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Aos 99 anos, médico Nobolo Mori ensina como ter qualidade de vida

“Ele é elétrico”. A definição da recepcionista do Hospital Ipiranga se ajusta perfeitamente ao personagem de olhos puxados, estatura mediana, cabelos ralos e lisos, fala rápida e sempre sorridente, que acaba de ingressar no hall do prédio, onde é conhecido e reverenciado por todos. De diretores e médicos até os mais simples funcionários e pacientes, […]

Por O Diário
09/12/2022 14h55, Atualizado há 44 meses

“Ele é elétrico”. A definição da recepcionista do Hospital Ipiranga se ajusta perfeitamente ao personagem de olhos puxados, estatura mediana, cabelos ralos e lisos, fala rápida e sempre sorridente, que acaba de ingressar no hall do prédio, onde é conhecido e reverenciado por todos. De diretores e médicos até os mais simples funcionários e pacientes, todos o conhecem pela simpatia, alegria e vitalidade que esbanja.

Cumprimentando um a um, ele segue em direção ao elevador, mas poderia perfeitamente usar a escadaria, como costuma fazer, de vez em quando, desafiando seus acompanhantes pela rapidez com a qual vence, em segundos, três ou mais lances de degraus. As pernas continuam firmes, assim como o resto do corpo e a mente privilegiada.

Em poucos minutos de entrevista, desfia uma série de datas e fatos, lembrados sem esforço ou titubeio.

Aos 99 anos, prestes a serem completados em 6 de janeiro, o médico Nobolo Mori esbanja saúde e disposição, graças a uma rotina que combina alimentação saudável, prática diária de esportes e estudos sobre a essência da vida, que o leva a pregar um mote sempre lembrado por ele, ao longo da entrevista: 

“Fazer o bem e ajudar as pessoas, nos aproxima de Deus”, garante ele, em meio a histórias e lembranças de uma vida marcada pelo trabalho e empreendedorismo, que inclui uma passagem pela política, como vice-prefeito de Mogi, ao lado de Waldemar Costa Filho, em seu terceiro e penúltimo mandato na cidade.

A história de Nobolo começa no Japão, com a vinda para o Brasil, do casal Keshi e Tossuka Mori, respectivamente, no segundo e terceiro navios que trouxeram os imigrantes japoneses. Já casados, os dois foram viver no interior de São Paulo, num lugarejo denominado Córrego Seco, onde derrubaram 40 alqueires de matas para formar as lavouras de café, principal cultura da época.  Lá, ele nasceu e permaneceu até os 14 anos, quando se mudou para Birigui, cidade mais próxima, onde estudou o antigo curso primário e também o ginásio. 

Em seguida, transferiu-se para o Colégio Paulistano, na Capital, por determinação dos pais. “Papai manda, você obedece”, lembra ele, que acabou indo parar no Rio de Janeiro, onde se formou em Medicina, em 1956, na antiga Universidade do Brasil, fundada pela Princesa Isabel.
A essa altura, a família já havia se transferido de Birigui para Mogi. Após um ano de residência médica no Rio, Nobolo veio viver com os pais e começou a clinicar. A cidade, à época, tinha só mais três médicos, mas nenhum deles era cirurgião, a especialidade que tornaria famoso o recém-chegado.

“Eu operava de tudo, de hérnia e garganta, até estômago e esôfago, o que necessitasse”, lembra. Virou um craque no bisturi, a ponto de hoje não se lembrar mais de quantas cirurgias fez durante a vida, muito menos da quantidade de crianças que ele ajudou a nascer em Mogi.

Numa época sem planos de saúde ou SUS, tudo era pago em dinheiro e ele trabalhava tanto que logo, incentivado por um amigo dos tempos de faculdade, decidiu abrir o seu próprio hospital. Comprou um terreno, “onde era só capoeirão” – na altura da atualmente movimentada rua Ipiranga, e com ajuda de um arquiteto amigo, de sobrenome Kobayashi, montou uma estrutura de sete andares, numa época em que os hospitais não iam além de quatro, para não terem de gastar com elevadores, então uma exigência legal para os prédios mais altos.

Àquela época, Nobolo já era casado com Mieko, médica como ele, “que muito me ajudou”, lembra ele.

“Havia muitos amigos médicos trabalhando aqui e eu operava dia e noite. Até quem não podia pagar. Operava os japoneses que pagavam o que eu cobrava, me davam um dinheiro a mais e ainda agradeciam”, recorda-se, ele, divertido.

À medida que o hospital ia crescendo, Nobolo já encontrava tempo para outras atividades, mesmo mantendo a rotina como cirurgião. E foi então que, empolgado pelas ideias de Chiruko Hiroike, um pesquisador japonês de ciências humanas e sociais, decidiu trazer para Mogi os conceitos de Moralogia, uma ciência que enaltece a importância da elevação do caráter e as práticas morais visando ao aprimoramento interior do homem.

Para transferir para mais pessoas tais ensinamentos, Nobolo implantou, em meio à Serra do Itapeti, o Instituto de Moralogia, que ocupa uma área de 52 alqueires, com campos de golfe e pensionatos para homens e mulheres, onde milhares de pessoas já receberam lições de como viver fazendo bem e cultivando a moral. “É uma ciência que prepara as pessoas para viver em função da moral e do bem comum”, ensina Nobolo.

Com muita vivência, o médico experimentou a política. Não por iniciativa própria, mas por insistência de um grande amigo, o empresário Waldemar Costa Filho, que o levou como candidato a vice em sua terceira e vitoriosa disputa pela Prefeitura de Mogi, em 1988. Nobolo era o vice que todo o prefeito gostaria de ter. Discreto, eficiente a amigo, ele chegou a comandar o município em várias ausências do titular. Jamais avançou o sinal da lealdade e sempre foi reconhecido por isso.

