Arquitetos cobram fiscalização sobre estacionamento irregular no calçadão de Mogi
Três arquitetos que acompanharam a instalação dos calçadões das ruas Dr. Paulo Frontin e Dr. Deodato Wertheimer, e a revitalização do trecho da rua Professor Flaviano Melo, no centro de Mogi, cobram fiscalização ao estacionamento proibido como meio de manter o conceito de mobilidade urbana atado à valorização do pedestre e do conceito de transformar […]
09/12/2022 16h34, Atualizado há 44 meses
Três arquitetos que acompanharam a instalação dos calçadões das ruas Dr. Paulo Frontin e Dr. Deodato Wertheimer, e a revitalização do trecho da rua Professor Flaviano Melo, no centro de Mogi, cobram fiscalização ao estacionamento proibido como meio de manter o conceito de mobilidade urbana atado à valorização do pedestre e do conceito de transformar a rua como um “shopping” a céu aberto.
Há alguns meses, desde a flexibilização do uso para o estacionamento na Paulo Frontin, o consumidor passou a dividir o espaço com os carros estacionados em dias de semana e aos sábados. A fila de automóveis chama atenção de quem está fazendo compras no centro mais antigo e popular da cidade. Ali, não há taxa para estacionar.
“O comerciante quer ter um carro na frente de sua porta ou 20 consumidores passando por ali? Não é nada racional trazer os carros de volta, basta olhar o que acontece em vias semelhantes, de comércio popular, como a 25 de Março em São Paulo”, comenta o professor e arquiteto Paulo Sérgio Pinhal, integrante de conselhos como o Concidade.
Pinhal lembra que o “traffic calming”, adotado em frente à Catedral de Santana e o Centro Cultural já macula a ideia original do calçadão, mas foi um meio de integrar a revitalização da Flaviano, onde o tráfego local é permitido e, mais recentemente, tem sido palco de uma flexibilização.
Pinhal repete o que a arquiteta Ana Maria Sandim relata como prejudicial: as pessoas beneficiadas com essas vagas na Paulo Frontin são favorecidas financeiramente porque deixam de pagar pelo sistema controlado e rotativo (administrado pela Estapar) ou o estacionamento privado.
As pessoas que se valem de flanelinhas, para ficar mais de uma hora no estacionamento controlado, com a troca do tíquete, já são favorecidas economicamente, mesmo quando se leva em consideração quem paga a rede de estabelecimentos que oferecem vagas para mensalistas.
Ana Sandim, que também preside o Comphap, lembra que a região central – sem as vagas em locais como as proximidades das universidades, possui cerca de 10 mil vagas controladas apenas nas ruas. “Quem deixa o carro nestes pontos, onde os ‘flanelinhas’ atuam, são beneficiados diante de todos os demais, que pagam a zona azul”, reforça.
Ela afirma que a liberação pontual, na pandemia, não deveria ser perenizada. A tendência, nas cidades, é abrir o espaço para o pedestre, ampliando-se, inclusive, o que já se vê em empreendimentos novos, que permitem que o morador passe por dentro do imóvel comercial. “A rua atravessa os imóveis”, resume.
Para a arquiteta, a cidade precisa investir em mais infraestrutura no setor de transporte público para retirar ainda mais a circulação de carros das ruas e avenidas. Ela lembrou o exemplo desta semana, em São Paulo, quando a suspensão de apenas uma linha ferroviária após o descarrilamento de um trem, complicou todo o trânsito porque o transporte de massa drena o sistema de mobilidade. “Uma linha do metrô leva 1,1 mil pessoas, e um ônibus, 60, 80 pessoas. É preciso atender melhor a população que trabalha e que circula nas cidades”, acrescenta.
Um sintoma desse problema está no tamanho da frota de carros – cerca de 220 mil veículos para a cidade que ainda não cravou, mas beira aos 500 mil moradores, e na pouca procura pelos ônibus. “Pontos de ônibus, em determinados locais, têm menos pessoas por isso seria necessário ofertar serviços de transporte público de melhor qualidade, mais eficientes”, diz.
Ana Sandim defende, ainda, que a questão da pandemia, que acabou por favorecer a liberação pontual do estacionamento na Paulo Frontin, não se sustenta agora, quando os hábitos de compra voltam ao normal. “O fim deste calçadão é um retrocesso e vai contra o que discutimos muito, a cidade para atender apenas um ponto de vista. E, quem deixa o carro ali ou defende isso, quer levar vantagem diante dos demais, que pagam o estacionamento rotativo”.
