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Cansaço extremo adia a chegada de padre Alessandro a Compostela

O cansaço, outra vez, falou mais alto e acabou adiando a chegada de padre Alessandro Campos à Catedral de Santiago de Compostela prometida para o dia de ontem (27). Exausto e desgastado fisicamente, o religioso decidiu nem sequer tentar cumprir os 80 km finais que o separavam de Palas de Rei até a cidade de […]

Por O Diário
28/10/2021 00h48, Atualizado há 58 meses

O cansaço, outra vez, falou mais alto e acabou adiando a chegada de padre Alessandro Campos à Catedral de Santiago de Compostela prometida para o dia de ontem (27). Exausto e desgastado fisicamente, o religioso decidiu nem sequer tentar cumprir os 80 km finais que o separavam de Palas de Rei até a cidade de Santiago, como chegou a ser anunciado. 

A caminhada limitou-se a 50 km, ficando os 30 km restantes para esta quinta-feira (28), quando padre Alessandro e seus amigos Thiago Gomes e Claudio Silva, o “Zum”, esperam chegar à catedral por volta de meio-dia, quem sabe, com tempo suficiente para participar da Missa do Peregrino, que é celebrada todos os dias neste horário, quando são anunciados os nomes dos viajantes que chegaram nas últimas horas à igreja.

Os sinais de extrema exaustão podem ser sentidos no último vídeo enviado pelo padre Alessandro à redação deste jornal, quando aproveita a oportunidade para agradecer a todos que o acompanharam durante quase um mês de peregrinação pelos caminhos acidentados e difíceis de serem ultrapassados pelos peregrinos que seguem para o destino final na região de La Coruña, onde se localiza a Catedral de Compostela, buscada por todos aqueles que se aventuram em uma viagem em direção ao noroeste da Espanha.

Quando, finalmente, conseguir chegar ao seu destino final e der por cumprida a promessa realizada pela saúde de sua sobrinha Rebeca, padre Alessandro, certamente, poderá respirar aliviado e pensar num merecido descanso quando conseguir retornar a Mogi das Cruzes, onde reside com sua família.

Junto com ele, milhares de seguidoras de todo o País também estarão agradecendo por mais uma vitória do religioso. São pessoas como Noeci Reis, 58 anos, que, de Blumenau, em Santa Catarina, não deixou, por um só dia, de acompanhar a saga de padre Alessandro e seus dois amigos, por meio das reportagens de O Diário, na internet: “Foi lindo, emocionante, mesmo tendo sido muito sofrido para ele. É uma coisa de Deus. Padre Alessandro é um guerreiro de Jesus Cristo, um vencedor mesmo”, diz ela, que formou um grupo no Facebook para que ela e centenas de amigas pudessem acompanhar a saga do padre em terras espanholas.

“O que mais nos emocionou foi quando ele, ao subir uma das escadas do Caminho de Santiago, fraquejou de tanto cansaço e teve de parar para descansar. Chorei ao ver aquela cena no vídeo e rezei para que Deus o ajudasse. Para quem gosta tanto dele, dói muito ver o sofrimento do padre. Gosto demais dele. Padre Alessandro é um presente de Deus na minha vida”, diz Noeci

Toda essa idolatria pelo padre tem um motivo que leva a cabeleireira natural da cidade de Rio Grande, no extremo sul do Estado do Rio Grande do Sul, a voltar no tempo quando chegou para trabalhar em Blumenau, ao lado de seu “guri” (filho), enfrentando uma depressão que lhe tirou o gosto até de continua vivendo.

Certo dia, ela disse à patroa, dona Gertrudes, que estava pensando em dar um fim à sua própria vida, já que nada mais lhe fazia sentido.

Foi então que, após muita insistência de Gertrudes (hoje já falecida), ela decidiu assistir a um programa do padre Alessandro Campos na televisão. “Naquela noite, as palavras dele eram como se fossem dirigidas à minha pessoa, me dando força. Chorei muito e abracei minha patroa, aliviada”.

Noeci fala com fé: “Agradeço a Deus por enviar anjos em forma de pessoas para ajudar a gente”. 

Ela já esteve com o padre Alessandro Campos algumas vezes, mas nunca teve tempo para contar-lhe a sua história. Foi então que para retribuir tudo o que recebeu, ela decidiu criar o grupo no Facebook, com o título retirado da primeira entrevista de padre Alessandro Campos ao Diário de Mogi: “Ele venceu”.

Medo de pneumonia

Outra pessoa que acompanhou a viagem de padre Alessandro Campos “todos os dias, desde que ele saiu da França até agora”, pelo site do jornal e pelas redes sociais do religioso é Salete Campiol, 51 anos, moradora de Valinhos. Ela também sofreu junto com padre as dificuldades encontradas por ele ao longo do Caminho de Santiago.

“A gente acompanha, conversa pelas redes sociais, reza e, graças a Deus, ele está chegando ao finalzinho da viagem”, diz .Para ela, o padre é “uma pessoa muito querida em nosso meio”, conta Salete, lembrando que nos primeiros dias da viagem, chegou mesmo a pensar que o viajante não fosse aguentar as dificuldades que vinha encontrando pela frente. “Era muito frio e eu tinha medo que ele pegasse uma pneumonia, com força e com nossos pedidos de proteção a Deus, ele seguiu até o final”.

Salete não consegue esquecer o verdadeiro desespero que enfrentou ao ouvir o relato do padre sobre o dia em que ele caminhou por mais de 15 horas, “passando fome”. Ela pensava nos problemas de coluna que o padre sempre enfrentou e o que estaria passando sob o peso da mochila que levava às costas.

