A Festa é um ato revolucionário, diz a pesquisadora Neusa Mariano
Vem de uma reflexão feita pela professora Neusa de Fátima Mariano, autora da pesquisa Divina Tradição ilumina Mogi das Cruzes – O Espírito Santo faz a a festa, concluída em 2007, após quatro anos de pesquisas e visitas à cidade, uma consideração sobre os caminhos da Festa do Divino durante e após a pandemia. Ela […]
16/05/2021 09h49, Atualizado há 61 meses
Vem de uma reflexão feita pela professora Neusa de Fátima Mariano, autora da pesquisa Divina Tradição ilumina Mogi das Cruzes – O Espírito Santo faz a a festa, concluída em 2007, após quatro anos de pesquisas e visitas à cidade, uma consideração sobre os caminhos da Festa do Divino durante e após a pandemia. Ela lembra que, quando estudava sentidos como os da espetacularização e a mercantilização desta manifestação de cultura popular, perguntava aos festeiros e devotos: O que fariam, se não houvesse o patrocínio para a organização? A resposta era “a gente é quem faz a festa”, ou seja, “enquanto ela for importante para a população, ela será realizada”. Para a professora da Universidade de São Paulo, em São Carlos, a Ufscar, o festejo cria um movimento dialético de resistência, com a adoção de alternativas como as rezas pelas redes sociais. Confira:
Por que pesquisar a Festa do Divino de Mogi?
Meu interesse era a cultura caipira, e surge a inspiração dos relatos do sociólogo José de Souza Martins, sobre a cultura capira no espaço urbano. Em Mogi, era uma cultura popular, não caipira, mas em alguns distritos, como Biritiba Ussu, ela tinha essa escala, apesar de o lugar também estar na Região Metropolitana de São Paulo. Eu encontrei a constitução e manutenção de uma festa rica para cultura caipira, diante de um processo de urbanização, já que Mogi possuía fábricas e rodovias. Fui conhecendo Mogi e pessoas que tenho amizades até hoje.
Após 2007, acompanhou a Festa?
Um pouco de longe, por causa de outros projetos, mas voltei à Entrada dos Palmitos, em 2017. E, por não estar atenta à pesquisa, tive um olhar mais livre e aberto. A fila do afogado era maior, mais tempo de espera. A partilha do alimento estava mais organizada e elaborada. Era um público maior do que há dez anos.
Por que cresceu tanto?
Eu sentia, quando conversava com o professor Miled Cury Andere, os professores Josemir e Jurandyr Ferraz de Campos. No geral, que essas pessoas queriam trazer para o presente o que era tão bom e foi vivido, no passado, quando eram mais jovens. Os olhos deles tinham esse interesse, do retorno ao passado, mas havia outros elementos, a devoção, a fé, o mercado, a visibilidade, até a vaidade, que começa a ser acentuado com o crescimento, a chegada dos grandes patrocínios de empresas, como a GM, a Suzano, que viam na Festa, uma forma de ganhar visibilidade. Você via, por exemplo, o Divino entrando na universidade, nas instituições, onde o reitor ia receber a folia, era uma maneria de se tornar visível, e de resgatar, também, para pessoas, a família, o tradicional, a memória da infância. Esses estímulos foram construindo a espetacularização. Por isso, em cada escola, foi criado um subimpério, e não mais um altar ou império único. As pessoas passaram a se sentir valorizadas e a cultura popular, que não está conectada à pomposidade da Festa, tem seu merecimento. As pessoas passam a pertencer à cidade, a fazer parte deste cotidiano.
Por isso, esse poder de atração.
Mas, o que eu acho interessante em Mogi das Cruzes é que, apesar dessa espetacularização, do mercado, da mercantilização da Festa, e de a população seguir firme e cuidando de sua devoção, esse fortalecimento é contraditório, porque a população se apropria do belo, sem, por exemplo, criar uma rede para receber o turista, o que vem de fora. Essa população se apropria do ‘belo’ e da força da divulgação nos meios de comunicação da cidade, e se mantém no campo da cultura popular. Aos domingos, durante a pesquisa de doutorado que eu fazia, com parceria com o antropólogo Herbert Rodrigues, que também pesquisava para o mestrado, não tinha restaurante aberto para quem se hospedava no único hotel perto da Catedral.
É uma festa para o mogiano?
É uma contradição, havia esse desejo de se fazer uma Festa o mais espetacular possível, mas o trajeto é de costume, é trajeto popular, que todos já sabem: esse é o espetáculo.
A pandemia rompe essa toada?
Eu penso na Festa do Divino, e em outras, nesse movimento dialético de resistência, porque, quando eu perguntava para as pessoas se não tiver patrocinio, a resposta era: a gente que faz a festa, ou seja, enquanto ela for importante, ela vai acontecer. A dificuldade do presencial é substituída pelas lives. Não é a restrição, ou a falta do dinheiro que impedirá, ela vai acontecer conforme é possível, mesmo que simbolos mudem, não pode fazer o beijamento da bandeira, o importante é ter a bandeira, eu quero acender uma vela, e pode ser eletrônica, vale aquilo que se coloca no objeto, a intecionalidade da coisa. A Festa transmite, a utopia do Espírito Santo, de um mundo melhor, é um ato revolucionário.