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Órfãos da Covid-19 em Mogi tentam reagir ao luto

A família Nogueira está se preparando para abrir uma sorveteira, A Favorita, após o término da reforma de um espaço na casa da família, em Poá. O idealizador do projeto, não estará presente. O jornalista Márcio Nogueira, que atuava em Mogi das Cruzes, também não soube que os filhos Pietro e Rodrigo, os dois com […]

Por O Diário
30/04/2021 15h45, Atualizado há 63 meses

A família Nogueira está se preparando para abrir uma sorveteira, A Favorita, após o término da reforma de um espaço na casa da família, em Poá. O idealizador do projeto, não estará presente. O jornalista Márcio Nogueira, que atuava em Mogi das Cruzes, também não soube que os filhos Pietro e Rodrigo, os dois com 12 anos, integram oficialmente a família após a liberação do documento que finaliza o processo de adoção. A certidão tem a mesma data do registro de óbito do pai que deixou aos filhos, sobrinhos e amigos, exemplos de generosidade.
Não foi uma, nem duas vezes que Márcio ligou para a mulher dele, Ivete, dizendo que tinha dado o último tostão que tinha na carteira para algum desconhecido e não tinha como retirar o carro do estacionamento. Ivete ri. Ela vinha para Mogi porque o Márcio, que trabalhou 16 anos como jornalista na Rádio Metropolitana, não conseguia voltar para a casa.

O jornalista tinha medo da Covid. Com uma obesidade agravada durante o último ano, ele era hipertenso e, no hospital, quando foi levado em uma ambulância do Samu, descobriu-se, segundo ela, que também era diabético.

Mesmo com medo, admite Ivete, ele era resistente ao uso da máscara. “Não posso deixar de dizer isso, ele sempre foi muito cuidadoso, implicava em casa, com o uso do álcool gel, perguntava a toda hora: “Já lavou as mãos?”, “mas se sentia sufocado com a máscara”.
O jornalista faleceu três dias depois de dar entrada no hospital. Antes disso, a última vez que ele saiu de casa, foi em uma terça-feira, para levar o irmão, André Luis – que também faleceu, alguns dias depois de Márcio – para fazer um exame. 

Na quinta-feira, ele perdeu o apetite. No sábado pela manhã, não conseguia andar e falava coisas embaralhadas. O Samu chegou em 20 minutos, e  na ambulância, ele pediu à mulher: “Não me deixe internado”. As últimas palavras trocadas entre os dois, foram: “Daqui a pouco eu volto”, ao que Ivete respondeu, “eu vou te esperar”.

A história de Márcio é contada por Ivete, que o conheceu na escola, quando tinha 16 anos. Não se separaram mais, até 16 de março, quando ele faleceu, sem ela conseguir se despedir.

Ivete já perdeu os pais e dois irmãos, e foi acolhida por Márcio e a família dele. Nenhuma das perdas que teve, no entanto, se comparava à do companheiro. 

Ivete também se contaminou com o vírus, e não pode acompanhar os preparativos para o enterro. 

“Eu fiquei no isolamento, hoje eu estou bem. Tive muito cansaço e minha filha, Clara (que tem 16 anos), foi muito madura, cuidou de mim. Mas foram momentos terríveis. Essa doença tira a vida das pessoas que a gente ama, não podemos sequer ver o caixão, nem eu, e nem os meus filhos. Enquanto estava doente, não podia abraçar os meus filhos, consolar minha filha, simplesmente, não tem palavras para dizer o que senti”.

Com a responsabilidade, agora, de cuidar dos três filhos, Ivete não tem tempo a perder. Ela precisa cuidar das questões previdenciárias e colocar em prática o plano de Márcio, abrir a sorveteria, A Favorita. 

