Represas do Sistema Produtor do Alto Tietê sentem o reflexo do período de estiagem
Quem costuma passar por uma das cinco represas que formam o Sistema Produtor do Alto Tietê (Spat) se depara com um cenário que começa a lembrar o da crise hídrica, entre os anos de 2014 e 2015, no estado de São Paulo. Com o nível de chuva abaixo do esperado nos oito primeiros meses do […]
27/09/2021 08h05, Atualizado há 59 meses
Quem costuma passar por uma das cinco represas que formam o Sistema Produtor do Alto Tietê (Spat) se depara com um cenário que começa a lembrar o da crise hídrica, entre os anos de 2014 e 2015, no estado de São Paulo. Com o nível de chuva abaixo do esperado nos oito primeiros meses do ano, o volume de água represado na última sexta-feira estava em 41,2% do conjunto de represas. Na mesma data do ano passado, a operação era realizada com 61,4%, com 20 pontos percentuais acima da realidade atual. O Governo do Estado afirma que apesar da seca, a operação do sistema está dentro da normalidade.
De janeiro a agosto deste ano, o Spat recebeu 654 milímetros de chuva, enquanto o esperado era de 921,5 mm. Ou seja, pluviometria acumulada no período foi 29% menor do que a média histórica de chuva. A situação reflete em todo o sistema que, por ser interligado, tem hoje situações diferentes entre as represas, conforme verificou a reportagem de O Diário ao percorrer o sistema.
Começando por Salesópolis, onde nasce o rio Tietê que abastece o sistema, a represa de Paraitinga, que fica mais próxima ao rio, tem a situação mais complicada e opera com apenas 20,45% da capacidade. O cenário é o mais desolador entre os cinco reservatórios, em que a reserva de água hoje se afastou muito da antiga margem em anos chuvosos. O reservatório foi criado em 2003 com área de inundação de 6,437 km².
A água de Paraitinga chega à represa de Ponte Nova, no limite entre as cidades de Biritiba Mirim e Salesópolis, onde a situação é mais tranquila, com água represada ao volume de 49,4% da capacidade total. Fundada em 1971, a mais antiga e tem capacidade de inundação de 28,078 km².
Continuando o caminho das barragens, a próxima é a de Biritiba Mirim, no limite entre a cidade e Mogi das Cruzes, que mantém água represada em 26,1% de sua capacidade. Por lá havia uma área de cerca de 15 metros até chegar à água. As pessoas que estão acostumadas a frequentar o local, criado em 2001 e com área de inundação de 9,244 km², disseram que a represa havia baixado todo esse espaço desde o ano passado, quando a chuva ficou abaixo do esperado. Nos anos da crise hídrica, os frequentadores disseram que a água reduziu e formou uma mancha de cerca de 50 metros de terra.
A barragem do rio Jundiaí, no distrito de Taiaçupeba, em Mogi, tem um “termômetro” em que é possível acompanhar o nível da represa: um caminho cimentado que atravessa de um lado a outro da represa. Na crise hídrica, os carros voltaram a fazer a travessia no local, o que não é possível hoje, ainda que a água não chegue ao pier de cerca de três metros, que já ficou coberto pela metade em alguns anos de muita chuva. A represa foi criada em 2008 e tem capacidade de inundação de 19,36 km², mas opera com 23,6% de água.
Por fim, o reservatório de Taiaçupeba, na divisa entre Mogi e Suzano, criado em 2008 e com capacidade de inundação de 19,36 km², recebe a água da represa do rio Jundiaí por meio de uma transposição. No ponto de Taiaçupeba, apesar de apresentar uma margem de cerca de três metros a menor do que em tempos de boas chuvas, os 39,79% reservados atuais chegam a parecer até mais.
Primavera será quente e chuvosa
A primavera é conhecida como a estação do ano em que as chuvas voltam a ocorrer na maior parte do país, após o tempo de seca vivenciado no inverno. A nova estação começou às 16h21 da última quarta-feira (22). Segundo a previsão meteorológica da Climatempo, no estado de São Paulo a primavera começa chuvosa, com acumulados acima da média e condições para vários dias de tempo severo e tempestades com granizo, mas, termina com acumulados abaixo da média e as temperaturas mais altas.
Em outubro, a nova estação terá altas temperaturas, que causarão mais chuvas ainda na primeira quinzena do mês, mas de forma irregular, com alguns períodos de calor, principalmente em áreas do interior e norte do estado. A partir da segunda quinzena do mês, a chuva toma forma e as pancadas serão mais frequentes. Conforme a chuva regulariza, o calor extremo diminui.
Novembro será marcado por temperaturas mais próximas à média, intercalando períodos quentes com períodos mais amenos. A chuva fica entre a média e abaixo da média no Vale do Ribeira, leste de São Paulo e também sobre a capital paulista, com pancadas diminuindo de frequência e de intensidade ao longo do mês. No norte do estado, são esperados vários dias de chuva forte.
A tendência para dezembro é de chuvas regulares na primeira quinzena do mês. Na segunda quinzena, as pancadas se tornam mais irregulares, com menos períodos de chuva e acumulados abaixo da média. As temperaturas também voltam ficar mais altas.
Água: uso consciente
Semae e Sabesp descartam crise hídrica no momento, mas alertam para economia
A última atualização do Monitor de Secas da Agência Nacional de Águas (ANA) mostra que a situação de São Paulo seguiu como a mais severa do Brasil em agosto. O estado registrou 14% de seu território com seca excepcional, o grau mais severo na escala do monitor, considerando o noroeste paulista na divisa com o Triângulo Mineiro.
O estado em geral também teve o maior percentual do País com seca extrema: 27%. Essa é a pior condição desde sua entrada no Mapa do Monitor, em novembro de 2020.
O Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) é o responsável pela regularização de usos e interferências em recursos hídricos na Bacia do Alto Tietê, além de possuir uma rede de monitoramento dos cursos d’água. O órgão informou que, desde a última crise hídrica de 2014, a Sabesp realizou obras estruturais nos sistemas integrados da Grande São Paulo que garantiram mais segurança ao abastecimento – como maior interligação entre os mananciais e a construção de um novo sistema, o São Lourenço.
A Sabesp, por sua vez, avalia que a projeção para a Região Metropolitana de São Paulo aponta níveis satisfatórios dos reservatórios para os próximos meses, até o final do ano, quando são esperadas as chuvas de verão.
“Não há risco de desabastecimento neste momento, mas a Companhia reforça a necessidade do uso consciente da água. O sistema que abastece a RMSP, composto por 7 mananciais, é integrado e flexível, o que permite transferências de água entre regiões, conforme a necessidade.
“A Sabesp vem realizando nos últimos anos ações que dão mais segurança hídrica, como a ampliação da infraestrutura, integração e transferência entre sistemas, além de campanhas para o consumo consciente. A interligação do rio Itapanhaú inicia operação no fim de 2021 transferindo 400 litros por segundo (l/s) desse rio para o Sistema Alto Tietê. Até julho de 2022, serão em média 2,0 mil l/s”, informou em nota.
Já o Serviço Municipal de Águas e Esgotos (Semae) detalhou que tem outorga do DAEE que permite a captação de até 1.112 litros por segundo. A autarquia capta uma média de 850 litros de água por segundo. O volume varia conforme a demanda. Quando o fluxo de água no rio é menor, como agora, o Semae tem uma carreira de filtração mais curta. Com isso, o tratamento de água fica mais lento, mas ocorre normalmente.
“Neste momento, não há crise hídrica. A vazão atual do rio é suficiente para captação do Semae e, nas atuais condições, o abastecimento de água é mantido em situação normal de operação. O alerta é para o cenário de estiagem e de possível escassez de água nos próximos meses, e que pode impactar nos níveis de reservação de água das represas. Atento a um possível cenário de escassez de água nos próximos meses, o Semae vem intensificando as ações para evitar desperdícios, como o combate a vazamentos”, detalhou.
Muitas horas e nenhum peixinho
O baixo nível de água acumulada nos reservatórios do Sistema Produtor Alto Tietê (Spat) ocorre em um período que o Brasil enfrenta outra vilã: a inflação nas alturas. Além de prover água, as represas também oferecem peixes. Nessa conjuntura, as margens do Spat recebem ainda mais pessoas que vão em busca de alimento, mas a situação reduz também a oferta de peixes.
Joni Henrique da Silva, de 36 anos, é mecânico mora perto da represa do rio Jundiaí e estava na represa de Taiaçupeba. Ele conta que, diferente da época da crise hídrica de 2014, agora sente que a barragem de Taiaçupeba tem menos água do que a do rio Jundiaí. “Eu vejo nos dois lugares muita gente indo pescar e voltar sem nada ou com os peixes muito pequenos”, diz.
O aposentado Wilson Tochiaki Yano, de 76 anos, deixa Suzano e vai até a transposição das duas conhecidas represas há mais de uma década. A pescaria geralmente é para o consumo da família, mas em época de grande oferta de peixes, ele diz que chega a vender.
Atualmente, ele vai três vezes por semana ao local e mal dá para fazer uma refeição com o pescado. “Aqui já teve muito mais água, geralmente costuma ficar tão alto que a gente não vê as pedras e agora elas já estão até aparecendo. Aí melhora até a qualidade e quantidade de peixe. É só jogar o anzol e pega”, relembra.
Outro exemplo é o da dona de casa Joana Penha dos Satos, de 50 anos, que pesca com o marido e um amigo na represa do rio Jundiaí. Eles moram na Vila Cléo, em Braz Cubas, e vão juntos, de carro. Agora têm pescado cerca de um quilo de peixes por dia cada um, mas isso era conseguido antes com mais facilidade. “Hoje com o preço que está custando um quilo de carne, a nossa saída é vir para cá. Desde de 2016 a gente já vinha, mas até para poder sair de casa um pouco; hoje é por conta da economia mesmo”, ressalta.
Já na represa de Biritiba Mirim estava o casal Ademir e Luci Correia, da Vila Natal. Eles afirmam que, a cada dia, a represa tem reduzido o volume de água acumulado. A esperança é de que, com a chegada das chuvas, a situação volte a melhorar.
“A pescaria está bem ruim, por efeito de muitas pessoas que pescam com rede. Isso acaba com a represa, porque muitas vezes eles pegam peixes que não têm venda. Eu estou desde cedo e não pegamos nenhum peixinho”, conta.
Sistema atende 4,5 milhões de pessoas
O Sistema Produtor Alto Tietê (Spat) foi implantado nos anos de 1970, portanto há 51 anos. Atualmente é formado por cinco represas, que passam por quatro das dez cidades da região: Ponte Nova, no limite entre as cidades de Biritiba Mirim e Salesópolis; Paraitinga na cidade de Salesópolis; Biritiba Mirim entre as cidades de Biritiba e Mogi das Cruzes; Jundiaí em Mogi das Cruzes e, por último, a barragem de Taiaçupeba, entre Mogi das Cruzes e Suzano.
Esse conjunto de represas é responsável pelo abastecimento de 4,5 milhões pessoas, que residem no Alto Tietê e zona Leste de São Paulo. Além disso, a estrutura auxilia no controle de enchentes, irrigação, diluição de esgotos e lazer.