‘Animais de estimação podem contribuir significativamente para a saúde mental’, afirma psicóloga
Rafaella Moraes, especialista em serviços assistidos por animais, destaca que a convivência entre pets e tutores pode ajudar a reduzir sentimentos de solidão
13/06/2026 08h00, Atualizado há 11 horas
A convivência com pets pode trazer diversos benefícios para a saúde mental | Foto: Divulgação
A convivência com pets pode ajudar a reduzir sentimentos de solidão, promover momentos de lazer e estimular a criação de rotinas saudáveis, explica Rafaella Moraes, psicóloga e professora universitária especialista em tratamento assistido por animais.
“Os pets oferecem apoio emocional sem julgamentos, promovem distração de pensamentos negativos e incentivam atividades como caminhadas e interações sociais, que também estão relacionadas à melhora da saúde mental. Embora não substituam tratamento psicológico ou psiquiátrico, podem atuar como importantes fatores de proteção emocional”, afirma Rafaella.
Ela destaca ainda que gestos simples, como acariciar um cão ou gato, podem promover a liberação de substâncias relacionadas ao bem-estar, como a ocitocina, e contribuir para a redução dos níveis de cortisol, hormônio associado ao estresse.
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Os benefícios apontados pela especialista são sentidos pelo estudante de desenvolvimento de sistemas, Caio Moura. Ele conta que decidiu adotar um animal de estimação justamente após uma recomendação de sua psicóloga, com quem trata um quadro de transtorno de ansiedade generalizada e depressão. “Eu sempre tive muita dificuldade com demonstração afetiva e com o toque de qualquer outra pessoa. A Flora [gata] me ajudou muito a quebrar essa barreira e continua me ajudando cada vez mais”.
Morador de Suzano, ele explica que encontrou sua companheira de quatro patas em uma feira de adoção na cidade há 9 meses e, desde então, não se separaram mais. Segundo Caio, a felina ajudou a reduzir a ansiedade e a frequência das crises. “Hoje, com ela do meu lado, me sinto muito mais leve”, afirma o estudante.


A história se repete na família
O impacto positivo da convivência com pets também marcou a vida de outra integrante da família, a enfermeira Bianca Cristina, irmã de Caio. Ela conta que precisou deixar sua cadela sob os cuidados da mãe após se mudar para um apartamento, que não oferece espaço adequado para um cão de grande porte. Apesar da mudança, Bianca faz questão de visitar a companheira de quatro patas todos os fins de semana.
Ela conta que viveu um período de grandes transformações após ter se mudado, marcado pelo término da faculdade de enfermagem, a busca de uma oportunidade na área e o casamento. “Meu marido saía para trabalhar durante o dia, e eu passava muitas horas sozinha em casa. Como ainda estava me adaptando à nova rotina e a todas as mudanças que haviam acontecido em pouco tempo, a sensação de solidão era bastante presente”, relata. Foi nesse cenário que o gatinho Cacau surgiu na vida dela.
O animal foi resgatado das ruas por ela e pelo marido, Raphael Kenji, em fevereiro deste ano, quando entrou no condomínio em que o casal vive. Ela conta que, ao se aproximar para chamá-lo, imaginou que ele fugiria, mas o gato reagiu de forma oposta: caminhou até os dois, pediu carinho e passou a segui-los. Segundo Bianca, embora não planejassem adotar outro animal naquele momento, foi impossível resistir ao felino.
Diagnosticada com ansiedade e depressão, ela realiza acompanhamento psicológico e psiquiátrico, mas conta que a chegada de Cacau também ajudou a diminuir a solidão.
“O Cacau me fez muito bem porque me ajudou a ficar mais ativa no dia a dia. Cuidar dele me dava um motivo para me levantar, manter uma rotina e me ocupar. Junto com o tratamento e os medicamentos, ele acabou sendo uma parte importante da minha recuperação. Com o tempo, fui recuperando o interesse pelas atividades que sempre gostei de fazer. Voltei a ler, a me dedicar aos meus hobbies e a sentir mais prazer nas pequenas coisas do cotidiano”, afirma Bianca.
Segundo a psicóloga Rafaella, isso acontece pois a relação entre tutor e animal costuma ser marcada pelo afeto incondicional, o que pode trazer conforto em momentos difíceis. “Um dos aspectos que ajuda a explicar os benefícios emocionais da convivência com animais é a chamada Teoria do Elo. Essa teoria sugere que vínculos positivos com os animais podem favorecer o desenvolvimento da empatia, do cuidado, da responsabilidade e das habilidades sociais. Assim, o vínculo com um pet pode se tornar uma importante fonte de apoio emocional e de fortalecimento das conexões afetivas”, explica a profissional.


Alerta
Apesar dos benefícios, a psicóloga faz um alerta: os pets podem ser grandes aliados no processo de recuperação, mas não substituem o tratamento realizado por profissionais qualificados.
“Existem situações em que a ajuda profissional se torna indispensável. Alguns sinais de alerta incluem: tristeza persistente por semanas ou meses, ansiedade intensa que interfere na rotina, crises de pânico, alterações significativas no sono ou no apetite […] Nesses casos, é fundamental procurar acompanhamento psicológico e, quando necessário, psiquiátrico”, explica a especialista.
