Voluntários do CCV atendem pessoas que buscam alguém para ouvi-las
Priorizando o sigilo e o anonimato dos atendimentos, o Centro de Valorização da Vida (CVV) presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio a todas as pessoas que buscam alguém para conversar, seguindo a terapia “befriending” (agir como amigo), propagada pelo pastor anglicano Edward Chad Varah, fundador do grupo Samaritanos, na […]
24/12/2022 08h02, Atualizado há 43 meses
Priorizando o sigilo e o anonimato dos atendimentos, o Centro de Valorização da Vida (CVV) presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio a todas as pessoas que buscam alguém para conversar, seguindo a terapia “befriending” (agir como amigo), propagada pelo pastor anglicano Edward Chad Varah, fundador do grupo Samaritanos, na Inglaterra, que deu origem ao brasileiro CVV. (leia mais na página 11).
No posto de Mogi da Cruzes, que conta com 26 voluntários, o trabalho segue a mesma premissa: dar toda a atenção que as pessoas precisam no momento, sem fazer julgamento, recomendação ou dar opiniões.
Na cidade, os plantões acontecem das 6 às 22 horas, mas o serviço pelo telefone 188 funciona 24 horas, todos os dias. “Quem liga fora deste horário, pela madrugada, por exemplo, sempre terá atendimento, porque há equipes em todo o país trabalhando 24 horas, embora nem todos os postos, como o de Mogi, funcionem neste período”, explica a coordenadora do posto de Mogi do CVV, Valdete de Siqueira, apontando a necessidade de ampliação do quadro de voluntários.
A próxima seleção para esta função será realizada nos dias 20 e 21 de janeiro de 2023, das 13 às 17 horas, de forma online. “Os participantes conhecerão o trabalho e o que é necessário para se tornar um voluntário. Basta ter acima de 18 anos de idade e disponibilidade de tempo. Haverá estágio e aulas às quartas-feiras e aos sábados. Ao final, se estiverem aptos, se tornarão voluntários”, detalha Valdete.
Segundo ela, o interessado precisa ter disponibilidade não apenas de tempo, mas também emocional, além do interesse contínuo em se autoconhecer. “Estes são pré-requisitos fundamentais e, evidentemente, ter mais de 18 anos. O CVV é muito interessante porque como é um serviço de apoio emocional em que são investidas muitas ferramentas para o autoconhecimento e bem-estar, temos cursos, palestras, reuniões para falarmos sobre autoajuda, sempre procurando o aperfeiçoamento para melhor servir”, destaca a coordenadora.
Ela reforça que o foco no autoconhecimento é essencial para o desenvolvimento de todo o trabalho no CVV. “Aprende-se muito mais do que se ensina. Temos donas de casa, faxineiras, empresários, médicos, entre outros, que são voluntários. Cada um tem a sua motivação e isso é muito particular. Há pessoas que nasceram para servir e outras que estão buscando sua missão. Mas em ambos os casos, o voluntário aprende muito com a pessoa que liga para conversar, assim como com os demais voluntários, que sempre têm um rico histórico de vida”, avalia Valdete.
É desta forma, segundo ela, que se consegue o apoio e a estrutura emocional necessários para lidar com os problemas relatados por outras pessoas. E há, ainda, uma extensa agenda de cursos, palestras e reuniões semanais. “Eles aprendem a realmente estarem ali, à disposição, para ouvir quem precisa falar, sem julgamentos. Não há limite de tempo e nem de assunto. É uma conversa livre, um desabafo, um diálogo, sobre qualquer tipo de assunto”, frisa.
A coordenadora lembra que existe a renovação de voluntários devido a saídas por motivos pessoais e mudanças, mas há aqueles com trajetória de mais de 20 anos no CVV de Mogi, que faz parte da regional Caminho do Mar, assim como os postos das cidades de Santos, São Vicente, São Sebastião e região do ABC Paulista.
O trabalho em sistema de plantões acontece na sede do posto, localizada no Alto do Ipiranga, mas após a pandemia, alguns voluntários mantiveram o atendimento de forma remota.
