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Mário de Almeida, açougueiro que fez história no Mercadão, morre aos 88 anos

Mogi das Cruzes perde um de seus mais antigos açougueiros, que fez história no Mercado Municipal. O mogiano Mário de Almeida, 88 anos, foi velado nesta terça-feira (3), no Velório Municipal Cristo Redentor, e será sepultado às 16 horas, no Cemitério São Salvador, ambos no Parque Monte Líbano, na cidade. A causa da morte não […]

3 de maio de 2023

Reportagem de: O Diário

Mogi das Cruzes perde um de seus mais antigos açougueiros, que fez história no Mercado Municipal. O mogiano Mário de Almeida, 88 anos, foi velado nesta terça-feira (3), no Velório Municipal Cristo Redentor, e será sepultado às 16 horas, no Cemitério São Salvador, ambos no Parque Monte Líbano, na cidade. A causa da morte não foi divulgada.

Nascido na casa onde a mãe Odila de Almeida morava, na rua São João, Mário de Almeida ficou órfão aos 3 anos e não conheceu o pai, então foi adotado pelo casal José Rodrigues e Capitulina de Castro Tobias. Ainda na infância, o mogiano já ajudava os pais adotivos no Mercado Municipal, onde a família mantinha boxes de garapa e de refeições.

Ali teve o primeiro emprego, no açougue que pertencia a Nito Bernardo e passou também pelos boxes mantidos por Antonio Memberg e José Goulart de Miranda, que também vendiam carnes, até comprar seu próprio açougue no tradicional Mercadão, que atraia grande clientela, inclusive de outras cidades. Era o início do trabalho que o acompanharia por mais de quarenta décadas.

Assim, ficou conhecido na cidade e logo abriu mais dois açougues – um na rua Ipiranga e outro na avenida Francisco Ferreira Lopes. Mas foi no Mercado que trabalhou até se aposentar, em 1988. Ainda atuou como inspetor de alunos do Colégio São Marcos, fez parte da equipe da Secretaria Municipal de Agricultura, na gestão do ex-prefeito Waldemar Costa Filho, e distribuía merenda às escolas da cidade, quando o prefeito era Francisco Ribeiro Nogueira.

Apaixonado por esportes, presidiu as ligas municipais de futebol de campo e salão, jogou em times de várzea da cidade e torcia para o Vila Santista, União e XI da Saudade. Em 1994, foi aos Estados Unidos assistir à Copa do Mundo e fazia participações ao vivo na extinta Rádio Diário.

Personagem da série Entrevista de Domingo, de O Diário, em 11 de julho de 2010, ele compartilhou suas histórias com o leitor. Confira:

Quais as lembranças de sua infância na Cidade?

Quando nasci, minha mãe morava na Rua São João e não conheci meu pai. Ela morreu quando eu tinha apenas 3 anos, então fiquei um tempo com meus padrinhos (Abel e Marta de Souza) até que fui morar com meus pais adotivos, na Rua Coronel Souza Franco, onde atualmente funciona uma loja. Passei a infância naquela região da Cidade. Ele tinha um bar na Coronel, onde vendia garapa e, posteriormente, adquiriu dois boxes no Mercado Municipal, que ficava nas proximidades. Em um deles, minha mãe adotiva servia almoço, salgados e café e, no outro, vendia garapa. Fui criado junto com as filhas deste casal, a Carmem, Ana, Therezinha e Laíde, sendo que hoje somente esta última é viva e mora em Mogi. Da Coronel, nos mudamos para a Major Arouche de Toledo, 253.

E sua juventude?

Assistia aos seriados nos cines Parque e Odeon, mas também ia ao Urupema, Avenida e Vera Cruz, onde sempre acompanhava os melhores filmes. No Cine Parque, havia um espaço no qual costumava jogar tênis de mesa antes ou depois das sessões, ao lado de amigos como Olavo, Nelson, Delson e Jairo (o entrevistado não se recorda os sobrenomes). Também frequentava os bailes do Vila, Itapeti Clube e Portuguesa, mas no Carnaval, gostava mais de ir ao União. Também fui presidente do Primeiro de Setembro, que tinha um salão de bailes na Rua Barão de Jaceguai, então, sempre estava lá. Outras distrações eram os passeios no Jardim (Praça Oswaldo Cruz), o corso carnavalesco na Dr. Deodato (Wertheimer) e, depois, o Carnaval de rua na Avenida (Voluntário Fernando Pinheiro Franco). Havia muita serpentina e lança perfume, que jogávamos nas pessoas numa brincadeira sadia. O Bloco Estrela do Sul, organizado pelo senhor Tibet, saía do São João em direção ao Centro da Cidade, e também tínhamos o Ki-Ka-Lôr e Ki-Frio. Além disso, acompanhava as apresentações das tradicionais fanfarras da Cidade e torcia pelo grupo do Liceu Braz Cubas, onde havia estudado e tinha amigos.

