Diário Logo

Encontre o que você procura!

Digite o que procura e explore entre todas nossas notícias.

Pesquisadora Ilana Casoy fala de Pedrinho Matador. “Para ele, a mulher era uma questão sagrada”

Em seu perfil, numa rede social, ela se apresenta como escritora, roteirista e criminóloga. O que Ilana Casoy, 63 anos, não diz, por modéstia, certamente, é que ela é reconhecida como uma das principais estudiosas de perfis psicológicos de criminosos, especialmente serial killers do Brasil e exterior. São de sua autoria duas obras fundamentais para […]

Por O Diário
11/03/2023 07h08, Atualizado há 41 meses

Em seu perfil, numa rede social, ela se apresenta como escritora, roteirista e criminóloga.

O que Ilana Casoy, 63 anos, não diz, por modéstia, certamente, é que ela é reconhecida como uma das principais estudiosas de perfis psicológicos de criminosos, especialmente serial killers do Brasil e exterior.

São de sua autoria duas obras fundamentais para quem deseja se aprofundar e entender as histórias e o comportamento de matadores famosos: “Serial Killers – Made In Brasil” e “Serial Killers – Louco ou Cruel?”, onde Ilana descreve, com detalhes impressionantes, casos envolvendo, por exemplo, José Augusto do Amaral, o Preto Amaral, apontado como o primeiro matador em série do País, na década de 1920, assim como Febrônio Índio do Brasil, o Filho da Luz; Benedito Moreira de Carvalho, o Monstro de Guaianases (1950); Francisco Costa Rocha, o Chico Picadinho (1960); José Paes Bezerra, o Monstro do Morumbi (1970), até chegar ao conhecido Pedro Rodrigues Filho, o Pedrinho Matador, assassinado por desconhecidos, na semana passada, no bairro da Ponte Grande em Mogi.

Na versão internacional dos serial killers, aparecem, entre tantos outros, Andrei Chikatilo, o Lobo Enlouquecido; Rory Enrique Conde, o Matador de Prostitutas, e até John Wayne Gacy, o Palhaço Assassino.

São dela também as obras “Casos de Família”, que detalha os crimes ocorridos nas famílias Richthofen e Nardoni, largamente explorados pela crônica policial brasileira; “A Prova e a Testemunha”, “Bom Dia Verônica”, com Raphael Montes e outros, além de “O Quinto Mandamento”.

A morte de Pedrinho levou dezenas de jornalistas à procura de Ilana, fonte mais que confiável de informações sobre o serial killer brasileiro. Ainda presa ao trabalho de roteirista de televisão, a sobrinha de Boris Casoy e prima de Serginho Groisman, dedicou exatos 15 minutos para falar com O Diário, na tarde de terça-feira (7). Durante a conversa, que poderia durar mais algumas horas, ela só fez uma exigência: não ser chamada de “senhora”, como o repórter a ela se referiu, no início da entrevista.
Vamos conversar com Ilana Casoy:

Como se forma uma mentalidade criminosa, como a do Pedrinho Matador?

Bom… pergunta do século, né? (risos) É o que todo mundo quer saber para evitar. Mas é mais importante entender que tal formação é sempre multifatorial. As pessoas querem uma resposta simples, uma resposta única como forma de prevenção de crimes, que não existe. É sempre uma junção do social, do psicológico e do biológico. Tudo isso junto é que vai formar histórias como esta.

Que fatores costumam ser mais fundamentais para levar alguém a matar mais de 100 pessoas? Como ocorre a banalização da morte para uma pessoa como o Pedrinho?

Em primeiro lugar, é preciso entender o contexto da vida do Pedrinho. Ele matou muito pouco fora da cadeia, perto do que ele matou dentro do sistema penitenciário. É preciso considerar isso. O meio em que ele vivia era extremamente violento também. Por isso, o meio onde a pessoa vive também é tão importante no próprio desenvolvimento dela.

Ele foi um indivíduo que entrou na cadeia aos 18 e saiu aos 60 anos, ou seja, 42 anos. Ou perto disso. Enfim, ele é a própria regra. Ele viveu num meio violento a vida inteira.

E ele mesmo me falou: por que eu ficava tão horrorizada por ele matar, se matar e morrer faz parte da vida.
A mãe dele matou, o pai dele matou, a avó dele matou, o avô dele matou… coisas que, no mundo dele, eram naturais mesmo…

Agora, não se tem conhecimento de que o Pedrinho tenha matado uma mulher sequer. O que explica isso?

