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Mulheres tomam o poder na política

Câmaras, prefeituras, assembleias legislativas, Congresso e Senado deveriam contar com 52% de mulheres – percentual feminino da população brasileira – em sua composição para proporcionar representação equilibrada e democracia legítima. A avaliação é da cientista social Carolina Pavese, destacando que o número de sete profissionais do sexo feminino no comando das secretarias da Prefeitura de […]

Por O Diário
08/01/2021 16h28, Atualizado há 67 meses

Câmaras, prefeituras, assembleias legislativas, Congresso e Senado deveriam contar com 52% de mulheres – percentual feminino da população brasileira – em sua composição para proporcionar representação equilibrada e democracia legítima. A avaliação é da cientista social Carolina Pavese, destacando que o número de sete profissionais do sexo feminino no comando das secretarias da Prefeitura de Mogi das Cruzes, correspondente a 38% das pastas, é mais expressivo do que o quadro encontrado na Câmara, onde das 23 cadeiras, apenas três serão ocupadas por mulheres, representando 13%.

“A escolha de mulheres para as secretarias é algo positivo, que deve ser cada vez mais ampliado para ter esse equilíbrio, com representação equitativa. Mas é sempre interessante observar as pastas que as mulheres ocupam. Raramente se vê uma mulher em uma secretaria ou no Ministério de Segurança ou de Economia, por exemplo. Temos alguns casos, mas são poucos”, enfatiza a professora da ESPM/SP.

A profissional também destaca algumas vitórias, embora pequenas, para a agenda dos direitos das mulheres e a representação de maneira plural. 
“Somos um grupo bem heterogêneo e tivemos a vitória de vereadoras trans, vimos mulheres negras, da periferia, aquelas que entraram nas câmaras através de campanhas e candidaturas coletivas, outras de movimentos sociais, então houve maior diversidade da representação feminina na política. Isso é importante, mas quando olhamos a composição das câmaras, ainda são poucas mulheres. E elas vão trazer para o debate uma agenda mais diversificada, que é um exercício fundamental para a democracia, discutir os direitos e as demandas dos mais variados grupos. Neste sentido é positivo, mas ainda é uma representação numericamente pequena, com peso mais simbólico do que político, capaz de fato de alterar o curso das leis e políticas que temos em vigor”, avalia.

A reduzida participação feminina, na opinião de Carolina, está ligada ao machismo estrutural da sociedade, que faz com que se crie essa interpretação errada de que política é um espaço ocupado fundamentalmente por homens.

“Quando vemos mulheres tentando reverter esse quadro e ingressar na política, elas sofrem as mais variadas violências e obstáculos para poder lograr suas candidaturas e exercer o trabalho. A primeira vem dos partidos, já que a maioria é dirigida por homens e vemos a menor alocação de verbas partidárias para a campanha das mulheres, que têm menos recursos para lançar e promover suas candidaturas do que os homens. E há a dificuldade da sociedade em aceitar essas mulheres como candidatas. Elas são constantemente desqualificadas durante a campanha e vemos violências, que vão desde acusações, ataques e exposição da vida familiar. Basta ver o recente caso da vereadora Isa, na cidade de São Paulo, onde tivemos imagens circulando do deputado colocando as mãos nos seios dela e, mesmo assim, isso ainda está sob investigação. Então, é um espaço muito complicado de se ocupar. Além disso, temos uma sociedade patriarcal que ensina as mulheres a pensarem que a política é um espaço masculino e quando olhamos essa baixa representação, isso parece fazer sentido. Há uma divisão de tarefas que a sociedade impõe e que não é real, onde as meninas são excluídas da política”, destaca. 
Ampliar a participação das mulheres é possível, segundo ela, aumentando os recursos nestas campanhas, fiscalizando o cumprimento da lei de 1997, que prevê 30% de cotas, para que elas não sejam usadas como laranjas, combatendo fake news, ataques pessoais, violações dos direitos e assédios morais, além de encorajá-las cada vez mais a participarem do debate político, assim como oferecer formação política para as mulheres.

“Em uma democracia onde as questões mais triviais cotidianas até as maiores da vida em sociedade são discutidas e definidas a partir dessa política institucionalizada, participar da política é uma questão de exercício de direitos humanos e da cidadania de maneira plena. Quando uma mulher é privada disso ou quando elas não estão minimamente bem representadas, há uma falha no estado democrático ou de direito, onde a maior parte das pessoas, e isso se estende à população negra, não participa da política e não está representada lá. A participação das mulheres é uma questão de cidadania, de direitos humanos e de legitimidade da democracia. E mulheres discutem saúde, segurança, transporte, economia, indústria, tecnologia, ciência e todos os outros assuntos. Nós somos cidadãs plenas desse país e precisamos estar em todas as agendas políticas. É uma visão míope restringir a participação das mulheres à agenda de direitos das mulheres”, conclui Carolina.