Como será o amanhã. Ivete pondera: “Eu tenho medo, porque a imagem, a visão, a convivência com um pai, pode até parecer machista, mas é  importante para a educação dos filhos. Eu tenho medo de errar, de cobrar demais, e de, no futuro, eles me cobrarem a ausência da figura masculina. Mas tenho todo o apoio da minha sogra, que também não posso ver e está depressiva, mas quando fecho as portas, sou eu quem tem de corrigir, ensinar e cobrar. Farei tudo isso, por nós, pelo Márcio”.

Márcio foi uma das mais de três mil vítimas da doença no Alto Tietê na pandemia da Covid-19, que segue mudando a vida de muitas famílias.

Os números

Mogi registra mais mortes desde 2020

Apesar das atenções estarem voltadas para as vítimas da Covid-19, desde o ano passado, as cidades brasileiras registram um aumento dos óbitos. 

Em Mogi, vítimas da Covid somam mais de mil pessoas

“Não podemos nos matar em vida”, reflete escritora

Não dizer “bom dia” nas redes sociais foi um símbolo de luto notado pela escritora mogiana Carla Pozo, semanas após a morte da mãe, a pastora Marlene Santana Caetano e do padrastro, Aparecido Laudevino Caetano.

Os dois faleceram com a diferença de apenas seis horas, no dia 30 de março deste ano, quando Mogi das Cruzes registrou um recorde de óbitos.

Carla  processa a dupla perda, após ter reduzido o contato social desde o ano passado porque, nesse período, a família Pozo se preservou para receber o mais novo membro, Pedro Augusto, filho de Beatriz.

Carla comenta que ninguém está livre do vírus e lamenta o descaso de uma parte das pessoas com o outro.
“Não podemos nos matar em vida”, diz, inconformada com as aglomerações e a divisão ideológica firmada desde o ano passado, nas redes sociais e pessoais.

“Há um descaso com a vida do outro muito forte. Então, eu não dizer bom dia, não era só por mim, era por todos”.
A família acompanhou o pior momento da pandemia, quando havia a falta de leitos. Marlene mesmo não chegou a uma UTI. Ela estava na Upa do Rodeio.

“Foram momentos cruéis”, diz Carla, que vai seguindo em frente, com ações, como o Vista-se de Poesia, em parceria com o Instituto Lea Campos, que busca ressignificar o sentimento de perda latente em muitos núcleos familiares. 

Pessoas do entorno familiar auxiliam a superar as perdas

A perda de um familiar é um desafio em qualquer tempo. A pandemia acentua as dores. A maneira como uma pessoa vivencia essa experiência também reflete o preparo para a vida familiar, profissional e emocional, como afirma o professor Luís Sérgio Sardinha, da Faculdade de Psicologia do Centro Universitário Braz Cubas. “Na crise, a pessoa lida com os recursos e capacidades que possui, com a maneira como ela planeja o presente e o futuro”, afirma.

Sardinha acredita que a rede de proteção dos que ficaram órfãos de pais, amigos e familiares deve observar comportamentos, que podem indicar ser a hora de dar maior atenção a um indivíduo em depressão ou outro problema emocional. “Se ele quebrou a rotina, deixou de trabalhar, tomar banho, se alimentar, é sinal de alerta. E, se isso persistir, buscar um atendimento especializado”, recomenda.

Sardinha lembra que o choro, o sofrimento após a morte, tem várias fases. “O luto terá de ser vivido”, confirma, acrescentando, no entanto, que a vida precisa seguir. Um exemplo citado por ele é o da dupla Leandro e Leonardo. Um dos irmãos faleceu, e aos poucos, o outro voltou a cantar, retomou a vida.

O professor diz que assim como a pessoa que morreu era importante para quem está vivendo o luto, essa comparação serve para quem ficou órfão. Ele afirma que as políticas públicas são decisivas, como a pandemia bem exemplificou, mas pondera que as pessoas no entorno dessas tragédias familiares podem ser solidárias e afetuosas com quem está sofrendo uma perda fatal. 

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