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Com 1,5 mil vagas na rede pública do Alto Tietê, pacientes enfrentam filas em hospitais

A espera por um leito de internação em hospitais do Alto Tietê ainda é uma das principais dificuldades enfrentadas diariamente por pacientes que precisam deste tipo de atendimento. É o caso do bebê M.S.F., de apenas 1 ano, que diagnosticado com meningite pneumocócica no Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, em Braz Cubas, esperou dois […]

8 de julho de 2023

Reportagem de: O Diário

A espera por um leito de internação em hospitais do Alto Tietê ainda é uma das principais dificuldades enfrentadas diariamente por pacientes que precisam deste tipo de atendimento. É o caso do bebê M.S.F., de apenas 1 ano, que diagnosticado com meningite pneumocócica no Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, em Braz Cubas, esperou dois dias e meio na fila da Central de Regulação de Ofertas e Serviços de Saúde (Cross), do Governo do Estado, por uma vaga na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pediátrica no Hospital Luzia de Pinho Melo, onde morreu quatro dias depois.

Em situação semelhante, Nilton Nicolau, 67 anos, também perdeu a vida no Hospital Luzia de Pinho Melo, nesta terça-feira (27), após ter esperado um dia na Unidade de Pronto Atendimento do Rodeio (UPA) por um leito hospitalar. Antes, já havia passado pela Santa Casa de Mogi, no sábado (25), mas recebido alta no dia seguinte (26). “Ele tomou apenas soro no Pronto Socorro da Santa Casa, onde nem havia cobertores e lençóis para os pacientes. Ainda estava muito mal, mas mesmo assim o liberaram. Para não ficar com ele ruim em casa, fomos para a UPA, onde ele foi intubado até conseguir uma vaga pela Cross”, conta a irmã de Nilton, Nezia Antônio Nicolau Foresti.

Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado da Saúde afirma que “nenhum dos pacientes foi a óbito pelo tempo de espera para leito referenciado”. “O nome do paciente N.N. foi inserido no sistema na tarde do dia 26 de junho, tendo a vaga cedida na manhã do dia 27 de junho para o Hospital Luzia de Pinho Melo. Já o paciente M.S.F. teve sua ficha solicitada na manhã do dia 16 de junho, tendo sido regulado na tarde do dia 18 de junho para a mesma unidade, onde permaneceu internado até o dia 22 de junho, quando, infelizmente, devido à gravidade do seu quadro clínico, veio a óbito. A Central é apenas um serviço intermediário entre os serviços de origem e de referência. Seu papel não é criar leitos, mas auxiliar na identificação de uma vaga no hospital mais próximo, seja ele municipal, estadual ou filantrópico, e apto a cuidar do caso”, explicou em nota.

Já diante das reclamações da irmã de Nilton Nicolau na Santa Casa, a direção do hospital enviou a seguinte nota: “A Santa Casa de Mogi das Cruzes (SCMC) prima pela excelência na prestação dos serviços médicos à população, atuando fortemente na especialização de seu corpo clínico e na humanização de atendimento. No caso, há a exigência do sigilo médico, o que nos impede de tecer comentários sobre o paciente citado. É importante citar que a alta médica é determinada pelo corpo técnico, mediante detida análise. Assim, eventuais ocorrências posteriores não têm relação com a alta médica, notadamente em casos de maior complexidade e que exigem especialidade não abrangida pela SCMC. Solicitamos aos familiares o encaminhamento dos fatos para a nossa ouvidoria para regular apuração da ocorrência”.

Porém, os dois finais trágicos reforçam a necessidade da ampliação de leitos na região, que segundo levantamento da Secretaria de Estado da Saúde e das prefeituras municipais das 10 cidades do Alto Tietê enviado a O Diário, têm 1.533 leitos na rede pública (confira quadro na página ao lado) para atender à população de 1.625.530 pessoas do Alto Tietê, de acordo com o Censo 2022, recentemente divulgado pelo Instituto Brasileirode Geografia e Estatística (IBGE). 

Com esta soma de vagas das 10 cidades, a relação é de 1,53 leito a cada 1.000 habitantes, sendo que nenhum município atinge a média de uma vaga por 1.000 moradores.

O levantamento revela um deficit de leitos, assim como aponta a secretária-adjunta de Saúde de Mogi, Rosângela Cunha (Leia na página 9). Embora não exista determinação oficial para a densidade de leitos hospitalares por habitante, a Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza globalmente a média de 3,2 leitos hospitalares por 1.000 pessoas, sendo 2,0 para os países da América Latina, onde fica o Brasil.