 

Priscila Gambale, prefeita de Ferraz

Aos 35 anos, a educadora Priscila Gambale é a primeira mulher a ocupar a cadeira de chefe do Executivo de Ferraz de Vasconcelos e considera o resultado das urnas um fato histórico. “Para mim e para todas mulheres da cidade, é uma grande vitória. Temos uma sensibilidade maior para entender as pessoas e buscar as soluções”, destaca ela, que foi eleita com 37,06% (31.944 votos válidos).

Nos planos para o mandato que teve início no último dia 1° de janeiro, está contribuir para criar uma organização feminina de prefeitas na região do Alto Tietê, com o envolvimento da prefeita de Poá, Marcia Bin, e da vice-prefeita de Mogi, Priscila Yamagami Kähler, a fim de discutir temas voltados à população feminina, além de impulsionar a participação das mulheres na política.

“Esse é um tema importante e que deve sempre ser debatido, talvez até algo organizado via Condemat (Consórcio de Desenvolvimento dos Municípios do Alto Tietê) para que outras mulheres que fazem parte das administrações possam participar”, completa Priscila, que comanda o município com cerca de 196 mil moradores . 

 

Márcia Bin, prefeita de Poá

A eleição de mulheres para o comando de prefeituras do Alto Tietê representa mudanças. A avaliação é da primeira mulher à frente do Executivo de Poá, Márcia Teixeira Bin de Sousa, 52 anos, formada em Gestão Pública e eleita com 37,85% (23.446 votos válidos). 

“Isso é importante, pois acredito que mostrará para as mulheres que elas podem e devem participar da política. Já temos ótimos exemplos de mulheres que estão se destacando, mas o fato de ser a primeira mulher prefeita de Poá, assim com a Priscila Gambale, em Ferraz, vai fortalecer a participação feminina na política regional”, aposta Márcia.

Ela também destaca a eleição de duas vereadoras para a Câmara Municipal de Ferraz. “Acredito que a última eleição se tornou um divisor de águas para o nosso município e, em 2023, teremos uma participação feminina maior concorrendo aos cargos públicos”, analisa Márcia.

A prefeita quer se unir a outras mulheres eleitas na região para discutir problemas em comum. “Conversei com a Priscila Gambale e ainda irei me reunir com a Priscila Yamagami, assim como os demais prefeitos da região”, diz.

 

Simone Cunha, primeira-dama de Mogi

Acompanhando desde o início a trajetória política do marido, o prefeito Caio Cunha, Simone Margenet Cunha, 43 anos, sempre preferiu ficar nos bastidores. Na estreia dele na Prefeitura, encontrou no desafio de assumir o Fundo Social de Solidariedade de Mogi a oportunidade de colocar em prática ações para ajudar quem mais precisa e defende a cultura da participação nas questões sociais. “Há uma ‘Mogi Invisível’, onde tem muita gente passando necessidade e que precisamos alcançar. Além do Fundo Social, continuarei ajudando o Caio nos bastidores”, enfatiza ela, que é formada em Secretariado Executivo (UBC).

Na avaliação de Simone, nas últimas eleições houve aumento da representatividade das mulheres. “Sabendo que 53% do eleitorado são mulheres, ainda há muito o que se fazer”, conclui, apostando nos coletivos e na conscientização para ampliar este quadro. “As demandas das mulheres são muitas, de maneira geral (direitos trabalhistas, feminismo negro, obstétrico, a violência – física, verbal, moral ou de negligência).  Mas o que chama atenção, principalmente, na pandemia, é a violência doméstica”, diz. 

 

Cidade tem primeira vice-prefeita

Primeira mulher a ocupar a cadeira de vice-prefeita de Mogi das Cruzes, Priscila Yamagami Kähler (PODE), 49 anos, defende a criação e o aprimoramento de políticas públicas direcionadas à população feminina a fim de atender demandas e oferecer condições para o pleno exercício de seu papel na sociedade. A proposta inclui ampliar a participação das mulheres no cenário político, por isso, além de dividir responsabilidades com o prefeito Caio Cunha (PODE) e assumir frentes de trabalho no comando do município, ela quer ampliar a atuação do grupo Vamos Ocupar a Cidade (VOC), na formação de lideranças políticas em Mogi e toda a região do Alto Tietê. (Confira entrevista).

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