecida”, fala a mãe, dizendo que facilitou o atendimento prioritário às gestantes, nas consultas do pré-natal, na rede pública de Mogi.

Daniela admite os desafios futuros, na reconstrução da vida e do país. Apesar das perdas neste período, ela se mostra esperançosa: “Torço, como mãe, para que as pessoas aprendam como essa crise é séria e não levem a doença na brincadeira, como estão fazendo os mais novos do que eu. Eu vou fazer o meu melhor para que a geração da Heloísa seja mais humana, consciente e estudada. O mundo está um caos porque não conseguimos deixá-lo melhor”, reflete.

Para ela, neste ano, a família continuará com limitações para levar Heloísa para conhecer o mundo, mas a mãe sonha com uma festinha do primeiro aniversário em novembro.

Bebê a bordo

Medo, alegria e esperança. Esses são os sentidos vividos por Lícia Hiratsuka Liberato, que espera a chegada de Bruno, ali pelo dia 20 de junho.

Ela programou a gravidez para este ano e, apesar de continuar trabalhando, mantém uma rígida rotina entre a casa e o escritório onde é secretária e, na pandemia, as visitas estão suspensas.

“Eu estou com muito medo, não vou ao mercado, farmácia, nada, e venho trabalhar porque fico sozinha no escritório”, partilha, afirmando que nas últimas semanas, com os relatos de complicações na gestação e no pós-parto de mulheres testadas com a Covid, os cuidados foram reforçados.

Uma boa notícia diz respeito à abertura da vacinação para mulheres com comorbidas. “É um alento porque, logo, as mulheres poderão ser imunizadas”, acredita.

Para quando o bebê nascer, a família já sabe que as visitas terão de esperar. “Por proteção de todos”, comenta Lícia.

Dúvidas e solidão marcam primeiros anos dos filhos

O pequeno Vinícius Naoki Ortiz vai completar dois anos neste mês e a mãe dele, Carla, tem desejos a serem realizados. Nada muito incomum. Ir ao parque, à praia, ao shopping. E nas poucas vezes que o garoto saiu, como quando foi a um supermercado, “ele ficou maravilhado com a rua, os sons, os carros”, lembra ela, acreditando que os filhos da Geração C terão influências no comportamento por terem sido criados no isolamento. Ela, inclusive, já nota isso no filho.

“O Vinícius é uma criança mais agitada e ansiosa e acredito que é porque não conviveu com outras crianças e com outras pessoas”, diz.
Outra dificuldade, para quem tem poucos parentes,  é a escassez da rede de apoio,  formada por avós e tios, que ajudam a enfrentar as surpresas quando se tem o primeiro filho. Carla cria o filho sozinha. “É uma criação um pouco solitária. E, veja, eu tenho a Nice, a babá, que cuida dele na minha casa porque preciso trabalhar. É um período de desafio psicológico e mental intenso”, comenta.

Carla sofre pelo fato de o filho perder fases de descobertas, de acordo com o passar do tempo. “Não há como voltar ao primeiro ano de vida dele”, resume, contando que esse sentimento, para uma mãe, “é desesperador”.

 Ela lamenta ainda a condução da pandemia no Brasil que contribui ainda mais para alongar a crise sanitária e seus efeitos, com a escassez e a baixa velocidade da vacinação.

Carla espera por fases menos agudas de casos, embora não acredite que o filho vai poder, como ela planejava, ir neste ano para uma creche, em meio período.

Assim como Daniela Lourenço Silva comentou, o desafio é a falta de perspectiva sobre quando as relações sociais serão normalizadas. Tios e padrinhos do Vinícius têm contatos fortuitos com o garoto. “O sentimento é que o mundo parou. E a falta de pessoas ao nosso redor, convivendo como antes, sem ter medo de  se abraçar, pode mudar a maneira como as crianças reconhecem o afeto humano. São muitas as dúvidas sobre o futuro da geração nascida agora”, opina.

Planos devem ser adiados, diz Ministério

Nas últimas semanas, a confirmação de intercorrências geradas pela infecção por Covid-19 em gestantes e puérpuras levou o Ministério da Saúde a emitir recomendação às mães que, se puderem, devem adiar o planejamento de uma gravidez.
Outra notícia é que começa a ser articulada a liberação da vacinação para as gestantes, primeiro as que têm comorbidades, para prevenir casos graves da doença nesta faixa populacional.

Em defesa do pré-natal

O médico Thales Lozano afirma que algumas mulheres têm optado por postergar a gravidez. Porém, o atendimento que no ano passado foi marcado por um certo recuo, voltou a se normalizar a partir do final do ano e este.

Ele afirma que as pacientes devem conversar com os médicos e, ao constatarem a gravidez, manter a realização do pré-natal e do acompanhamento para garantir a saúde da mãe e do bebê.

Lozano contou que a pandemia trouxe muitas dúvidas e, sobretudo, nos últimos meses, quando grávidas testadas com a Covid apresentaram complicações de saúde. Os sintomas que se parecem com o de uma gripe, como dores de cabeça e cansaço extremo, devem ser tratados o mais rápido possível. Ainda não insipientes os estudos, mas já há uma preocupação com virtuais restrições no crescimento do bebê. Por isso, a atenção maior durante a gestação.

O médico também comentou que há indícios de que as mulheres, que tomaram a primeira dose da vacina, se contaminadas, desenvolveram sintomas leves da Covid.

As autoridades médicas também têm incentivado a vacinação das grávidas contra a gripe para ampliar a proteção da imunidade nos meses típicos de atuação do Influenza.

Aliás, neste ano, também estão sendo vacinadas as crianças de zero a seis anos contra a gripe.

“A conversa com o médico para esclarecer dúvidas é um caminho para preservar a saúde da mãe e o bebê, sempre”, complementa.
Na rede básica de Saúde, as grávidas são alvo de atendimento preferencial nos serviços públicos.

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