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‘A doença não vai desaparecer’, alerta Henrique Naufel

A vacinação pode repetir as filas e até violência registradas na campanha da febre amarela? Não acredito, porque ela será escalonada, e a população está sendo informada sobre isso. Dependemos da chegada da vacina. Vamos atender os profissionais de saúde (10 mil), quilombolas e indígenas (que são 45 pessoas, segundo o IBGE) e os idosos […]

Por O Diário
15/01/2021 13h38, Atualizado há 67 meses

A vacinação pode repetir as filas e até violência registradas na campanha da febre amarela?

Não acredito, porque ela será escalonada, e a população está sendo informada sobre isso. Dependemos da chegada da vacina. Vamos atender os profissionais de saúde (10 mil), quilombolas e indígenas (que são 45 pessoas, segundo o IBGE) e os idosos (53,8 mil), sendo que as doses serão aplicadas, por faixas etárias,  até março. Depois haverá um intervalo de três semanas, e essas pessoas vão receber a segunda dose. Será como a vacinação da gripe, gradual.

Há pressão por fatores como o cansaço da pandemia, as falsas notícias, a campanha antivacinas. Prevê resistência à vacina?

Não, acho que chegando, todos quererão ser vacinados.

As pessoas serão informadas sobre reações?

As pessoas já estão informadas de que se trata de uma vacina nova. Essa vacina (a Coronavac) tem um impacto muito bom,  em 100% das pessoas que tomaram a vacina, não teve nenhum caso grave, internado, é isso que importa. A eficácia dela é muito boa. 

Com o início da vacinação, a segunda dose aplicada, qual será o impacto da imunização nos casos da doença?

A gente espera que haja uma diminuição para o fim do ano, não é algo imediato. Vamos vacinar parte da população, protegendo quem mais tem sofrido. A letalidade é muito alta acima do 60 anos. Esse índice é de 5%, bem maior do que a gripe comum. A doença não vai acabar, a vacina terá um impacto, mas estamos diante de uma doença, como a gripe, no ano que vem, uma nova vacina terá de ser feita.

Qual é o principal desafio da pandemia? 

É entender o vírus. Apesar de todos as batalhas apontadas por você, é preciso tratar esse vírus de maneira técnica, científica, se abstrair dos problemas e divergências políticas, para trazer para o cidadão o que há de melhor nas evidências científicas. Desde o início tivemos a cloroquina, ozônio, anita, ivermectina e uma série de outras soluções apareceram. Alguém encontra uma solução e você tem de ir atrás da evidência cientifica. Sem ranço, sem preconceito, não é porque eu acho que a ivermectina não age, que não é possível que isso não se torne verdade, daqui a um pouco. A medicina é uma ciência das verdades transitórias. 

A situação de 100% de ocupação dos leitos públicos foi ultrapassada.

Sim, foi ultrapassada porque foram ampliados os leitos.

Ate o final do ano, chegamos a um ponto de equilíbrio?

Sim, podemos esperar que sim.

Podemos perder mais vidas?

Agora, estamos chegando a 600 vítimas fatais.
Acho que a vacina vai ter um impacto fantástico na saúde. 

A estrutura hospitalar da cidade é segura? Precisamos de mais leitos?

Para esse momento atual, nós estamos bem. Nos preparamos antes e dá a impressão de que nós estamos calmos demais. Mas, não. Fizemos a lição de casa, antes de todos. Os dados de hoje (quarta-feira), dos leitos públicos: 65% de ocupação de UTIs e 55%, da enfermaria.

Diferente da semana passada, quando a demanda foi maior.

Sim, nós já sabíamos que isso iria acontecer (aumento do contágio, queda do isolamento) e corremos para transformar a UnicaFisio em um hospital de campanha. Além disso, temos o Hospital Municipal de Braz Cubas, que tinha 69 leitos, e praticamente dobramos, para 124. Quando assumi a Secretaria de Saúde, tínhamos 10 leitos de UTI, hoje são 44, e podemos chegar a 54 leitos. O Luzia vai operacionalizar 33 leitos e hoje possui 24. Um custo de um leito de UTI é muito elevado, por isso ele é aberto quando necessário.

Terceira onda, quando será? 

Essa é uma doença que não vai mais desaparecer. No meu entender não acabou a primeira onda, porque os casos sempre existiram. Essa será uma doença endêmica. Como é a gripe, que mata, todos os anos. O que eu vejo são vacinações anuais, para conter a mutação do vírus.

Com as mutações do vírus, o mundo poderá ser surpreendido, com a elevação da letalidade, por exemplo.

Sim, podemos ser surpreendidos. Nós vemos essa nova cepa que foi mais letal do que, digamos assim, a “cepa-mãe”. No Reino Unido, eles estão vacinando muito, e estão hoje batendo recorde de internações. O impacto será positivo após alguns meses, quando a população com mais de 60 anos se imunizar. Os jovens poderão ficar doentes, mas de maneira mais leve.

Na pandemia, vimos muitas pessoas pensando em si. Como o senhor avalia o descuido de alguns, em relação às demais?

Para promover a saúde, ela congrega outros elementos, como a educação, há uma série de situações que podem favorecer, ou não, a manutenção da doença, e conta o nível de conhecimento, de entendimento e até cognição, para entender a gravidade da doença. Se você não tem o poder de convencimento para que a população entenda que o vírus é mortal para as pessoas com mais idade, e não conseguir fazer o jovem entender que a taxa de letalidade entre os mais novos é menor, mas existe, e que ele é o responsável por fazer circular o vírus, fica difícil controlar a doença. Até agora, só contamos mesmo com a vacina.

É momento de voltar as aulas presenciais?

Os países que voltaram às aulas, tiveram de retornar ao lockdown. Sei que o impacto na saúde mental das crianças e dos adultos é muito relevante. Mas estou confiando muito na vacina, que vai nos trazer um grau de confiança bastante confortável, hoje, ainda fica um impasse.

Por quê?

Porque os estudos mostram que a criança pega menos o vírus, mas é um vetor da doença. Se a gente proteger os vulneráveis, esse temor desaparece. E aí, a gente pode voltar com tranquilidade.

O que dizer aos pais, diante da volta às aulas?

Cada lar tem uma situação diferente, muitos já tiveram a doença. Essas crianças desses lares teriam uma segurança maior, mas, o poder público pensa no coletivo. Não dá para ver escola particular e pública diferente. Imagino eu, que a solução deva ser coletiva, para todos

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