No entanto, como a ligação para o telefone 188 pode ser recebida por voluntários de todo o país, Valdete explica que não há levantamento local do volume de chamadas correspondentes a Mogi. “Não temos estatísticas, mas posso garantir que são muitos atendimentos, seja pelo telefone 188, chat ou email. Alguns postos também atendem presencialmente, mas para isso é necessário ter um número maior de voluntários e estrutura física para garantir o sigilo e anonimato do serviço”, considera a coordenadora.
Além do sistema telefônico, há várias outras ações desenvolvidas pelo CVV, sempre com foco no autoconhecimento. Uma delas é o CVV Comunidade, formado por vários projetos, como o Malas Prontas, que leva atendimento a locais onde há necessidade, como aconteceu no caso do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), rompimento da barragem de Brumadinho (MG) e massacre na escola estadual professor Raul Brasil, em Suzano. Nestas ocasiões, os voluntários montam barracas com faixas que trazem os dizeres “CVV à sua disposição” para atendimento às vítimas e seus familiares.
Tem ainda o Cine Ser, com a exibição de curtas-metragens seguida de reflexão sobre os temas abordados; o projeto Caminho de Renovação Contínua (CRC), que consiste em rodas de conversa online focando o autoconhecimento; palestras e diálogos com alunos de escolas; e o Grupo de Apoio a Familiares e Sobreviventes Suicidas (GAS), atividade presencial que está temporariamente suspensa durante a pandemia de Covid-19.
As entidades e escolas que queiram receber palestras ou rodas de conversa promovidas pelos voluntários do CVV podem enviar email para [email protected] em qualquer época do ano. Este também é o caminho para informações sobre as demais ações do CVV. “As pessoas focalizam muito o setembro, que ficou conhecido como o mês de prevenção ao suicídio, mas isso deve ser uma preocupação constante e realizada durante todo o ano”, alerta.
Sem o recebimento de verbas municipais, estaduais ou federais, o CVV tem o Centro de Valorização Humana (CVH) como mantenedor, responsável pelo recebimento de doações de equipamentos e dinheiro, além da realização de campanhas e eventos, como bingos e bazares, entre outros, para a arrecadação de recursos.
“Os voluntários, que podem, também contribuem mensalmente para ajudar no pagamento de contas de água, luz e internet. Mas tudo isso acontece através da mantenedora”, reforça Valdete.
O site para mais informações sobre doações é o www.cvh.ong.br.
Grupo samaritanos é inspiração
O Centro de Valorização da Vida (CVV) tem sua origem no Samaritanos, grupo britânico criado pelo pastor anglicano Edward Chad Varah, que iniciou seu trabalho em 1936, após ser chamado para o funeral de uma menina de 14 anos.
A garota havia se suicidado ao ficar menstruada pela primeira vez, já que, sem orientação sobre o assunto, pensou estar com alguma doença grave e, desesperada, resolveu tirar a própria vida.
O caso deixou o pastor tão indignado que ele passou a dar aulas gratuitas de educação sexual para jovens. Mais tarde, ao ler em um jornal britânico a notícia de que três pessoas se suicidavam a cada dia em Londres, decidiu fundar, em 1953, numa pequena sala munida de telefone, na igreja de Saint Stephen, no centro londrino, o grupo Samaritanos, para ouvir pessoas que buscavam alguém para conversar.
Varah publicou uma nota em um jornal local informando sobre o atendimento direcionado a todos que sentissem necessidade de desabafar.
Foi nesta pequena igreja anglicana, arrasada por bombardeios da Segunda Guerra Mundial, que o reverendo desenvolvia a filosofia da escuta usando um antigo aparelho telefônico. No início, contava apenas com a ajuda de uma secretária, mas logo o Samaritanos cresceu rapidamente, tanto em número de usuários quanto de voluntários, que se uniram ao religioso para dar conta da demanda, sob sua orientação e treinamento.
Em Nova York (EUA), serviços semelhantes já existiam desde a primeira década do século XX, como o Save One Life, que oferecia apoio emocional via teleatendimento. Mas foi com o Samaritanos que a ideia correu o mundo, inspirando a criação do Telefono Amico, na Itália; o S.O.S. Amitié, na França; o Telefono de La Esperanza, na Espanha; o Seelsorge, na Alemanha; e o Centro de Valorização da Vida (CVV), no Brasil.