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Acidentes na Mogi-Salesópolis amedrontam moradores: em dois anos e meio, 46 morreram

Em dois anos e meio, ao menos 46 pessoas morreram na rodovia Mogi-Salesópolis em acidentes que apavoram moradores e trabalhadores pela assiduidade, gravidade dos casos e a negligência do poder público. Mesmo diante de cobranças,  pedidos de melhoria dos instrumentos de segurança e controle da velocidade não se realizaram. Em grande parte das tragédias, as […]

22 de julho de 2023

Reportagem de: O Diário

Em dois anos e meio, ao menos 46 pessoas morreram na rodovia Mogi-Salesópolis em acidentes que apavoram moradores e trabalhadores pela assiduidade, gravidade dos casos e a negligência do poder público. Mesmo diante de cobranças,  pedidos de melhoria dos instrumentos de segurança e controle da velocidade não se realizaram. Em grande parte das tragédias, as vítimas perderam a vida na hora ou a caminho do hospital. 

O acesso entre as três cidades possui trechos conhecidos pela frequência de mortes, sobretudo no território entre Mogi das Cruzes e Biritiba Mirim, porém, há casos desse ponto até Salesópolis. 

No último final de semana, o mais recente acidente matou dona Margarida de Souza Conceição, de 69 anos, moradora em Salesópolis e mãe do padre Lauro Donizete que segue internado (veja abaixo). 

O religioso que vive na Itália e está em férias no Brasil, ficou preso às ferragens no acidente envolvendo três veículos, nas proximidades da área conhecida como Tanaka, denominação da propriedade que vende verduras embaladas, próximo a um “retão”, onde motoristas desenvolvem a velocidade e costumam perder a direção na curva acentuada.

O mapa da morte e perigo é conhecido dos moradores por causa da localização de endereços populares, como a curva do Shigueno (a granja), no quilômetro 87, onde há uma curva com quase 90 graus. 

Ali, conta o morador, barbeiro e vereador, Mauro Yokoyama, do PL, as colisões e derrapagens são comuns em dias de chuva e pista molhada. “Os carros derrapam, invadem a outra pista, talvez por causa de algum óleo porque passam muitos caminhões por essa estrada”, diz.

Ele confessa o desânimo com o abandono do governo do Estado, desde 2021, quando a fiscalização eletrônica foi retirada e outros mecanismos passaram a ser cobrados (reforço de sinalização, policiamento e lombada). Não houve sucesso.

Além de moções endereçadas aos dois governadores – o ex, Rodrigo Garcia, do PSDB, e o atual, Tarcísio de Freitas, do Republicanos, e encontros com representantes do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), e pedidos a deputados estaduais, como Marcos Damasio (PL), na prática, nada mudou no trecho desde a alta dos acidentes com vítimas fatais. “A gente desanima, mas não posso ficar assim, os moradores cobram, continuo cobrando”, insiste.

De memória, o vereador aponta os locais onde cruzes – como as colocadas na Estrada das Varinhas, outra campeã de tragédias, poderiam indicar  a prevalência dos graves.

Logo após a curva do Shigueno, está a proximidade da EE Sentaro Takaoka, onde, infere o vereador, “por sorte e graças a Deus” nenhuma ocorrência foi registrada até agora com os estudantes que descem dos ônibus para ir à aula. Nessa parte, já funcionou um radar.

Bem mais adiante, em frente à EE Helena Ricci Barbosa, no quilômetro 18, está outro local crítico para crianças e adultos.

Na entrada da Estrada do Capixinga são comuns acidentes. Ali, caminhões carregados ou descarregados de verduras circulam e, também há um “trecho reto seguido de uma curva de uns 80 graus”. Casos de carros e motos que param do outro lado da pista são frequentes. Motociclistas fatalmente já terminaram atingindo caminhões.

Além de ciclistas e pedestres, entre as vítimas graves ou fatais, estão motociclistas, que são “uma grande parte dos que morreram”, alerta o vereador, chamando atenção ainda para os casos envolvendo ciclistas. 

No passado, o DER já esboçou a construção de uma rotatória, na entrada do Capixinga. Porém, assim como a promessa de reativação do radar eletrônico, a obra que poderia ampliar a segurança repousa em alguma gaveta.

Yokoyama afirma que irá, novamente, solicitar uma audiência com representantes do DER. Provocado se agora o resultado será outro, o vereador não vê outra saída: “O que nos resta é cobrar”, e também emenda: “E pedir para as pessoas reduzirem a velocidade”.

O mesmo tem sido expresso em respostas protocolares do DER nos últimos 24 meses – período em que a fiscalização eletrônica terminou e a morte muda a rotina do acesso entre as três cidades a qualquer hora do dia.

 

Padre segue internado

O padre Lauro Donizeti Conceição, 49 anos, continua internado no Hospital Luzia de Pinho Melo, e será submetido a uma cirurgia no fêmur de sua perna direita, fraturado durante o grave acidente ocorrido no início da noite da última sexta-feira (14), na ligação rodoviária Mogi das Cruzes-Salesópolis (SP-88), nas proximidades do Cocuera. Naquele dia, o veículo em que viajava com sua mãe e irmã, foi atingido por um carro que se perdeu numa curva e bateu na lateral de outro veículo de passeio, vindo a colidir de frente com o automóvel do religioso.

