Artistas comentam a Cultura ideal para Mogi
Em Mogi das Cruzes, a Casa do Hip Hop foi inaugurada em 2014. No ano seguinte, foi a vez do Centro Cultural e do Estúdio Municipal de Áudio e Música (Emam). Em 2016, a Lei nº 7.222, que diz respeito ao Programa de Fomento à Arte e Cultura (Profac), foi instituída. Importantes ferramentas para a […]
04/12/2020 14h30, Atualizado há 66 meses
Em Mogi das Cruzes, a Casa do Hip Hop foi inaugurada em 2014. No ano seguinte, foi a vez do Centro Cultural e do Estúdio Municipal de Áudio e Música (Emam). Em 2016, a Lei nº 7.222, que diz respeito ao Programa de Fomento à Arte e Cultura (Profac), foi instituída. Importantes ferramentas para a Cultura da cidade, elas têm uma característica em comum: passaram a existir durante a gestão de Mateus Sartori na Secretaria Municipal de Cultura. Atual chefe da pasta, ele deve deixar o cargo no próximo ano, quando Caio Cunha (PODE) assumir a Prefeitura.
Sartori desempenha a função desde 2013 e, claro, não recebe apenas elogios da classe artística. Entretanto, o grupo concorda ao dizer que foi fundamental ter a posição ocupada por alguém com conhecimento técnico – ele é especialista em Cultura: Plano e Ação e Gestão de Cidades – e que pôde entender melhor as demandas. Mas enquanto alguns artistas mogianos destacam o diálogo que o secretário possibilitou nos últimos anos, há quem diga que as conversas não foram tão amplas assim.
Para o próximo governo, o desejo é de que a Cultura alcance mais lugares da cidade e não se limite apenas à região central. Além disso, pautas como as mulheres e a negritude precisam ganhar mais espaço no cenário de Mogi. Confira a seguir o que dizem os artistas:
Mais espaço aos negros e mulheres
Ao falar dos últimos anos da Secretaria Municipal de Cultura, a cantora e compositora Lívia Barros, 36 anos, tem uma certeza: Mateus Sartori foi o melhor gestor que a pasta já teve. Além dos conhecimentos dele, ela destaca a equipe diversificada – formada, por exemplo, por representantes negros e LGBT – que tem atuado na Cultura mogiana. Ainda assim, ela cobra que a negritude deve ser colocada mais em destaque e que o espaço para as mulheres deve ser mais amplo.
“Eu acho que essa gestão foi a única coisa que deu certo no governo Marcus Melo, então eu gostaria que isso se mantivesse de alguma forma. Até mesmo que o Mateus continuasse no cargo. A Secretaria organizou muito bem a Lei Aldir Blanc, apesar de agora surgir uma cobrança de impostos, mas também trabalhou bem com o Emam e com o Centro Cultural e deu bastante utilidade ao Teatro Vasques”, pontua.
Para o futuro, Lívia, que está na música há 16 anos, gostaria que oficinas fossem levadas para as periferias. A medida, além de formar e incentivar os jovens e descentralizar as ações de cultura, poderia dar um trabalho com salário fixo para os artistas, que não teriam que depender “apenas do bar”, na opinião da cantora.
“Mas a cidade também precisa discutir negritude. Somos uma cidade de 460 anos que é negra, formada pela população indígena e centro-africana e essa população não tem respaldo cultural, não acessa informações sobre a própria cultura. É preciso olhar também para as mulheres, porque produzem muita arte de forma organizada e precisam de espaço. É necessário ainda atender aos jovens periféricos. As mães precisam que as crianças tenham uma ocupação e a cultura precisa conversar com educação”, finaliza.
Diálogo não foi tão amplo assim
Ator, diretor teatral e gestor cultural, Manoel Lucena Mesquita Jr., 47 anos, está envolvido com a Cultura de Mogi das Cruzes há 27 anos. Nos últimos anos da Secretaria Municipal, que teve Mateus Sartori à frente, ele viu um diferencial: após muito tempo a pasta teve uma pessoa técnica no comando, o que ele vê como uma vitória em geral e que não pode deixar de acontecer no governo de Caio Cunha (PODE). Ainda assim, ele faz duras críticas à gestão de Sartori e diz que o diálogo não foi tão amplo quanto o prometido.
