Professores temem efeitos do retorno das aulas presenciais
O retorno presencial das aulas gerou, em todo o Estado, dúvidas, incertezas e até revolta. Em Mogi das Cruzes não foi diferente. O Sindicado dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), por exemplo, tem visitado escolas para verificar as condições do ensino presencial. A O Diário, dois professores enviaram, anonimamente, depoimentos […]
08/02/2021 18h15, Atualizado há 66 meses
O retorno presencial das aulas gerou, em todo o Estado, dúvidas, incertezas e até revolta. Em Mogi das Cruzes não foi diferente. O Sindicado dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), por exemplo, tem visitado escolas para verificar as condições do ensino presencial. A O Diário, dois professores enviaram, anonimamente, depoimentos sobre o que sentem. Contrários ao retorno antes da vacinação, eles expõem preocupação tanto na esfera particular quanto na pública.
“Passei a primeira semana trabalhando presencialmente depois de ficar em casa todo esse tempo da quarentena e claramente a realidade é assustadora”, diz um professor da rede privada, que enxerga “grande esforço” para a retomada das aulas, mas “nenhuma palavra sobre os cuidados para com a vida”.
Para ele, “a volta das crianças às escolas pode agravar muito os casos de Covid-19 na cidade”. Em um texto extenso, encaminhado no último dia 28 de janeiro, ele explica que “são vários os motivos” que impedem o cumprimento de qualquer protocolo de segurança.
O primeiro deles é, de acordo com o professor, a “não crença da gravidade da doença por parte do corpo docente”, ou seja, por parte dos adultos, o que cria “uma espécie de ilusão de proteção, mas nenhum protocolo é seguido”.
Entre as denúncias de situações vividas por ele, no período de preparo para o início das aulas, estão a falta de distanciamento, a não troca de máscaras no tempo correto, o regular empréstimo de pertences entre professores e a falta de medição da temperatura.
O professor, que não se identifica com medo de sofrer retaliações, continua relatando a dificuldade de ser ouvido. Ele afirma que o corpo docente terá dificuldades de evitar o contato físico com os alunos menores.
“Como os pais ou a direção da escola resolveriam essa situação de “desamor”? Como essa atitude seria vista pela sociedade? Um colega de trabalho toleraria um pedido de respeito aos protocolos ou isso seria visto como imoral, mal educado ou exagero? Como será nosso ambiente escolar onde temos que nos tratar dessa forma tão ríspida para doar cuidados e amor? Quem tem coragem de ser o general chato que vai colocar ordem na casa? Como lidar com a excelência pedagógica tendo que devotar mais da metade do seu dia explicando para as crianças que os cuidados são para com a saúde pública?”, indaga ele.
Visão semelhante é apresentada por uma professora que trabalha na rede pública. “O ensino híbrido e retorno presencial às escolas têm como justificativa tornar o acesso possível à todos”, argumenta ela, que afirma que na prática “não é bem assim”. Sem a imunização de todos os estudantes, professores e funcionários das escolas, ela acredita que “retornar será um ‘holocausto’ consciente, propagação e crescente do número de mortos em massa”.
“A educação deve ser acessível e é dever de todos. Isso não acontece somente em prédios com carteiras. Que diante desse cenário a união se estabeleça e supere a ganância que corrompe, manipula e destrói. Que os meios de comunização oportunizem acesso aos menos favorecidos e os demais procurem tornar possível o ambiente do lar, a interação familiar em qualquer instância enquanto relação e ambiente de aprendizagem”, defende, ao assinar o texto encaminhado no último dia 4 como o “desabafo de uma professora que quer ir adiante para o embate e combate que é ser educador no Brasil”.
Ela gostaria que as escolas fossem abertas somente após vacinação, “para o bem da nação”. Já o primeiro professor sugere a continuidade do ensino remoto, realidade presente na sociedade há quase um ano.
“Ao invés de investir na qualidade, na inovação e na melhora do estudo online, que é a realidade e a grande sacada do momento que estamos, vamos alimentando uma expectativa doentia na cabeça dos pais, das crianças e da sociedade da volta a vida, uma expectativa que pode trazer grandes agravantes para a saúde pública”, encerra ele.