Ele mesmo explicou. Para ele, a mulher era uma questão sagrada. Ele disse que jamais mataria uma mulher. Ele tinha muito respeito. Na época em que estava preso, ele não queria, de jeito nenhum, que as irmãs dele o visitassem na cadeia, pois não queria que elas fossem expostas à humilhação da revista para entrar na penitenciária.

O Pedrinho era um homem que tinha um código de ética e de valores muito particular. Eram as regras dele.

Quando fui entrevistar o Pedrinho, eu fui com uma equipe grande. E eu, uma mulher, estava muito mais preocupada com os homens que estavam ali, do que com as mulheres do grupo. Porque com as mulheres ele não era um matador.

Isso teria alguma coisa a ver com o comportamento da mãe em relação a ele?

Não, a mãe é uma figura central na vida de qualquer filho. Até existe aquela brincadeira máxima de que a mãe é sempre a culpada. Também não é assim, tem a figura do pai. Mas eu acho que no caso do Pedrinho havia, claro, uma idealização dessa mãe que, na verdade, era uma pessoa muito dura. O Pedrinho sofreu vários castigos, teve uma educação muito rígida, muito cheia de limites, de “pode” e “não pode”. Ele era uma pessoa que nunca pôde ver televisão. Ela era extremamente religiosa… então deve ter tido a sua parcela, nesta idealização de mãe. Mas eu não fiz uma análise psicológica do Pedrinho.

Durante as entrevistas, eu queria entender a pessoa, a trajetória dele, e que ele estava disposto a falar. Então, o que eu uso para explicar o Pedrinho, são as explicações que ele próprio me deu a respeito dele.

Você conhece muito das histórias de serial killers, de dentro e fora do Brasil. Como foi que você conheceu o Pedrinho e teve o primeiro contato com ele?

Foi o Pedrinho que me achou. Não fui eu que achei o Pedrinho… é verdade. Eu tinha um sobrinho, o Phillip, que fazia estágio de recepcionista num hotel, nos Jardins, em São Paulo. Um dia, o Phil me ligou dizendo que ele havia saído para fumar, junto à recepção do grande hotel e ficou de papo um taxista, que por uma coincidência, estava me procurando. O taxista, na verdade, tinha dupla jornada. Ele era também carcereiro da penitenciária, onde o Pedro estava preso.

O Pedro havia pedido para ele me encontrar, pois desejava falar comigo. Eu fui até o hotel e o taxista/carcereiro me deu esse recado: “O Pedro falou que se a senhora pedir, ele vai autorizar sua entrada para uma conversa”. (Na penitenciária, o preso tem o direito de autorizar com quem ele deseja conversar; por lei, ele não é obrigado a se encontrar com qualquer pessoa que deseje falar com ele).

Então, eu fiquei um pouco preocupada. Não é estranho, o Pedrinho Matador querer falar com você? Não era algo comum, uma coisa cotidiana. Mas eu fui até a penitenciária. E quando comecei a conversar com ele, Pedrinho me disse: “Eu tô muito bravo com a senhora”. E eu falei: “Pedrinho, por quê? Não é legal você estar bravo com alguém, né?”, ainda brinquei com ele, para quebrar o gelo.

“Eu tô bravo porque a senhora escreveu um livro sobre serial killers e eu não tô nele”, o Pedrinho disse. E eu então falei que se ele me desse entrevista, eu poderia incluí-lo numa próxima edição do livro. E foi assim que a gente combinou as conversas futuras com ele.

E como foi que ele se apresentou a você durante as entrevistas? Que impressão ele te passou?

Olha, o Pedro, ele era um “perigo” (“Aspas, aspas”, ela recomenda). Ele era um “perigo” porque ele foi um homem extremamente simpático, muito educado, nunca ultrapassou qualquer limite, nunca me ameaçou, sempre me tratou com toda delicadeza. E ele era muito engraçado, ele contava as próprias histórias como ninguém. Era onomatopaico, uma pessoa que fazia a trilha sonora daquilo que estava contando. Então, ele fazia som de tudo: de tiro, de facada, do que a vítima falava… tudo com naturalidade, porque ele tinha certeza de que só havia matado gente que não faria falta pra ninguém.

Também é preciso entender que ele não sentia o menor remorso pelo que havia feito. Nada, absolutamente nada. Ele deixava transparecer até certo orgulho de ter sido quem ele foi.