Onde o senhor iniciou os estudos?

Fiz o primário no Grupo Escolar Coronel Almeida, onde tive colegas de classe como Wilson Cury, Mauricio Najar, Luiz Gonzaga, Henrique Borenstein, Jorge Cocicov, Teodoro Tomiyama, entre outros. Minhas professoras foram dona Wanda Barbieri, Chiquinha, América e Zilda Bandeira e o diretor da escola, na época, era o professor Adolpho Cardoso. Nosso uniforme era calça cáqui, camisa e meias brancas e tênis. Depois, fiz o curso preparatório para o Exame de Admissão com a professora Iracema Brasil de Siqueira e comecei o ginásio no Liceu Braz Cubas, que ainda funcionava na Rua Princesa Isabel de Bragança, no local onde foi construído o edifício Helbor Tower. Tive aulas com os professores Dr. Plínio Boucault, Dudu Motta, Mauricio Chermann, Ary Silva, Sother Batalha, mas estudei somente um ano do curso básico e parei por causa do trabalho.

Qual foi seu primeiro emprego?

Desde criança ajudava meu pai adotivo a moer cana para fazer garapa. Aos 10 anos, trabalhava com ele no box do Mercadão, que tinha um movimento muito bom e atraía várias pessoas de fora da Cidade, que vinham para Mogi das Cruzes somente para fazer compras lá. Como não havia supermercados na época, era comum as pessoas descerem de trem, na estação, e seguirem em direção ao Mercadão comprar tudo o que precisavam, principalmente carnes porque lá dentro havia vários açougues. Depois de passar um tempo ajudando meu pai, fui trabalhar com o Nito Bernardo, que era açougueiro e, em seguida, com o Antonio Memberg e José Goulart de Miranda. Ao todo, fiquei mais de 40 anos lá porque logo montei meu próprio açougue, no box 11, ainda no antigo Mercado, que tinha uma área aberta no meio. Ali era possível ver as andorinhas dando voltas. Do lado externo, havia os banheiros e os cavalos ficavam amarrados nos postes enquanto seus donos faziam compras. O serviço de alistamento militar também funcionava perto dali.

Ficaram mais recordações do Mercado?

Foi um tempo difícil porque começava a trabalhar às 4 horas para desossar a carne e saía de lá por volta das 20h30, depois de lavar o açougue. Na época em que o Rodolpho Jungers foi prefeito de Mogi, ele derrubou o Mercado para construir um novo. Durante este período de obras, trabalhamos no Largo da Feira (Francisco Ribeiro Nogueira). Passamos três anos ali e lembro que sempre que chovia muito, havia enchente, mas como eu e o Omir Secomandi, conhecido como Miroca, fizemos nossos boxes em cima de estrados, eles ficaram altos e não chegamos a perder mercadorias por causa da água. Porém, quem vendia verduras, às vezes, acabava perdendo tudo. Ali, o movimento era muito bom, principalmente porque funcionava, junto com o Mercado, uma feira livre com várias barracas. Depois voltamos para o novo Mercado, que ficou uma maravilha. Aos finais de semana, muita gente também vinha atrás dos doces de frutas cristalizadas e da geléia de mocotó, que ficaram famosos e eram produzidos pela família Salvarani.

O senhor teve outros açougues na cidade?

Também tive um açougue na rua Ipiranga e outro na Francisco Ferreira Lopes, em frente ao restaurante Mogi Recife. Então, administrava três açougues ao mesmo tempo, sendo que tinha dois funcionários no Mercadão e um em cada um dos outros dois comércios. A carne era trazida pela empresa Goulart Porto e Cia., de Barretos até o matadouro que havia em Braz Cubas, onde era distribuído aos açougueiros da Cidade. Comprar carnes no Mercado era tradição, tanto que abríamos aos domingos e feriados até o meio-dia para atender a clientela. Ali também fiz muitos amigos. Com o tempo, vendi os açougues na Ipiranga e Francisco Ferreira Lopes e, em 1988, me aposentei e passei o box do Mercado ao meu sobrinho.

O que o senhor passou a fazer após a aposentadoria?