“Infelizmente a gente continua com um problema, que é o mesmo de sempre, que é a questão da participação popular. Primeiro o poder público precisa entender que não basta atender só algumas pessoas. Quando Mateus entrou pensamos que teria diálogo maior e até se desenvolveu um mecanismo para isso, mas não houve um diálogo assertivo”, revindica.
O Galpão Arthur Netto, que era administrado por Manoel, fechou as portas em 2019. O mesmo aconteceu com outros lugares, como foi o caso do Casarão da Mariquinha. O ator revela que em nenhum momento a Prefeitura disponibilizou apoio para que esses espaços continuassem a funcionar.
Outra crítica diz respeito ao Conselho Municipal de Cultura, grupo que deveria ser fiscalizador, mas que na opinião de Manoel está cada vez mais alinhado ao poder público no sentido de não ir contra qualquer demanda. “Nesses meus anos envolvidos com a Cultura fiz políticas públicas de maneira independente. Existem coisas estruturais que ainda precisam mudar”.
Uma secretaria da juventudade
Dos 38 anos que tem de vida, Fabrício Cruz, conhecido como Bozer, dedicou 22 ao grafitti. Em Mogi das Cruzes, acredita que foi durante a gestão de Mateus Sartori que pôde promover mais a sua arte. Recentemente, ele pintou um grande mural que pode ser visto próximo ao Terminal Central e também os muros da Casa do Hip Hop. Mesmo com a visibilidade, ele entende que a cidade ainda precisa avançar no âmbito cultural.
Bozer ressalta que, além de ser muito grande, Mogi é um município com muitos talentos. Ele defende a criação de uma Secretaria da Juventude para que fosse possível formar jovens interessados pela Cultura. Além disso, seria uma maneira de levar projetos à periferia. “A gestão do atual secretário foi muito boa e com o bom diálogo que tivemos eu tive um grande respaldo para propagar o grafitti. O Mateus é um cara muito diplomático e do bem e eu não tenho do que reclamar. Mas é claro que algumas coisas ainda precisam ser feitas e é o que esperamos da próxima gestão. Hoje, temos o Profac como programa de fomento, mas precisamos ter mais”, opina.
O artista tem esperanças de que o novo prefeito, Caio Cunha (PODE), dê atenção especial à Casa do Hip Hop. Em 2015, o então vereador foi autor do projeto que criou a “Semana do Hip Hop”. Na ocasião, ele disse que o espaço desempenha importante papel na disseminação da cultura e dos valores artísticos do estilo”.
Uma urgência: formar o público
Na coordenação da Escola de Artes AJPS desde 2001, quando ela foi fundada, a produtora cultural Rita Bonfim, 52 anos, destaca duas ferramentas surgidas: o Estúdio Municipal de Áudio e Música (Emam) e o Programa de Fomento à Arte e Cultura (Profac). Ela ressalta que as políticas públicas implantadas durante os anos em que Mateus Sartori esteve na Secretaria Municipal foram fundamentais para a Cultura e teme que isso seja perdido com uma nova gestão.
“O Mateus preparou a cidade para receber mais editais e mais amparo no setor cultural. Isso é um processo demorado, porque as pessoas demoram para saber que as políticas públicas existem e para começar a usufrui. É um trabalho de formiguinha e nos últimos anos ele vem fazendo isso. Hoje, o setor está muito preocupado para onde vão essas políticas e o que vai ser feito com elas, porque perder isso seria muito ruim. Tudo isso é muito difícil de construir, mas muito fácil de acabar”.
No Emam, o grupo Charanga, formado na escola, gravou seu primeiro EP. O Profac já contemplou por duas vezes a otimização das atividades do espaço. Rita explica que apesar de ter outros parceiros – recebendo verba da iniciativa privada – os editais são fundamentais para dar continuidade ao trabalho.
“Precisamos pensar é na formação de público. A gente precisa despertar para a cultura, porque a gente faz, mas cadê publico para assistir e sentir falta quando não tiver?”.