‘Equilibrar o ensino com o preconceito é matar leões por dia’, diz professora trans sobre os desafios em sala de aula
Professora de educação infantil em Salesópolis, Rebeca Barbosa defende a educação como meio de mudar a realidade enfrentada pela comunidade trans no Brasil
31/03/2026 14h01, Atualizado há 11 dias
Rebeca ao lado de um de seus alunos | Reprodução/Arquivo pessoal
O Dia Internacional da Visibilidade Trans é celebrado nesta terça-feira (31). Nesse dia, são histórias como a de Rebeca Barbosa Marcondes, de 33 anos, que mostram caminhos possíveis de transformação por meio da educação e da ocupação de espaços públicos.
Rebeca foi a primeira mulher trans eleita para o Conselho Tutelar de Salesópolis e, posteriormente, vereadora no município. Após o encerramento do mandato, passou a atuar como professora na educação infantil.
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“Acredito plenamente que a educação é transformadora. Como dizia Paulo Freire, não é apenas a pedagogia aplicada em sala de aula, mas também aquilo que se ensina sobre respeito e empatia”, afirma.
Essa transformação de mentalidade se faz ainda mais necessária quando se observa um panorama geral das dificuldades enfrentadas por pessoas trans. A expectativa de vida média de um brasileiro, por exemplo, é de 76,6 anos, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). No caso de pessoas trans, essa expectativa cai pela metade por conta de atos de violência e discriminição.
Segundo um levantamento publicado em 2026 pela Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), a população trans brasileira sofre um extermínio precoce. No Brasil, a expectativa de vida média de pessoas desse grupo é de somente 35 anos.
Em 2025, de acordo com a entidade, o Brasil registrou 80 casos de assassinato contra pessoas trans e travestis. Considerando apenas os 57 casos onde as vítimas tiveram a sua idade registrada, a violência contra as pessoas mais jovens fica ainda mais em evidência.
Ao todo, 31 casos foram cometidos contra pessoas que tinham entre 18 e 29 anos, o equivalente a 54% dos casos com idade da vítima registrada. Na faixa de 30 a 39 anos, foram registradas 16 ocorrências (28%). Os números caem para 8 casos entre pessoas de 40 a 49 anos (14%) e apenas 1 caso entre 50 e 59 anos (2%). Vale mencionar que não houve registros de vítimas com mais de 60 anos no período analisado. Entretanto, segundo a entidade, a ausência de pessoas idosas nas estatísticas não indica uma maior segurança, mas evidencia que poucas pessoas do grupo conseguem atingir a velhice no país.
E é por conta desse cenário, que para lidar com o cotidiano, é necessário um equilíbrio entre o ensino e o enfrentamento de críticas externas. “Equilibrar o ensino com o preconceito é matar leões por dia”, ressalta Rebeca.
Para ela, os estudantes buscam no professor não apenas conhecimento, mas também referências de convivência e respeito. Ela destaca que seu trabalho tem como objetivo formar cidadãos que não reproduzam comportamentos de desrespeito no futuro.
“Tenho certeza de que esses cidadãos serão pessoas que não irão desrespeitar professoras Rebecas, faxineiras Rebecas, advogadas ou secretárias Rebecas”, disse. “Você estar na sala de aula é você mostrar a tua competência. Às vezes, a imagem de uma pessoa trans para essas pessoas, que tem um entendimento limitado e esquecem de analisar o seu valor como ser humano, é ruim. Então ser referência para as jovens, que olham para você e enxergam em você um ser humano que está ali para passar conhecimento, é maravilhoso.”
*Daniel Angel é estagiário e escreveu esta reportagem sob supervisão de O Diário