Pandemia expõe distanciamento entre a rede pública e particular
A disparidade de acesso à educação nos ensinos público e privado no Brasil tem sido ainda mais acentuada pela pandemia do novo coronavírus que, desde de meados de março do ano passado, levou à suspensão das atividades presenciais nas escolas e exigiu que direção, professores, estudantes e pais se reinventassem, da noite para o dia, […]
05/02/2021 15h52, Atualizado há 66 meses
A disparidade de acesso à educação nos ensinos público e privado no Brasil tem sido ainda mais acentuada pela pandemia do novo coronavírus que, desde de meados de março do ano passado, levou à suspensão das atividades presenciais nas escolas e exigiu que direção, professores, estudantes e pais se reinventassem, da noite para o dia, para garantir a continuidade das aulas.
Enquanto a rede privada, já acostumada à presença de inovações tecnológicas no cotidiano de seus alunos, seja em tarefas nas próprias unidades de ensino ou em casa, conseguiu minimizar os impactos e se adaptar com maior agilidade, as escolas públicas enfrentam dificuldades até hoje, quase um ano depois do início da crise de saúde, principalmente devido a problemas de acesso à internet e deficiências no sinal da rede de computadores, principalmente em localidades periféricas e rurais. Tais obstáculos levam ao aumento da evasão escolar, com mais de 5 mil rematrículas não efetuadas até janeiro no Ensino Médio dos estabelecimentos estaduais da cidade.
Em Mogi das Cruzes, a maioria das escolas particulares – onde são atendidos cerca de 14 mil alunos – conseguiu cumprir o cronograma e conteúdo curricular no ano passado, adotando aulas online em tempo real. Já habituados a trabalhar com a tecnologia, professores e estudantes não tiveram maiores problemas para acessar as atividades.
Já esta realidade não é a mesma na rede pública. Nas escolas estaduais, professores e alunos se viram diante de dificuldades desde a falta de computadores e celulares com acesso à internet, até falhas no sinal em algumas regiões, prejudicando o conteúdo das aulas. Iniciativas como a da Escola Estadual Professora Irene Caporali de Souza, no Conjunto Nova Bertioga, em Mogi, que manteve as aulas online ao vivo, são raras. (confira na página 14). A Diretoria Regional de Ensino de Mogi, que abrange Salesópolis e Biritiba Mirim, é responsável por 28 mil estudantes.
A rede municipal mogiana, que no ano passado disponibilizava videoaulas com 20 a 30 minutos cada para uma semana de atividades acessadas via canais digitais e TV Câmara, agora aposta em um novo formato.
Três lives de acolhimento para alunos e pais, atividades lúdicas e detalhamento da programação para este primeiro mês darão início à volta às aulas a partir de segunda-feira (8). As escolas enviarão os links de acesso ao cronograma dos três dias (8, 9 e 10) para os cerca de 47 mil estudantes ou responsáveis.
Na sequência, acontecerá a avaliação online em 11 e 12 de fevereiro e, se houver necessidade, será disponibilizada a impressão da prova, que visa balizar as ações curriculares da Secretaria, que neste momento optou por adotar o modelo de sequências didáticas quinzenais para o início das aulas remotas.
“Este conjunto de atividades interdisciplinares constrói a rede do saber e valoriza as experiências dos professores. O Departamento Pedagógico da Secretaria de Educação orienta os professores, que terão autonomia para trabalhar o conteúdo com suas turmas de forma remota, como no ano passado, pela internet, em grupos no WhatsApp, Facebook, Instagram, criando vídeos, usando a criatividade”, explica a diretora do Departamento Pedagógico, Andréa Pereira de Souza.
Volta às aulas na cidade
As escolas particulares de Mogi iniciaram o ano letivo de forma remota a partir da última semana de janeiro, sendo que a maioria retoma atividades presenciais na segunda-feira (8), em sistema híbrido, com medidas de protocolo sanitário e rodízio de turmas. A rede municipal de Mogi recomeça no mesmo dia, mas apenas online, com expectativa de retorno presencial em março. Nas unidades de ensino estaduais, o ano letivo tem início segunda-feira (8), mediado por tecnologia aliada ao presencial, de forma híbrida. Como Mogi e cidades do Alto Tietê estão na fase amarela do Plano São Paulo, as escolas podem funcionar com até 35% da capacidade por dia.
Régis garante aula no Estado
Diferentemente da maioria das escolas públicas, a E.E. Profª Irene Caporali de Souza, no Conjunto Nova Bertioga, adota as aulas remotas ao vivo para seus alunos desde o início da pandemia, em março de 2020, e vai manter o modelo neste ano.
O professor Régis Eduardo de Oliveira Portela, 41 anos, conta que foi elaborada uma escala para as atividades, com projeção em Power Point, gincanas e quiz em sites, além de feedback dos alunos por meio de formulários.