Fui convidado para trabalhar como inspetor de alunos do Colégio São Marcos, onde fiquei um ano. Depois, passei a fazer parte da Secretaria Municipal de Agricultura, na época do Waldemar (Costa Filho, ex-prefeito) e, na gestão do Chico Nogueira (Francisco Ribeiro Nogueira), distribuía merenda às escolas. Depois de três anos, saí e parei de trabalhar de vez. Então, comecei a passar um período em Mogi e outro em Bertioga, onde tenho casa no bairro do Indaiá desde 1975, quando a rodovia Mogi-Bertioga ainda não existia e íamos à praia por Santos e Guarujá. A viagem que durava até cinco horas, hoje é feita em 40 minutos.

E seu envolvimento com o esporte?

Começou desde criança, quando acompanhava meu cunhado José Benedito Ribeiro, o Canindé, que trabalhava como árbitro da Liga Municipal de Futebol. Ele me levava onde quer que fosse apitar um jogo, inclusive em outras cidades, como Suzano e Guararema. Inclusive, ele morreu ainda novo, apitando uma partida em Braz Cubas. Foi com ele que comecei a gostar de futebol e, na juventude, joguei em times de várzea, fui sócio do Vila Santista e do União Futebol Clube. Como tinha uma bola de capotão, todos os domingos juntava os colegas para jogar no campo que chamávamos de ´Esmaga Sapo´ e ficava atrás do Instituto Dona Placidina. No próprio Mercado, montamos o time Alvorada, que disputava campeonatos amistosos com outras equipes da cidade. Faziam parte dele, o Olavo Secomandi, o goleiro Móca, Floriano, Victor, Nelsinho japonês, entre outros. Nós íamos em cima de caminhões para as partidas. Porém, mais do que jogar, gostava de assistir aos jogos. Primeiramente, torcia para o Vila, depois acompanhei por muitos anos o União, do qual fui conselheiro. Anos mais tarde, não perdia um jogo do XI da Saudade, nas tardes de sábado, no antigo campo do União da rua Casarejos. O Tote (Tirreno Da San Biagio, fundador de O Diário) trazia muitos jogadores profissionais de fora para cá, como Garrincha, Ademar Pantera, Djalma Dias, Savério, e muitos outros, que jogavam ao lado do Ery (Brasil de Siqueira), Chibão (Milton Alves), Chibinha (José Alves), Peru (José Pieruccetti) e do próprio Tote. Era o tempo em que as famílias mogianas se reuniam para assistir aos jogos de futebol.

Como o senhor avalia a situação do União hoje?

É lamentável e irreversível. No auge do time, jamais poderia imaginar que ele chegaria onde está hoje, ainda mais com o campo e ginásio de esportes que havia na Rua Casarejos. Hoje ficou muito difícil sair da crise. Não pensei que o União acabaria assim. Como sempre fui ligado a esportes, presidi as ligas municipais de futebol de campo e salão e, em 1994, tive a oportunidade de ir aos Estados Unidos, ao lado de mais sete mogianos, acompanhar a Copa do Mundo, quando o Brasil conquistou o tetra. Ligava de lá e fazia comentários ao vivo na antiga Rádio Diário, mas como alguns do grupo tinham compromissos em Mogi, voltamos antes das duas partidas finais, mas esta foi uma experiência inesquecível.

Qual sua distração?

Gosto de passar uns dias em Bertioga e também de viajar. Leio jornais e revistas, ouço samba e sertanejo e, na TV acompanho os telejornais e, principalmente, a programação esportiva das tevês por assinatura. Além do futebol, gosto de ver vôlei e basquete. Faço parte do grupo da terceira idade Renascer, no Alto do Ipiranga, e lá participo dos bailes e do time de vôlei adaptado.

O senhor teve envolvimento com a política mogiana?

Fui candidato a vereador em 1982, na época em que o Franco Montoro, do PMDB, estourou. Eu era do PDS e fui bem votado, mas não me elegi. Depois desta vez, não tentei mais, apesar de acompanhar e gostar de política. No entanto, ajudei em campanhas do Waldemar, que era meu amigo, do Boy e do Gondim (Luiz Carlos Gondim Teixeira, deputado estadual). O Waldemar era enérgico e muito direito em tudo, então, gostava que as pessoas também fossem corretas com ele. Várias vezes, fui ao sítio dele, em Sabaúna. Na época, eu admirava o Paulo Maluf, então, como o Waldemar era malufista também, nos dávamos bem. Também cheguei a ir ao sítio do Boy (Valdemar Costa Neto, deputado federal), na MogiDutra, buscar limões.

 

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