Déficit é problema antigo

Agravado pela superlotação da rede pública de saúde, o deficit de leitos hospitalares na região de Mogi das Cruzes é um problema antigo, lembra a secretária-adjunta municipal de Saúde, Rosângela Cunha, explicando que esta defasagem vem sendo levantada pela Secretaria de Estado da Saúde, em um trabalho regionalizado.

Diante deste cenário, ela conta que a espera por vagas de leitos pela Cross varia de acordo com a hipótese diagnóstica e outros fatores, como a situação regional no momento da solicitação. 

“Atualmente, as principais dificuldades para liberação de vagas são UTI Pediátrica e Enfermaria Adulto. A própria direção do Hospital Luzia de Pinho Melo já informou que cerca de 40% dos leitos de clínica médica para adultos estão ocupados por pacientes crônicos e/ou aguardando vaga para hemodiálise”, relata.

Outro fator que contribui para elevar a demanda de atendimentos na rede municipal ainda é o fato de os equipamentos públicos de Mogi receberem pacientes de outras cidades da região. “No último mês, foram 18% registrados no Pronto Atendimento do Vagalume e 10% nas UPAs e Unidades de Pronto Atendimentos 24 horas”, completa.

De acordo com a pasta, há 69 leitos (37 enfermaria, 22 enfermaria pediátrica e 10 UTI) no Hospital Municipal de Mogi; e 167, sendo 36 de UTI (28 Neonatal e 8 adultos) e 131 de enfermaria (54 leitos obstétricos e 77 leitos cirúrgicos adultos e pediátricos), na Santa Casa da cidade.

Diante do deficit de vagas hospitalares no Alto Tietê, a secretária-adjunta enfatiza que “qualquer abertura de novos leitos ajudaria Mogi e a região”. “A ampliação do número de leitos para internação é uma antiga reivindicação dos municípios do Alto Tietê e a abertura de novos hospitais públicos certamente contribuirá para desafogar o sistema e otimizar o atendimento dos casos que necessitam de internação”, aposta.

Cross regional pode ser a saída

A implantação de uma Central de Regulação de Ofertas e Serviços de Saúde (Cross) Regional, conforme proposta de campanha do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), e a abertura de cinco hospitais previstos no Alto Tietê são os caminhos apontados pelo biomédico e ex-secretário de Saúde de Mogi, Marcello Delascio Cusatis, o Téo, para diminuir o deficit de leitos na região.

Segundo ele, faltam dados organizados da região, sob responsabilidade da Regulação de Urgência e Emergência (RUE), que cuida do mapeamento de leitos regionais, mas de maneira geral existe um deficit no Alto Tietê. “Faltam, principalmente, leitos de UTI adulto, por isso pacientes acabam morrendo nas UPAS, e leitos de UTI Infantil e de clínica médica. Além disso, há pacientes que ficam muito tempo internados no SUS (Sistema Único de Saúde), aguardando vagas em hemodiálise. Nesta semana, o Luzia tem cerca de 40 pacientes de longa permanência que poderiam estar no Dr. Arnaldo (Pezzuti Cavalcanti). Portanto, também falta a integração do sistema, que acaba contribuindo para estes gargalos”, explica o especialista em Gestão Hospitalar e Sistema de Saúde e gestor comercial do Hospital Santa Maria, em Suzano.

Ele também aponta que cerca de 25% dos pacientes da região têm planos de saúde, e a maior demanda ainda dependente do SUS eleva o deficit de leitos na rede pública. “A Cross Regional é uma saída para organizar isso, mas não resolve, o que só é possível com a abertura de leitos, que deve acontecer com os novos hospitais em Suzano (Regional e Municipal), Guararema, Arujá e a Maternidade Municipal de Mogi. 

Questionada por O Diário sobre a criação da Cross Regional, a Secretaria de Estado de Saúde explicou que trabalha com a perspectiva de implantação de filas únicas, regionais e publicizadas”. “A cidade de São Paulo tem sua regulação própria e a expectativa é que o projeto de Regionalização da Saúde do Governo de SP, lançado em abril, em parceria com a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), possibilite a ampliação da atuação das unidades de saúde em rede, permitindo o encaminhamento destes pacientes. É fundamental a adesão dos municípios que têm fila própria ao projeto. O Estado realiza oficinas para implantação do Programa de Regionalização da Saúde”, trouxe a nota.

 

 

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