Então foi difícil para eu controlar minhas indiscrições, porque eu queria que ele falasse mesmo, para que eu entendesse quem ele era. Mas se eu o assustasse, ele poderia recuar, não é? Então, foi difícil para mim ouvir tudo que aquele homem tinha relatado. Mas foi muito rico, porque o Pedro construiu toda a identidade dele em cima dessa lenda do mal. Dessa lenda, dessa pessoa que nem sempre era verdade.

Como assim?

Por exemplo, eu questionei o Pedro sobre a informação de que ele teria matado o próprio pai. E ele acabou se abrindo comigo. Prometendo contar a verdade, ele disse não havia matado o pai, mas que a história sobre isso havia sido muito boa para ele, que assim ganhou o respeito de todos no seu meio. “Todo mundo achava que tinha matado, porém, meu pai não prestava mesmo; se tivesse encontrado ele, eu matava”, me disse Pedrinho. Ele tinha vontade…

Suas entrevistas, com trilha sonora e tudo mais, se transformaram em um realismo fantástico…

Para mim, como pesquisadora, foi de uma riqueza muito importante, porque através das entrevistas com o Pedrinho, eu pude entender muitas outras cabeças de criminosos, que talvez eu não tivesse entendido com tanta clareza. Porque ele era muito objetivo, muito direto, sem meias palavras. Não escondia o que achava certo ou errado. Foi uma entrevista difícil. Estou analisando as respostas dele até hoje.

Agora, vamos inverter os papéis. E eu quero saber o que mais te marcou nesses encontros com o Pedrinho?

Nossa… é difícil escolher uma coisa só porque foi tudo muito marcante. Mas acho que o mais impressionante na conversa era a desenvoltura dele naquele meio. Era a casa dele. A penitenciária foi o grande lar dele pela vida toda. Me impressionou muito como ele conhecia o sistema. Ele era um arquivo vivo. Além disso, era uma pessoa que ficou 16 anos em uma solitária. Ficar isolado de tudo e de todos modifica qualquer ser humano. Você só tem você mesmo para refletir ou como companhia. Então, com toda essa história de violência, de solidão, de maus-tratos, de tudo que acompanhou para sobreviver na cadeia, ele ainda foi o homem que mais tempo sobreviveu preso, conforme eu tive notícia. Então tudo isso foi impactante, impressionante.

Você estudou os principais matadores do País. Qual foi aquele que mais te impressionou pela maldade e pelo número de mortes?

O do dia, o daquele dia. Não dá para fazer essa régua. Sempre aquele que eu estou entrevistando é o pior de todos porque é desse que eu estou dentro da cabeça, que eu vou ter pesadelos, que vou ter que digerir…Não é um lugar fixo. O pior é o que estou passando, é o do momento, que estou trabalhando, pesquisando, lendo, estudando. Esse é sempre o pior…

Ilana, para encerrar. Pedrinho e outros matadores em série seriam pessoas recuperáveis para a vida em sociedade? Que fatores poderiam contribuir para isso?

Uai, o Pedrinho estava vivendo em sociedade. Você não pode dizer que ele não estava recuperado. Ele tinha uma vida normal, trabalho normal, escreveu o livro dele, estava usando as redes sociais. E até ao que a gente sabe, não reincidiu, não matou de novo. Então é possível, porque quando comecei minha carreira, com base no discurso americano, era caso para ser preso ou morto. E eu mesma estive do lado desse discurso. Mas no Brasil, como você tem a progressão de pena, tem-se a oportunidade de ver o que acontece. Você tem, por exemplo, o Monstro do Morumbi – está no meu livro, “Serial Killers- Made in Brasil” -, que foi solto e nunca mais se teve notícia dele. Então eu não posso dizer que não tem recuperação, que não tem ressocialização. A gente não tem, no Brasil, qualquer notícia de um serial killer que tenha sido solto e que tenha reincidido

LEIA TAMBÉM: Pedrinho Matador, o maior serial killer brasileiro, foi tio amoroso e jardineiro em escola de Mogi

Mais noticias

Estilo rústico: 6 dicas para incorporar a tendência na decoração da sua casa

Maternidade de Mogi abre processo seletivo para contratação de equipes de cirurgias pediátrica, ginecológica e obstétrica

Alto Tietê pode ser afetado em R$ 1,1 bilhão após novas taxações de Trump

Veja Também