No acidente, faleceu dona Margarida de Souza Conceição, 69 anos, que viajava no banco de trás do Fiat, parcialmente destruído. O padre Lauro ficou preso entre as ferragens do carro e teve de ser retirado com ajuda de profissionais do Corpo de Bombeiros e do Samu, que atenderam à ocorrência, e levado para o Hospital Luzia de Pinho Melo, no bairro do Mogilar. A outra ocupante, Benedita Eliete Conceição, irmã do religioso, que conduzia o veículo, sofreu ferimentos leves e foi liberada na manhã do dia seguinte, após passar a noite sob observação, no hospital.

Enquanto Eliete recebia alta, sábado (15), e partia para Salesópolis, onde mora a família, para ajudar os irmãos a preparar o sepultamento de sua mãe, o padre Lauro continuou hospitalizado e na tarde daquele mesmo dia foi submetido a um procedimento para alongamento do fêmur direito, que teria se deslocado na direção da bacia, em razão do impacto causado pela colisão do Audi, que antes havia atingido um carro Honda, na sequência do acidente.

Apesar de abalado, especialmente pela morte da mãe, sepultada no domingo (16), pela manhã, no Cemitério Municipal de Salesópolis, o padre permaneceu internado com a perna imobilizada e cuidada para que o fêmur voltasse ao seu lugar de origem.

Durante a semana, ele foi informado que seria submetido a uma cirurgia, na próxima quarta-feira (26), como parte do processo de recuperação da perna e de seus movimentos. 

Enquanto permanece internado, padre Lauro – que vinha sendo acompanhado pelo padre João Paulo da Silva, da Vila Industrial e, no começo da semana viajou para um curso previamente agendado no Rio de Janeiro –, vem recebendo, a cada dia, a visita de um sacerdote da Diocese de Mogi das Cruzes, que lhe oferece a Eucaristia e conversa com ele, buscando passar otimismo para o religioso, diante de tantas dificuldades.

Nos últimos dias, padre Lauro e outros integrantes da Diocese têm recebido telefonemas de amigos e dirigentes da Diocese de Avezzano, na Itália, onde ele prestava serviços, antes de viajar para o Brasil, de férias. 

Todos eles preocupados com o estado de saúde do padre natural de Salesópolis que passou os dois últimos anos morando na Itália, onde cursa mestrado em Teologia Espiritual, em uma universidade de Roma.

Durante esse tempo, o sacerdote residiu na pequena comunidade de Pereto, enquanto prestava serviços à Diocese de Avezzano, na região dos Abruzos, com cerca de 43 mil moradores, nos arredores de Roma.

Em razão da cirurgia a que deverá ser submetido, o padre ainda não tem previsão de receber alta médica. Só depois da operação é que os médicos poderão avaliar quando ele poderá deixar o hospital, ou se haverá necessidade de novas cirurgias. Depois disso, terá de passar por um longo período de fisioterapia.

 

DER diz que a estrada é sinalizada

Neste ano, segundo o Detran-SP, com base no Infosiga, serviço que reúne dos dados de acidentes de trânsito no Estado, de janeiro e junho deste ano, 125 acidentes ocorreram na Mogi-Salesópolis (SP-88), com seis mortes – nesta conta, ainda não está somada a vítima mais recente.
Do total de acidentes, entre  Mogi das Cruzes, Biritiba Mirim e Salesópolis, foram 85 acidentes sem vítimas fatais.
Por meio de nota, o Estado destaca que SP tem “um dos maiores programas de redução aos sinistros de trânsito do Brasil, o Respeito à Vida”, que já utilizou R$ 280 milhões, oriundos das multas de trânsito, em ações preventivas e sinalização em municípios paulistas.
Já o DER, não trouxe nova informação sobre a retomada da fiscalização eletrônica. Disse que “as rodovias mencionadas atendem às necessidades de tráfego com sinalização de solo, bem como placas que indicam a velocidade permitida”. Além disso, afirma que monitora o tráfego e condiciona novas medidas “caso seja constatada a necessidade de intervenções para melhorias na segurança dos usuários, outras ações serão tomadas”.

Prefeituras

O Diário buscou posicionamento dos prefeitos de Biritiba Mirim e Salesópolis, sobre os acidentes na estrada usada pelos moradores destas cidades. Não houve resposta.

Já em Mogi das Cruzes, o secretário Caio Luz, de Mobilidade Urbana, afirmou que a Prefeitura mantém bom diálogo com o DER e se colocou à disposição para a realização de estudos sobre medidas possíveis de serem adotadas no trecho. Luz não apontou quais poderiam ser essas medidas, alegando que a responsabilidade pela estrada é do DER, que tem expertise no assunto. Ele destacou ainda que, em vias municipais, os acidentes estão em queda.

 

A SP-88 é formada por três estradas em 97 quilômetros

Rodovia Pedro Eroles – Mogi-Dutra
Entre Arujá e Mogi das Cruzes com 8 quilômetros
Entre a Rodovia Ayrton Senna e Mogi das Cruzes – 10 quilômetros

Rodovia Alfredo Rolim de Moura – Mogi-Salesópolis – 41 quilômetros
Entre a Avenida Miguel Gema, Biritiba Mirim e Salesópólis

Estrada de Pitas
Entre Salesópolis e a Rodovia dos Tamoios, em Paraibuna – 38 quilômetros

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