A arquiteta defende a fiscalização e o controle, lembrando que outras situações que passam a ser aceitas são notadas após o período mais agudo da pandemia. “Vejo carros avançando o sinal vermelho ou o aumento de situações não fiscalizadas e isso não faz sentido”, reflete.
O arquiteto Nelson Bettoi, vice-presidente da Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Mogi das Cruzes, afirma que a liberação para os carros nos calçadões deve ocorrer apenas nos horários de carga e descarga. “Alguns comerciantes acham que ter uma vaga para estacionar na frente da loja, vai trazer mais consumidores, mas isso não acontece assim, na prática. Cabe ao poder público fazer o ordenamento com o incentivo da vaga rotativa, para atender mais pessoas”, opina.
Bettoi também afirma que há uma mudança na maneira de consumir, com mais pessoas fazendo compras online, porém, uma transformação desse modelo, ainda não acontece no curto prazo. Ou seja, “o calçadão ainda será uma opção para o conforto do pedestre”, indica.
O arquiteto também defende uma revisão no sistema público para atrair mais pessoas que, hoje, usam o carro, pagam pelo estacionamento ou perdem tempo no trânsito lento.
“O brasileiro é um apaixonado por carro, é fato, mas também tem o outro lado: o ônibus atende ao que ele precisa, tem toda hora, o percurso é o melhor, tudo isso é levado em consideração e, por isso, muitos fazem a opção pelo carro”, pondera.
Outro fator de preocupação apontado por ele é o crescimento do comércio ambulante, que também disputa espaço com o pedestre, no trecho da Deodato. “Há de se encontrar um meio de atender essa parcela de pessoas que concorre com o comerciante que paga impostos mais altos”, contrapõe, desejando, ainda, sobre esse mesmo tema, a busca de políticas que levem mais pessoas para a área central fora do horário comercial e aos finais de semana. “Se o comércio não abre, esse trecho poderia ganhar eventos culturais e esportivos para não ficar sem pessoas quando as lojas estão fechadas”.
Sobre um possível enfraquecimento do conceito de calçadão, Nelson Bettoi que é mogiano e reside na região central, lamenta: “Não é algo bom para Mogi, seria retrocesso, lembrando que as ruas do centro já são apertadas, mal cabem os carros porque são antigas, foram feitas para as carroças”, encerra o arquiteto.
Prefeitura diz que fiscaliza
Apesar dos flagrantes de estacionamento irregular no calçadão da rua Dr. Paulo Frontin, no centro, a Prefeitura de Mogi das Cruzes afirma que essa prática segue proibida e alvo de fiscalização.
Em resposta a questionamento de O Diário, a gestão lembra que a liberação, nesta via, ocorreu de maneira excepcional no ano passado, em “função do período pandêmico, quando alguns comerciantes estavam atendendo via drive-thru na região central”.
Para garantir o cumprimento da lei, informa a Secretaria de Mobilidade Urbana, “a presença dos agentes de trânsito foi reforçada neste período, exatamente para orientar motoristas em função do movimento gerado pelo comércio de fim de ano”.
A gestão diz não ter planos para ampliar ou reduzir os calçadões na cidade.
Informa ainda que na “Flaviano de Melo, a restrição é das 10h às 17h – todas as orientações estão bem sinalizadas para os usuários do trânsito”.
Atualmente, segundo a administração, “a cidade conta com 1.622 vagas de estacionamento controlado”. Desde o início desta semana, 150 espaços para o estacionamento foram liberados provisoriamente não são relativos a vagas controladas de Zona Azul.
A pasta diz que “mantém estudos constantes sobre a oferta de vagas nas regiões onde há maior movimento, mas não há nenhuma nova mudança prevista para o momento”.
Cobrança
Já o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Mogi das Cruzes, Valterli Martinez, segue defendendo a abertura de vagas rotativas para o estacionamento na Paulo Frontin, em datas especiais.
Segundo ele, uma pesquisa com os comerciantes aponta que 85% apoiam a flexibilização, inclusive para o tráfego de veículos na Flaviano de Melo, em datas comemorativas. No entanto, a entidade se posiciona contra o estacionamento sem a rotatividade, o que acaba privilegiando quem deixa o carro parado durante mais de uma hora na região central.
Martinez afirma que a liberação para carros na Paulo Frontin ampliou os resultados de vendas durante a pandemia, por isso, volta a ser defendida. O retorno do controle rotativo também é pedido para a rua Coronel Souza Franco, onde hoje a prática é livre.