“Deus o ajudou em todos os momentos. Ele é guerreiro, quando promete que vai fazer alguma coisa, faz mesmo”, exalta ela, ao falar que rezou por ele “muitas vezes, principalmente nos momentos em que ele enfrentava as estradas mais difíceis para caminhar, com muros, escadas, buracos, que ele foi superando, um após outro. Superar obstáculos é uma rotina na vida do padre, que vai conquistar mais uma de suas vitórias”. 

Salete teve o primeiro contato com o padre Alessandro por interferência de sua mãe, que indicou para ela o programa do religioso na televisão. A partir daí ela passou a visitar Mogi para assistir às missas dele, conheceu Alessandro e seus familiares e o segue permanentemente nas redes sociais.

Apoio dos amigos

Maria Madalena Tobias é de Guarulhos e todos os dias, durante a peregrinação de padre Alessandro, fez questão de lhe enviar mensagens desejando “força e muita fé” para vencer as dificuldades do Caminho de Santiago. 

“Achei a viagem muito pesada e sofrida. Ele sofreu muito”, afirma outra seguidora fiel do religioso, que faz uma menção especial aos dois amigos que o acompanharam por todo o tempo. Sem o apoio de ambos, ela acredita que o padre teria desistido após os primeiros dias de viagem.

“Sozinho tudo fica mais difícil”, resume ela, fazendo referências ao relato do padre que permaneceu um dia todo na estrada, sem comida, tentando chegar a um destino que nunca aparecia. “O corpo não aguentava, os pés machucados, os joelhos massageados pelos amigos… Foi horrível”, resume ela.

“É como ver um filho da gente sofrendo e quando atingiram os 15 dias e ainda faltava mais da metade do caminho, eu me perguntava: ‘Meu Deus, como vai ser?’ Eles precisavam andar muito, mas não podiam tentar fazer isso de uma só vez. Foi quando ele não conseguiu mais caminhar e ficou estirado na estrada. Foi muito duro para nós que gostamos tanto dele”, disse Madalena, que acompanha de perto a vida do padre Alessandro ao lado da amiga Terezinha, sua inseparável companheira. As duas vivem a expectativa pela chegada. “Espero que seja tranquila. Ele tem lutado muito e espero que chegue para cumprir a proposta dele de pagar a promessa pela saúde da sobrinha Rebeca. É o que a gente espera e deseja”, conclui.

Histórias

Quem também acompanhou pelo jornal O Diário a saga do padre Alessandro Campos, foi uma antiga conhecida do religioso, sua madrinha de crisma, Ana Maria Damasceno Barbosa. Ela esteve ao lado do religioso desde quando ele, ainda com 9 anos de idade, se destacava entre os meninos do Jardim Santa Tereza, em Braz Cubas, por suas iniciativas ousadas, pelo discurso fácil e desenvoltura. Naquela idade, ele apresentou Ana Maria, recém-chegada a Mogi, vinda de Alagoas, após uma passagem por São Paulo, para a comunidade católica do bairro.

“Ele era uma criança diferente, que rezava em meio aos adultos, já dizendo que desejava ser padre”, conta Ana Maria, que chegou a ser professora de Alessandro, quando ele frequentava o Ensino Médio na escola pública do bairro.

Foi ela quem o acompanhou na primeira ida para o seminário, em Aparecida, onde o jovem não conseguiu se adaptar e acabou ingressando mesmo na congregação Filhos do Amor Misericordioso de Braz Cubas, seu passo decisivo rumo ao sacerdócio, que ele completaria no estado do Rio de Janeiro.

Ana Maria lembra que Alessandro nasceu para ser padre, para ser artista e evangelizar nos palcos da carreira de cantor. Há 30 anos em Mogi, ela lembra quando, em 2004, Alessandro a convidou para ajudar na manutenção de uma creche/escola, criada para atender às crianças carentes de Braz Cubas. Ela se tornou diretora e diz que aprendeu muito com a experiência.

Ana Maria afirma que acompanhou pelo jornal O Diário a viagem de seu afilhado pelos caminhos de Compostela, chegando a se comunicar com ele pelo WhatsApp. “Enviava mensagens encorajando-o a seguir adiante e vencer as dificuldades. Lógico que estava preocupada! Como fiquei!!! Era um pedaço de filho que estava lá!”

Ana Maria lembra que devido aos problemas de coluna, padre Alessandro nunca se preocupou em frequentar academias para manter a forma. “Ele é uma pessoa sedentária”, diz, relembrando dificuldades do caminho, como as bolhas e feridas nos pés, o cansaço. “Todos os dias eu rezava por ele. Fiz um altar na sala de minha casa com uma foto dele. Registrei numa foto e mandei para ele, durante a caminhada”.

Ana Maria desejava que o afilhado suportasse toda a jornada que, em sua opinião, “é uma purificação para ele e para seus dois verdadeiros amigos, dois anjos que estiveram ao lado dele durante toda a viagem”, diz a madrinha, que já está se preparando para comemorar a chegada dos três em Compostela. “Quero dizer que a vitória chegou e que não vejo a hora da volta dele para nosso meio”, afirma ela, já preocupada com a recuperação física do viajante, após o retorno para casa.

“Falo sobre ele como um exemplo para outros jovens. Ser padre como ele é um incentivo para que a nova geração também se aproxime da palavra de Deus”, afirma a convicta madrinha Ana Maria.

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