Mas nem tudo foram flores na vida de nosso herói. Já setentão, decidiu consertar uma goteira no telhado de sua casa, na rua Brás de Pina, e despencou lá de cima, batendo a cabeça e ficando em coma por vários dias. Salvou-o o excelente preparo físico e a perícia do amigo Mituaqui Miyabe, o neurologista cujo consultório ainda é vizinho do Ipiranga. 
Da amarga experiência sobrou um pequeno afundamento na cabeça, próximo à fronte. Mais nada mudou na vida de Nobolo.

 

Rotina

Quando indagado sobre o segredo de sua vitalidade, o médico diz que o mais importante é “aproximar o pensamento de Deus, pensar em ajudar ao outro” e manter uma vida saudável, à base de uma dieta vegetariana e outros cuidados que ele procura seguir à risca, sempre com a preocupação de não criar “produtos nocivos para o organismo”.

A rotina de Nobolo começa exatamente às 5 horas, quando o despertador o avisa que é hora de deixar o apartamento, aonde pernoita, e seguir caminhando até sua casa, onde a empregada o espera com um café da manhã à base de pão integral, chá, leite, sucos e muitas frutas, em especial, laranja pêra e maçã, suas favoritas. E durante todo o dia, muita verdura, principalmente alface, couve e repolho, e também muito líquido, em especial, água, guaraná e tônica.

Terminada a primeira refeição, Nobolo segue para o Instituto de Moralogia. O antigo jogador de futebol e beisebol, hoje é um apaixonado pelo golfe, que ele pratica diariamente, dando suas tacadas ao lado de professores do centro de estudos e de vizinhos, que ele próprio ensinou a jogar.  “Ando de 4 km a 8 km para mexer com todo o organismo. Por isso é que tenho saúde”, gaba-se ele.

O almoço não tem qualquer tipo de carne animal. Churrascos ou frangos, nem pensar. “É só capim”- brinca ele, referindo-se à refeição sempre à base de arroz, verduras cozidas e saladas.

Uma “siesta” logo após o almoço? Também nem pensar. Nobolo não dorme durante o dia. Prefere enfurnar-se em sua biblioteca, onde não faltam famosos autores ingleses, alemães e franceses; muito menos biografias de célebres personagens históricos. 

“Eu leio tudo que serve para a vida. Em casa, o que não falta é livro. O livro nos ensina a viver; nos traz lições de vida”, garante.

O jantar acontece, religiosamente, no refeitório do Hospital Ipiranga, onde as cozinheiras já conhecem suas preferências e fazem de tudo para agradá-lo. Ali, o que não lhe falta é carinho. Das funcionárias da cozinha e dos médicos que lá comparecem diariamente e fazem questão de cumprimentá-lo.  

Após o jantar, a programação de canais culturais da televisão ajuda a completar sua rotina, que termina sempre após às 23 horas, quando um bom sono garante a disposição para o  dia seguinte.

 

Amizades

Além dos filhos Sidney e Emi, ambos médicos, os amigos são muitos na vida de Nobolo. Alguns especiais, como o médico Jayme Treiger, um filho de imigrantes russos, nascido em Niterói, no Rio, cuja trajetória de vida foi marcada por escolhas que, como ele gostava de dizer, estavam sempre à frente do seu tempo. Nobolo lembra que o polêmico médico, que virou homeopata, chegou a desenvolver uma vacina contra o câncer, que ele próprio, garante, chegou a tomar. Sabe-se lá por que, a iniciativa foi esquecida após a morte de Treiger, em 2006.

Entre muitas viagens ao Japão, com a esposa, onde estudava Moralogia, Nobolo chegou a visitar todo o estado de São Paulo ao lado de outro amigo do peito, o empresário Fumio Horii, que faleceu recentemente, vítima da Covid-19. Era também um grande parceiro de golfe.

E em meio a perdas e conquistas, Nobolo faz um balanço positivo de sua vida. “Fui muito útil, hoje há mais de 200 médicos trabalhando neste hospital que eu construí sozinho. Ajudei a muita gente e isso é que vale a pena”, diz ele, que passou ao largo da recente pandemia, “sempre praticando esportes e fazendo dieta, vivendo na lei de Deus e ajudando ao próximo e pensando em praticar o bem”, ensina ele.

Esbanjando saúde, Nobolo espera viver, pelo menos até os 120 anos. “Muita gente está vivendo; então vou viver também”, promete.

O médico já se considera centenário, em razão de um antigo costume japonês que acrescenta mais um ano à idade natural de cada pessoa,  por conta do tempo de gestação, “na barriga da mãe”.

Positivista, Nobolo acredita numa evolução mundial para melhor. Para ele, as pessoas estão evoluindo, buscando se aproximar mais de Deus, apesar de ainda existir muita maldade e gente má. “Tudo depende da Educação”, ensina ele, que não pensa em deixar Mogi, lugar que adora. “Serra do Itapeti só se tem em Mogi, além de um povo muito amigo e alegre”, assegura.

Mas e quais são os planos para o futuro?
Nobolo diz que deseja “continuar fazendo bem ao próximo, vivendo com saúde e tirando o ego para colocar Deus dentro da gente”.

Mas, e depois dos 120 anos, como vai ser? 
Tranquilo, ele responde: “Vou agradecer a Deus pela vida que levei. E vou para perto dele”.

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