“Nesta pandemia, nossa escola superou muitas particulares com o modelo de aulas online, mas mostrou que vários alunos não têm condições e necessitam da escola, por várias questões. Tivemos dificuldades para aprender a lidar com as plataformas digitais, fazer os alunos se interessarem e preender a atenção deles na frente do computador ou celular. Sem contar que nem todos têm estes equipamentos para acompanhar as aulas”, atenta Régis.
Segundo ele, a experiência vivenciada pelos professores, que tiveram que se reinventar na pandemia, é gratificante. “No meu caso, saí da zona de conforto, aprendi ferramentas novas, estudei para encontrar o melhor modo de transmitir o conteúdo, mas no começo dava agonia ver que as aulas tinham apenas de 5 a 10 alunos. Não vou ser hipócrita e dizer que atingimos a todos. Sabemos que há alunos que se interessam mais, porém, conseguimos diminuir o grau de defasagem que poderia ser maior”, avalia.
Recuperar todas as perdas de aprendizagem causadas pela pandemia, na visão de Regis, será difícil. “Podemos retomar as habilidades estruturantes.
Lógico que para alcançarmos este objetivo, dependemos muito dos alunos, mas é possível”, pondera, destacando o papel fundamental da tecnologia na educação nestes últimos 11 meses. “A internet foi fundamental para atingirmos os alunos. Se não tivéssemos as plataformas digitais seria muito mais difícil obtermos os resultados que conseguimos alcançar até agora”, considera o professor da rede estadual.
Ensino híbrido
Na rede estadual, as aulas voltam na segunda-feira (8) , mantendo o ensino mediado por tecnologia aliado ao presencial, de forma híbrida. Na Diretoria Regional de Ensino de Mogi – que além da cidade, abrange Biritiba Mirim e Salesópolis – são 28 mil alunos.
O Centro de Mídias SP, criado em 2020 para transmitir aulas remotas, permanecerá com a programação regular. A iniciativa oferece conteúdos pedagógicos por meio de dois aplicativos, redes sociais e em dois canais da TV aberta – TV Educação, composta pelos canais 2.3 (anos finais e Ensino Médio) e TV Univesp – canal 2.2 (creche, pré-escola e anos iniciais). Por meio do aplicativo (disponível para Android e IOS), é possível assistir às aulas, participar ao vivo e interagir com professores.
Tecnologia deixa adaptação viável
O ano letivo já começou de forma remota na rede particular de Mogi das Cruzes desde a última semana de janeiro e algumas unidades de ensino retomam as atividades de maneira híbrida a partir desta segunda-feira (8).
Seguindo o modelo de aulas online em tempo real desde o início da pandemia, em meados de março do ano passado, a maioria conseguiu cumprir o mesmo cronograma que seria desenvolvido nas salas de aula.
A presença da tecnologia na vida de professores e estudantes das escolas particulares, intensa já antes da pandemia, foi essencial para a rápida estruturação do novo sistema de aulas logo que houve a suspensão das atividades presenciais, mas também exigiu que todos se reinventassem.
“Os professores tiveram que aprender a lidar com chats enquanto falavam, com a câmara, Power Point, vídeos e outros recursos, porque a aula online facilita muito o acesso, mas pode ser mais dispersiva, então é preciso se reinventar e mesclar recursos para prender a atenção do aluno”, avalia o professor Hélio Fernandes da Silva Soares, 28 anos, que leciona Língua Portuguesa para estudantes do Ensino Médio no Colégio Objetivo de Mogi, com retorno das aulas remotas desde o último dia 26 de janeiro.
Agora, assim como ele, centenas de professores da rede particular de Mogi das Cruzes terão outro desafio pela frente a partir da próxima semana: a adaptação ao ensino híbrido.
“Esta será a segunda parte da adaptação, o segundo round, quando teremos que lidar com os alunos em sala de aula e novas demandas, como o protocolo sanitário, a lousa, a câmara e os estudantes que estão no ensino remoto, em casa. Será um momento de grande aprendizagem para todos”, aposta Hélio.
No Instituto Dona Placidina, as aulas remotas, também ao vivo, começaram na última segunda-feira (1), mas as atividades presenciais apenas devem ser retomadas a partir de março.
Segundo a diretora pedagógica, irmã Elena Ramos Bonfim, apesar das dificuldades, as escolas particulares conseguiram cumprir até 90% do cronograma previsto para o ano passado.
“As perdas foram muito menores do que na rede pública, que infelizmente, não teve a mesma estrutura para manter a programação de atividades e o conteúdo”, avalia, destacando que nesta primeira semana, a escola foca no acolhimento aos alunos e planejamento, para iniciar, efetivamente na segunda-feira (8), as aulas remotas, com período destinado ao reforço escolar àqueles que sentirem necessidade.